[Primeira volta] Pulse tem a missão de “mudar a Fiat”

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Com muitas qualidades e algumas falhas, primeiro SUV da marca no Brasil vem para liderar o mercado. Pulse chega com preços entre R$ 79.990 e R$ 115.990

Por Hairton Ponciano Voz

O Pulse, primeiro SUV da Fiat no Brasil, demorou uma eternidade. Em relação ao pioneiro Ford EcoSport (lançado em 2003), por exemplo, foram 18 anos. É tempo suficiente para o nascimento de uma criança e seu ingresso na faculdade. Mas a marca de Betim não só entra confiante no jogo, como acredita que dá para reverter o resultado e ganhar. O Pulse, baseado no Argo – mas com profundas alterações – é tido como o “lançamento da década” pela marca. “A Fiat será outra a partir do Pulse”, garante Herlander Zola, diretor da marca. Em outras palavras, a Fiat está lançando um carro que por sua vez está relançando a Fiat.

E o que ele tem de tão especial? A montadora de Betim fez a lição de casa e incluiu no carro tudo (ou quase tudo) o que o público almeja. Aliás, neste ano ele sempre esteve sob os holofotes. Apareceu no BBB e, numa ação inédita, teve o nome escolhido pelo público. Além disso, nos últimos meses desfilou à vontade por aí, com e sem disfarces.

Preços Fiat Pulse

Confira os valores do SUV:

  • Drive 1.3 MT – R$ 79.990
  • Drive 1.3 CVT – R$ 89.990
  • Drive T200 CVT – R$ 98.990
  • Audace T200 CVT – R$ 107.990
  • Impetus T200 CVT – R$ 115.990

Para começar, a carroceria é encorpada e elegante. Mas não só isso. O SUV finalmente estreia a transmissão CVT na linha Fiat. O Pulse traz também o motor 1.0 turbo de três cilindros, de 130 cv e 20,4 mkgf, capaz de levá-lo a 100 km/h em 9,4 s, segundo a empresa. Por fim, avança em conectividade. É o caso, por exemplo, do sistema Carpay, que por meio de uma plataforma de marketplace possibilita encomendar e pagar um lanche do McDonald’s pela própria central multimídia. Ou seja, depois de transformar o carro em uma espécie de celular sobre rodas, aparentemente a próxima etapa é transformá-lo em cartão de crédito.

Antes de detalhar todas essas funções, vamos começar pelas impressões ao vivo do novo carro. A familiaridade com o Argo fica clara logo ao primeiro contato. Mas o Pulse, que foi inteiramente desenvolvido no Brasil, no departamento de design chefiado por Peter Fassbender, em Minas Gerais, tem linhas próprias. Salvo as quatro portas (as mesmas do hatch), e uma ou outra peça compartilhada, tudo é novo no SUV.

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Em relação ao Argo, o Pulse é 10 cm mais longo (4,1 m), 8 cm mais alto (1,58 m) e 6 cm mais largo (1,78 m). A única medida que praticamente não mudou é o entre-eixos, que aumentou apenas 1 cm (2,53 m). Já o porta-malas tem capacidade para 370 litros de bagagens.

O capô é alto e a grade é bem vertical. As linhas suaves incluem um friso que percorre toda a parte frontal, acima dos faróis. Ela é cromada na versão mais cara, Impetus, e fosca na Audace, a intermediária. A básica Drive não estava à disposição no dia da apresentação à imprensa, mas a Fiat informa que a maior parte das vendas deverá se concentrar nas versões mais caras. A Drive é a única que terá duas opções de motor. Além do 1.0 turbo, será oferecida também com o 1.3 aspirado de 109 cv (do Argo), combinado com câmbio CVT ou manual de cinco marchas.

Só a Impetus tem faróis de neblina, emoldurados por um acabamento também cromado. Faróis e lanternas são de LEDs.

De lado, como ocorre em dez entre dez modelos da categoria, há molduras plásticas pretas em torno das caixas de roda e na parte inferior das portas. As rodas são de 17″ na Impetus, e de 16″ nas demais versões. Outro detalhe que está longe de ser raro entre os SUVs é a opção de pintura bicolor, que contrasta o teto com o restante da carroceria. Na traseira, as lanternas estreitas de LEDs “saltando” da lataria são o destaque visual positivo. Elas criam efeito de “flutuação”, como define Fassbender.

O destaque negativo é a saída dupla falsa de escape, um contorno cromado fechado, que vai do nada a lugar nenhum, já que a saída verdadeira fica oculta sob o para-choque. O nome da versão com a identificação do motor fica no canto direito da tampa. À la Volkswagen, o “Turbo 200” indica a presença do motor 1.0 MultiAir III, que tem torque de 200 Nm, ou 20,4 mkgf. É exatamente o mesmo do motor 200 TSI da marca alemão. O Fiat, porém, tem 2 cv a mais.

Tela domina o painel

Por dentro, a central multimídia com tela de 10,1″ acima do painel domina o ambiente (na versão mais barata, ela tem 8,4″). Como na quase totalidade dos concorrentes, o revestimento de painel e portas utiliza plástico rígido. Mas, como ocorre no Argo, a textura é bem trabalhada, e há desenhos diferentes na parte superior do painel e na parte frontal. O aspecto é agradável. Na versão Impetus, o quadro de instrumentos é uma tela digital de 7″ configurável. Há, por exemplo, a opção denominada “performance”, que exibe porcentagem de aceleração e pressão do turbo. Já no modo mais tradicional, com contagiros analógico e velocímetro digital, quando o motorista seleciona o modo esporte (por meio de um botão vermelho no volante), o mostrador muda para vermelho e os dígitos que indicam a velocidade ficam inclinados, no modo de tipologia conhecido como itálico.

