Assim como a maioria dos carros chineses, o SUV traz ampla lista de itens de série já na versão Talent, de entrada; construção e dirigibilidade, contudo, precisam evoluir

testelifanx60_destaque testelifanx60_26

Nilo Soares
Especial para o Autos Segredos

Entrei na concessionária da Lifan em Belo Horizonte e expliquei ao atendente que eu era jornalista estava ali para buscar um X60 de frota de imprensa (a unidade que aparece nas fotos) para teste do Autos Segredos. O rapaz me encaminha a um consultor, que me convida a sentar enquanto acaba de conversar com um cliente ao telefone. Durante os minutos de espera, não resisti em ouvir a conversa dele: “Olha, a gente não vende mais com o 320 (aquele subcompacto que imita o Mini Cooper). Nosso único produto agora é o X60”. Segue um silêncio de alguns minutos, enquanto o consultor ouvia a pessoa que estava do outro lado da linha, até que ele volta a falar. “Então, esses problemas de falta de peças ficaram para trás. É que antes nossa marca era representada pelo Grupo Effa, e agora a Lifan assumiu diretamente as operações no Brasil. É uma nova fase, sem as falhas do passado”. Quando saí da revenda, ao volante do carro de teste, fiquei pensando que, por um lado, a Lifan realmente deu um passo importante para se firmar no Brasil ao tomar as rédeas dos negócios por aqui. Por outro lado, a empresa ainda engatinha por aqui e há muito o que provar ao consumidor. A concessionária em que retirei o carro, por exemplo, é a única da marca em Minas Gerais.

testelifanx60_21Considerados os dois lados da história, parece que o destino da marca no Brasil depende diretamente do X60. Preço competitivo, o SUV já tem: a versão Talent, avaliada, custa R$ 55.900. Se ele tiver boas qualidades como produto, é só uma questão de a Lifan fazer seu dever de casa. Caso contrário, será difícil para o modelo se destacar frente aos concorrentes nacionais, que já têm reputação formada e preços no mesmo patamar. Mas será que o SUVinho convence?  Comecemos com a análise mecânica do modelo. O X60 é equipado com um motor 1.8 16V, com bloco e cabeçote confeccionados em alumínio e duplo comando de válvulas variável, acionados por corrente metálica. Apesar da concepção  atual, o propulsor rende modestos (para a cilindrada) 128 cv de potência a 6.000 rpm e 16,8 kgfm de torque a 4.200 rpm. O câmbio é manual de cinco marchas (não é oferecido outro tipo de transmissão), com tração dianteira (também não há opção de tração integral). A direção tem assistência hidráulica e, por fim, a suspensão é independente nas quatro rodas: do tipo McPherson na dianteira e por braço arrastado na traseira.

MELHOR NA TEORIA QUE NA PRÁTICA A ficha técnica até revela detalhes interessantes, como o motor com comandos de válvulas variáveis e suspensão independente nas quatro rodas, mas o comportamento dinâmico do X60 ficou aquém do esperado. Em baixa rotação, o modelo demonstra pouco fôlego, o que implica em arrancadas e retomadas ruins. Muitos podem responsabilizar o cabeçote multiválvulas por essa característica, mas há pelo menos outros dois culpados: o elevado peso de 1.330 kg do X60 e o câmbio mal-escalonado, com buracos entre algumas marchas, como da segunda para a terceira. A 120 km/h, o conta-giros registra cerca de 3.500 rpm. Para extrair bom desempenho, é preciso reduzir as marchas e fazer o propulsor trabalhar em rotações mais elevadas. O problema é que os engates não estimulam muito a utilização da caixa de cinco velocidades, pois são imprecisos e barulhentos, enquanto o pedal da embreagem é pesado. Outro ponto criticável é que o propulsor tem funcionamento um tanto áspero e seu ronco invade sem cerimônia o habitáculo. É possível ouvir até a aspiração do ar! Diante de todo o desconforto, talvez seja menos cansativo andar sem pressa que tentar extrair desempenho máximo do 1.8 16V… A direção também induz a uma tocada tranquila, pois é bastante indireta torna-se leve demais em alta velocidade. Ao menos o SUV se redime parcialmente no quesito estabilidade: para um veículo de carroceria elevada, ele se sai bem nas curvas, sem inclinar demais a carroceria ou subesterçar exageradamente. Mas esse comportamento é conseguido à base de um acerto rígido da suspensão, de modo que as irregularidades do piso são bastante sentidas pelos ocupantes.

