crash-unoNão é novidade dizer que os automóveis brasileiros são muito mais inseguros que seus similares vendidos em outros continentes. Desde que o Latin NCAP começou a realizar testes de impacto, em 2010, os veículos comercializados na América do Sul vêm acumulando sucessivos resultados ruins. Vale ressaltar ainda que todas as avaliações foram amplamente divulgadas pela imprensa local. Contudo, nos países desenvolvidos, o desempenho fraco dos produtos nacionais no que diz respeito à segurança continua gerando repercussões. Durante o fim de semana, a agência de notícias Associated Press veiculou uma reportagem que classifica os carros tupiniquins como “mortais”. O material foi publicado em vários jornais, entre os quais o New York Times, o Boston Herald e o Detroit News todos dos Estados Unidos, e o The Guardian, da Inglaterra.

crash-celtaO texto começa explicando algumas características do mercado brasileiro, atualmente o quarto maior do mundo graças à incorporação de milhares de novos consumidores, que formam a chamada nova classe média. Para suprir a enorme demanda, a indústria nacional fabrica cerca de 10 mil veículos diariamente. Porém, como destaca a reportagem, os produtos locais são inferiores em segurança quando comparados aos similares de outros países, devido à ausência de equipamentos de proteção passiva e pior qualidade dos materiais empregados na manufatura.  Ainda por cima, a larga escala industrial e a economia de matéria prima não são responsáveis por automóveis mais baratos. Enquanto a margem de lucro nas montadoras é de aproximadamente 3% nos Estados Unidos e de 5% na média mundial, por aqui a fatia atinge 10%!

O resultado não poderia ser diferente:  tão impressionantes quanto os números de produção e de lucratividade industrial são os índices mortes no trânsito. O texto compara as estatísticas dos Estados Unidos com as do Brasil e atesta o contraste: enquanto os norte-americanos reduziram a quantidade de óbitos em 40% no período de 10 anos, os filhos da pátria mãe gentil amargam um aumento de 72% no mesmo período. Por lá, 12.435 pessoas perderam a vida nas estradas em 2010, contra 9.059 por aqui, mas o detalhe é que a frota ianque é cinco vezes maior que a tupiniquim. Assim sendo, a taxa de mortalidade nacional é quatro vezes superior. A reportagem ressalta que, além de vítimas fatais, os acidentes deixam muitos feridos, que frequentemente chegam aos hospitais em estado gravíssimo.

crash-marchUm engenheiro que trabalha na indústria automobilística norte-americana falou à Associated Press em anonimato. Ele foi categórico ao afirmar que as empresas não produzem carros mais eficientes no Brasil simplesmente porque não há leis que determinem parâmetros. O especialista ainda destacou que os baixos investimentos em segurança veicular são comuns nos países menos desenvolvidos e incluiu Rússia, China e Índia na mesma situação do Brasil. O texto menciona que a obrigatoriedade de airbags frontais e freios ABS finalmente ocorrerá, a partir de 2014, mas destaca que o país ainda não tem mecanismos de regulação, como crash-tests obrigatórios. Também há menção ao desconhecimento do consumidor brasileiro sobre a importância dos equipamentos de proteção ativa e passiva.

O texto menciona alguns veículos disponíveis no mercado nacional que obtiveram notas bem piores que os similares europeus nos testes de impacto, entre os quais o Nissan March/Micra (quatro estrelas na Europa e duas no Brasil) e o Renault/Dacia Sandero (três estrelas na Europa e uma no Brasil). O texto ainda menciona o Ford Ka (quatro estrelas na Europa e uma no Brasil), embora destaque a diferença de geração entre os modelos vendidos nos dois continentes. A reportagem não esqueceu de Chevrolet Celta, Fiat Uno e Volkswagen Gol, que lideram o ranking de emplacamentos e empatam na insegurança aos ocupantes: todos receberam uma estrela (embora o hatch da Volkswagen tenha sido avaliado também com os airbags e, em tal situação, tenha conquistado três estrelas). Por fim, há críticas ao importado JAC J3, que mesmo equipado com os airbags, ficou com apenas uma estrela.

print-nyt

As empresas mencionadas foram contatadas pela reportagem. Algumas delas tentaram justificar os resultados ruins, mas nenhuma se desculpou ou assumiu as falhas.  David Ward, diretor da FIA (Federação Internacional do Automóvel), que também foi entrevistado pela Associated Press, destacou que tanto os Estados Unidos quanto os países da Europa já passaram por situação semelhante em décadas passadas e melhoraram a qualidade de seus veículos. Será que por aqui ocorrerá o mesmo?

Fotos: Latin NCAP/Divulgação

Fonte: Associated Press/New York Times