Uno Ciao marca o fim da linha do clássico da Fiat

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Ajudei a formar milhares de condutores, fui o primeiro carro de muitos, carreguei sonhos e recordações. Mas a vida é um ciclo de início, meio e, depois de 37 anos, o meu fim chegou

Por Fiat Uno Ciao

Minha história no Brasil começa em 1984, apenas um ano depois do nascimento do meu irmão italiano. Por aqui, apesar do mesmo batismo e de termos a mesma mãe, tínhamos nossas diferenças, talvez por conta dos meus pais engenheiros, incluindo alguns brasileiros. Arrisco a dizer que era mais bonito. Não fui o primeiro Fiat nascido no Brasil — o primogênito foi o 147 e, depois, vieram seus derivados Oggi, Panorama, Fiorino e 147 picape.

Vocês costumam usar a expressão “quando cheguei aqui, tudo era mato”. No meu caso, não chega a tanto, pois, o Fiat 147 abriu caminho. Mas, ainda assim, em 1984, tinha muito mato nas redondezas do complexo industrial de Betim (MG). De um morro, por exemplo, os paparazzi automotivos viviam tentando fotografar a mim e aos meus irmãos em gestação.

Dos 45 anos de minha mãe Fiat, participei ativamente de seu crescimento no mercado brasileiro ao longo dos meus 37 anos, muito bem vividos. Minha primeira geração ficou em produção por 29 anos, de 1984 a 2013. Ela acabou tendo seu descanso, por exigências relacionadas à segurança.

Meu irmão viu modelos históricos sendo criados, como o Fiat Tempra, primeiro carro de luxo da minha mãe por aqui. Ele ainda foi testemunha dos desenvolvimentos de Premio, Elba, Fiorino, Fiorino Pickup, Tipo, Palio, Siena, Weekend, Strada, Doblò, Brava, Marea, Marea Weekend, Stilo, Idea, Punto, Linea, Bravo, Novo Palio e, por fim, do Grand Siena. Opa, pera lá, ele (Mille) também me viu em gestação, afinal, quando ainda era um protótipo, lá em 2009, ele me emprestou seus faróis para que eu saísse em testes por esse imenso país chamado Brasil.

Dos protótipos de 2009, ganhei as ruas em 2010, já como modelo 2011. Eu era a segunda geração e tinha uma responsabilidade enorme nas costas. Mas como convivi com meu irmão durante três anos, ele me deu dicas de versões e de seus pioneirismos, como sua versão Mille ou como ser o primeiro carro turbo do Brasil.

Mas ainda em desenvolvimento, eu também iria chegar ao mercado inovando. Antes de ser batizado oficialmente como Uno, eu era chamado de Projeto 327, nome da inédita plataforma que fui o responsável por estrear aqui no Brasil. Inclusive, abri a porteira para as novas gerações de Palio e Grand Siena, construídas a partir das minhas costelas.

Seguindo seus conselhos, herdei o uso do motor 1.0 — tive outros, mas o meu forte eram os 1.000 cm³. Me vesti de aventureiro na versão Way, assim como meu irmão, afinal tinham os buracos das capitais para encarar e as eternas estradas de chão batido espalhadas pelas cidades do interior.

Não tive o glamour das versões 1.5R, 1.6R ou mesmo a Turbo como meu irmão, mas também tive meu lado de visual esportivo com a opção Sporting. No caminho das inovações, ganhei a opção Evolution, e acredito ter sido o primeiro popular com sistema Start&Stop. Aliás, também fui o primeiro a ter para-brisa térmico, com desembaçador para ajudar nos dias de chuva. Até mesmo porque, lá no começo da década passada, ar-condicionado ainda era para poucos.

Entretanto, na minha opinião, o fato mais importante da minha vida foi ser o responsável pela estreia dos motores 1.0 e 1.3 Firefly no Brasil. Hoje, este propulsor é coração de muitos outros Fiat e, veja só, será que lá, em 1984, meu irmão imaginaria que um motor de Fiat ia equipar modelos de Jeep e futuramente até das francesas Citroën e Peugeot? Eu duvido muito.