testelifanx60_16Embora a Lifan não disponibilize informações sobre a construção do X60 (ao menos no Brasil), a impressão é de que o modelo utiliza uma plataforma antiga. O para-brisa é muito inclinado, o painel é curto, as colunas são finas para os padrões atuais e as janelas têm base baixa. A ampla área envidraçada ao menos traz a vantagem de proporcionar boa visibilidade em todas as direções, e ainda há o auxílio dos enormes retrovisores externos. O motorista senta-se em posição razoável, alinhado com pedais e volante, que tem pegada correta. O que dificulta a tarefa de encontrar a postura ideal é o ajuste da direção apenas em altura, e não em profundidade, e mesmo assim com curso muito limitado. Já o banco do motorista também conta com regulagem de altura e proporciona bom suporte para as pernas, mas poderia acomodar melhor a lombar e ter abas laterais mais generosas, pois nas curvas o corpo fica sem apoio. Os faróis, com fachos separados alto e baixo e canhão poliespsoidal, mostraram bom resultado em termos de iluminação. Há ainda luzes de neblina e LEDs tanto nos faróis quanto nas lanternas.

testelifanx60_5Um dos maiores pontos positivos do X60, senão o maior, é o espaço interno. Atrás, chegam a ser surpreendentes os vãos que os ocupantes dispõem para as pernas e a cabeça. Como a largura do banco é limitada, transportar três adultos ali acarretará em algum aperto para os ombros, mas não para os pés, pois o túnel central é baixo e rouba pouco espaço do assoalho. Além do mais, o habitáculo é bastante modulável: é possível dobrar o banco dianteiro e sentar-se atrás, transformando-o em um confortável apoio para as canelas. Como o encosto do banco posterior também é reclinável, quem se utiliza desse recurso desfruta do conforto de uma espreguiçadeira. Por sua vez, o acabamento apresenta falhas, principalmente nas forrações de portas, que têm encaixes irregulares. No painel, não notamos esse problema: ali, os arremates são bons, embora todas as peças sejam confeccionadas em plástico rígido, algo que não chega a destoar dentro da categoria de SUVs compactos. Os bancos também apresentaram boas costuras. Os instrumentos têm leitura difícil: o conta-girps tem números pequenos e o velocímetro, digital, tem iluminação azul que atrapalha bastante a visualização quando há claridade. Ao menos o cluster é completo e inclui termômetro do fluido de arrefecimento do motor. O porta-malas comporta 405 litros de bagagem, número razoável, e o vão amplo permite a colocação de grandes objetos.

GENEROSIDADE CHINESA É mais que conhecida a estratégia das marcas chinesas de oferecer muitos equipamentos de série. O X60 não foge à regra: traz, de série, travas e retrovisores elétricos, faróis com acendimento automático, bancos revestidos em couro, sensores de estacionamento, volante multifuncional e ar-condicionado. Os vidros também são elétricos, nas quatro portas, com sistema um-toque, mas a unidade avaliada apresentou um problema, provavelmente devido a um curto-circuito: iluminados, os interruptores de todas as portas ficavam piscando. O veículo, aliás, apresentou também uma falha no marcador de combustível, que se movia apenas entre as marcações de ¾ e ¼, mesmo quando o tanque totalmente cheio ou praticamente vazio. Equipamento que funcionou a contento e acabou se mostrando o mais interessante do SUV foi a central multimídia, com grande variedade de funções, entre as quais navegador GPS, Bluetooth, CD/Player e DVD Player. O sistema mostra não só o consumo, mas também a quantidade de monóxido de carbono expelida na atmosfera e calcula o custo do quilômetro rodado, exigindo apenas que o motorista lance o valor cobrado pela gasolina. Há até joguinhos na interface! A única ressalva fica para  a câmera de ré, pois há um delay de vários segundos do momento em que a marcha é engatada até a visualização das imagens na tela. Por mais de uma vez, eu já estava quase concluindo a manobra, usando os infalíveis retrovisores e o vidro traseiro, quando o equipamento, enfim, mostrou a área atrás do veículo.