Neste ano, tive uma pontinha de inveja que o motor 1.3 Firefly que estreou em 2015 ganhou sua versão turbo. Imaginem como eu ficaria bonito num traje esportivo, com motor turbo, e recebesse o nome de 1.3R TF270? A vida seria uma festa. Mas nem tudo é como desejamos, não é mesmo?

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Assim como meu irmão, vi novos modelos chegando, como o Novo Palio, Grand Siena e Novo Fiorino — este último, aliás, foi o único derivado que tive. Também fui testemunha das criações de Toro, Mobi, Argo, Cronos, Nova Strada e, recentemente, do Pulse.

A vida passa como um sopro e quando assustamos já somos “trintões”; ou quase um quarentão, como eu. Afinal de contas, são 37 anos de Brasil.

Mesmo com a família crescendo ao longo da minha jornada, a linha 1 da fábrica de Betim é minha desde 1984. Aqui na fábrica muitos se referem como a linha do Uno. Viu como sou chique?

Como modelo mais antigo da Fiat, não vou ser modesto. Eu sei o que fiz e contribuí para que ela se tornasse uma marca conhecida e com uma legião de fãs. Eu também tenho meus fãs.

Ajudei a formar muitos condutores, bastava ver os carros de autoescola. Estive presente em muitos testes de direção, e não falo só de mim. O Mille, como meu irmão era chamado em seu fim de ciclo, também foi um bom aliado de muitos no sonho de ser tornar um habilitado.

Também sei que fui e ainda sou o primeiro carro de muitos, inclusive sendo o carro familiar de boa parte dos brasileiros. Afinal, nós somos mais de quatro milhões nas ruas desde 1984. Eu sempre escuto muitos a falarem por aí: “Meu primeiro carro foi um Uninho”, como sou carinhosamente chamado. Isso me enche de alegria.

Mas como todos sabem a vida é feita de ciclos e tudo tem seu começo, seu meio e seu fim. E o meu chegou neste último mês de 2021.

Enquanto escrevo este texto, minhas últimas unidades começam a deixar as linhas de produção da Fiat, em Betim (MG). Como homenagem, minha mãe me deu uma série de despedida. Limitada a 250 unidades, fui batizado de Uno Ciao. Para quem não se lembra, meu irmão foi embora como Grazie Mille.

Para essa data histórica, minha mãe convidou alguns jornalistas para testemunharem e ajudarem na montagem do último lote da minha existência.

Entre eles, estavam os jornalistas Juliano Barata, Raimundo Couto, Alexandre Badolato e o Marlos Ney Vidal. Este último eu sempre via nas portarias 3 e 4, sempre com uma câmera na mão, tentando fotografar qualquer novidade que minha mãe tinha intenção de colocar nas ruas.

O Marlos, inclusive, foi testemunha de todo o meu desenvolvimento. Ainda como protótipo eu escutava os engenheiros reclamando: “Poxa, aquele cara do Autos Segredos não dá uma folga para a gente”. E, realmente, toda semana ele revelava alguma novidade sobre mim. Mas eu pensava comigo: ele tá fazendo o trabalho dele. Então, levava numa boa. Às vezes, sem que meus pais engenheiros percebessem, eu até fazia pose para alguns flagras. Tudo por um flash. Rsrsrs.

Fiquei feliz quando soube que o Marlos iria participar da minha despedida. Afinal, se ele me viu nascer, nada mais justo que ele estivesse presente em minha despedida. Inclusive, lá na estampagem, onde passaram as minhas últimas peças, ele vistoriou um capô.

Já na funilaria, eu escutei o responsável perguntando sobre quem daria o start de produção para montagem das últimas carrocerias do Uno Ciao. Como eles eram em quatro, eu percebi que todos estavam acanhados e coube ao Badolato apertar o botão para que minhas últimas carrocerias fossem montadas para ganharem vida.

Na fase pré-pintura, onde todos os funcionários têm um carinho enorme por mim, os convidados foram instruídos de passar o selante nas junções das chapas para evitar infiltrações em meu interior.

De longe, eu avistei o Marlos com um pincel na mão para aplicação do selante. Eu o vi recebendo a explicação de um funcionário e coube a ele passar o produto na junção da lateral com o teto, numa área próxima a tampa do porta-malas. E não pensem que essa parte manual é pela minha idade. Não importa o modelo, algumas etapas da produção ainda são executadas por humanos.

Um pouco mais adiante, minha carroceria recebe aplicação de um selante em meu assoalho, mas nessa parte são robôs que cuidam do revestimento. De dentro da cabine, percebi a admiração dos convidados com o trabalho executado pelos robôs, e, tenho que concordar com eles, é bonito mesmo.

Infelizmente, a parte de pintura não pode ser acompanhada pelos convidados por conta de toda sua complexidade. Afinal, há todo o processo de secagem da tinta que é feito em fornos. Realmente ia acabar complicando. Mas para os que estão curiosos, esse Uno Ciao aqui que lhes escreve terá a carroceria pintada na cor Cinza Silverstone e o teto pintado em Preto Vulcano.

Nossos convidados aproveitaram essa folga no tempo para ir almoçar e conversar um pouco com o Peter Fassbender, responsável pelo Design na Stellantis para América do Sul e também com o gerente de desenvolvimento de produto da Stellantis, o engenheiro Sílvio Piancastelli. Aliás, para quem não sabe, o Sílvio, ao lado do Robson Cotta, entre outros engenheiros, são meus pais.

Já alimentados, Marlos e seus companheiros estavam de volta para a linha 1 para ajudar na montagem do último lote.

Eu quieto no meu canto, só observo. Eles estão cansados, linha de montagem não é fácil. Tem que ter disposição e muito fôlego, é tudo muito rápido e exaustivo.

Vejo que o Marlos está com o gabarito em mãos para me batizar. Antes, ele foi treinado por um dos meus montadores para não fazer feio no vídeo e na foto. Meu logo, de quando estreei em 2010, está presente na minha despedida — para quem não se lembra, são os famosos quadradinhos. Uma curiosidade: eu não tive a bandeirinha da Itália na grade dianteira como nos Fiat mais novos. Mas na minha edição especial Ciao, as cores da pátria da minha mãe estão presentes no U (verde) N (branco) O (vermelho).

Pelo sorriso, acredito que o Marlos ficou bem feliz em executar essa tarefa. Afinal, quem não ficaria num momento histórico como esse, não é mesmo?

Quem pensa que acabou, ainda falta muito. O Marlos também ajudou a instalar meu para-brisa e as lanternas traseiras. Mais uma vez, eu o vejo fazendo fotos e gravando vídeos com um sorriso estampado no rosto.

Ao passar por quase todos os processos da montagem final, os convidados ainda puderam me tirar da linha de montagem.

Calma, ainda tem mais, faltam as voltas finais na pista de testes. Quatro das minhas 250 unidades estão enfileiradas para a despedida. Foi a primeira vez que os convidados me viram com o visual final, incluindo os adesivos com os inscritos Uno Ciao nas portas dianteiras e “La Storia di Una Leggenda” nas portas traseiras.

Me senti como uma estrela de cinema, câmeras de vídeo e fotografia a postos para registrar meus últimos momentos.

É de praxe que todo Fiat dê uma volta para verificação final. E não é porque estou indo embora que seria diferente. Para marcar minha despedida, foram autorizadas duas voltas na pista, afinal, eu mereço um afago especial.

Chave no contato, percebo que o Marlos está olhando atentamente todos os detalhes. Uma Go Pro está instalada para gravar a reação dos meus convidados em meus momentos finais. Escuto o Marlos dizer que o Autos Segredos nasceu comigo. Ele também relata o momento histórico pelo qual ele está fazendo parte. Como já escrevi acima, não vou me fazer de rogado, eu sei que fui importante para a Fiat e faço parte de um seleto grupo de sucesso da indústria automotiva.

Com status de celebridade, meus pais vão pegar minha última unidade de número 4.379.356, que representa a soma das minhas duas gerações. Eu serei guardado com o hodômetro praticamente zerado ao lado do último Grazie Mille, entre outros modelos históricos produzidos por minha mãe em Betim.

Por isso, peço que não fiquem tristes, estou bem e feliz e com a sensação de dever cumprido. Deixo um legado enorme a ser mantido por meus irmãos.

Fiquem bem!

Um abraço apertado do Fiat Uno Ciao!

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