testelifanx60_9O X60 também oferece bom pacote de itens de segurança. Além dos agora obrigatórios airbags frontais e freios ABS, há os eficientes (e ainda raros no Brasil) ganchos Isofix para fixação de cadeirinhas. No banco traseiro, um deslize: há cintos de três pontos apenas para os passageiros das laterais. Quem se senta no meio conta com um arcaico dispositivo subabdominal. Ao menos há encostos de cabeça para todos. Os freios são a disco nas quatro rodas, recomendáveis em um veículo pesado como o SUV chinês, mas o pedal apresentou pouca modularidade, funcionando na base do tudo ou nada. Quando totalmente exigido, contudo, o sistema funcionou bem, imobilizando o veículo sem desvios de trajetória.

Quanto ao consumo, o modelo se saiu pior que o esperado, com médias de 7,8 km/l na cidade e 10,2 km/l na estrada. As marcas foram obtidas com e ar-condicionado ligado durante a maior parte do tempo e com gasolina no tanque, até porque esse é o único combustível que o X60 bebe (não há sistema flex). Vale sempre lembrar que vários fatores influenciam diretamente no gasto de combustível de um automóvel, como relevo, estilo de condução do motorista e condições das vias, entre outros.

testelifanx60_19CAMINHO A PERCORRER Lembra-se quando mencionamos que o X60 enfrenta concorrentes nacionais de peso? Pois é, esse parece ser o maior problema do SUV da Lifan. Ele tem preços alinhados com as versões mais baratas de EcoSport e Duster, oferece mais equipamentos e tem cinco anos de garantia. Entretanto, durante nosso teste, o chinês mostrou ter construção e dirigibilidade inferiores às dos dois rivais, ao passo que o motor 1.8 não apresentou o desempenho esperado e ainda bebeu muito combustível. Isso sem contar as falhas apresentadas pela unidade avaliada, que podem, sim, ser pontuais, mas não deixam de chamar a atenção. Tudo isso, somado à já citada rede de assistência da Lifan, que ainda é bastante restrita no Brasil, acaba fazendo com que o X60 perca o brilho diante da concorrência. Ainda assim, vale ficar de olho na marca chinesa. Se as ações junto ao consumidor realmente se mostrarem consistentes neste novo período, em que a empresa atua sem intermediários no mercado brasileiro, seus futuros produtos podem se tornar bastante competitivos nos próximos anos.

AVALIAÇÃO Nilo Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 7 6
Consumo (cidade e estrada) 5 5
Estabilidade 6 5
Freios 7 6
Posição de dirigir/ergonomia 6 6
Espaço interno 9 8
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 8 8
Acabamento 7 6
Itens de segurança (de série e opcionais) 7 7
Itens de conveniência (de série e opcionais) 8 6
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 6 6
Relação custo/benefício 6 5

testelifanx60_17

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina, 1.794cm³ cm³ de cilindrada, 128 cv de potência máxima a 6.000 rpm, 16,8 mkgf de torque máximo a 4.200 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
11,2 segundos

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
170 km/h

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, independente, braço arrastado

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 7 x 16 polegadas, pneus 215/65 R16

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,325; largura, 1,790; altura, 1,690; distância entre-eixos, 2,600

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 55 litros; porta malas: 405 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 370 quilos; peso: 1.330 quilos

[slideshow gallery_id=”8″]
Fotos | Marlos Ney Vidal