O Pulse traz compatibilidade com Apple CarPlay e Android Auto sem fio, e também carregamento de celular por indução. Na frente, há duas portas USB (uma convencional e uma do tipo “C”), e na traseira, uma.

Os comandos do ar-condicionado têm uma pequena novidade. O botão do lado direito serve ao mesmo tempo para regular temperatura e velocidade do ventilador. Para alternar a função, basta pressionar o centro do controle. Não há saída para o banco traseiro.

O volante semelhante ao do Argo tem borboletas para troca de marchas. Já o freio de estacionamento utiliza alavanca mesmo na versão mais cara. Além disso, o SUV não dispõe de amortecimento no retorno dos apoios de mão, no teto (são três). Da mesma forma, a tampa do porta-malas desce de uma vez, quando aberta.

São quatro airbags, sendo dois frontais e dois laterais, restritos aos bancos dianteiros. De acordo com a Fiat, os laterais cumprem a função de proteger tórax e cabeça ao mesmo tempo, substituindo o de cortina. Quem estiver no banco de trás depende de proteção divina. Duas pessoas com até 1,85 m conseguem acomodação razoável no banco traseiro, sem raspar a cabeça no teto ou os joelhos no banco dianteiro (a menos que os ocupantes da frente sejam muito altos).

Batata acompanha?

Em termos de conectividade, o Pulse deu um pequeno passo para um SUV e um grande passo para a transformação do carro em “meio de pagamento”. Em parceria com a startup Zapay, a Fiat oferece no Pulse a possibilidade de escolher e pagar por um lanche no McDonald’s na tela da central multimídia. Para isso, o usuário cadastra um cartão de crédito. O menu aparece na tela, e depois da escolha e do pagamento basta ir à loja para a retirada.

Essa é apenas uma das funcionalidades oferecidas pelo dispositivo. Além disso, o motorista pode verificar na tela multas e débitos relativos a IPVA, por exemplo. Há também a possibilidade de efetuar o pagamento parcelado, o que de certa forma transforma a tela multimídia em uma espécie de caixa eletrônico.

Além disso, o modelo traz internet com capacidade de conexão de até oito dispositivos, GPS nativo (TomTom) e 12 meses de isenção na mensalidade do ConectCar (para pedágios e estacionamentos).

Por meio de um aplicativo no celular, é possível ligar o carro de qualquer lugar (até de outro país), verificar nível de combustível, pressão de pneus e até mesmo rastrear o veículo. Além disso, há também o modo “valet”, que limita a velocidade quando o carro é entregue a manobristas. Dá também para delimitar um perímetro em que o veículo pode circular. Caso ele seja excedido, aparece um alerta no aplicativo.

Há também assistentes virtuais (da Google e Alexa, da Amazon), e possibilidade de localização em caso de roubo ou furto. 

Hora de dirigir

Após uma leve titubeada na saída, o SUV Pulse parte e mostra que o motor 1.0 turbo consegue dar conta do recado. As respostas são satisfatórias, e melhoram se o motorista pressionar o botão vermelho no volante, que ativa o modo esporte. Aí até a titubeada na saída fica menos evidente.

O câmbio CVT simula sete marchas, que podem ser trocadas nas borboletas do volante ou na alavanca. Nesse caso, as reduções são para a frente e os aumentos, para trás. A Fiat divulga aceleração de 0 a 100 km/l em 9,4 s, e consumo médio (cidade/estrada) de 13 km/l, com gasolina.

Nas acelerações mais fortes, o Pulse emite um ruído um pouco alto, quando se exige um pouco mais do acelerador. E não é só jornalista exigente que percebe esses sintomas. No fim do dia da apresentação à imprensa, conversando com um dos executivos da marca ainda na pista, surgiu a inevitável pergunta: “E aí, o que achou do carro?”. Antes que eu respondesse, um Pulse passou acelerando ao lado e com o motor roncando, perfeitamente audível do lado de fora (e de dentro também). “É, faz um pouco de barulho”, ele mesmo respondeu.

Fora isso, a direção elétrica é bem leve, o que é uma característica da Fiat. Um ponto negativo é que a coluna de direção ajusta apenas em altura, não em profundidade. Outro ponto negativo é a buzina, que emite um som tímido e abafado demais.

A suspensão é macia e tem acerto condizente com a proposta do carro. Absorve bem as imperfeições de piso sem muita inclinação em curvas. O SUV Pulse é feito sobre a plataforma modular MLA, e a carroceria utiliza 87% de aços de alta resistência.

O sistema de suspensão é o clássico McPherson na frente, com barra estabilizadora, e eixo de torção atrás. Na pista asfaltada do Circuito Panamericano, um campo de provas da Pirelli localizado em Elias Fausto, no interior de São Paulo, o SUV mostrou bom comportamento e obediência nas curvas, embora os pneus Pirelli, talvez por estarem bem à vontade em casa, cantaram sem a menor cerimônia ao sabor das ordens enviadas pela direção. E não cantaram sozinho, já que o motor também soltou a voz quando exigido pelo acelerador. Os freios (discos ventilados na frente e tambores atrás) fizeram bom trabalho.

A visão para trás é um pouco limitada pelo retrovisor interno, porque o vidro traseiro é pequeno.

Manutenção de faixa até na terra

Além do asfalto, o SUV Fiat Pulse pôde mostrar aptidões também na pista off-road. Foi a oportunidade de colocar à prova o TC+, que melhora o desempenho do controle de tração na terra, ao transferir torque da roda que estiver patinando (ou no ar) para a outra. A tecla que aciona o sistema fica no painel, e quando ligada ativa também o ABS específico para uso na terra. Ele permite um leve travamento das rodas, mais do que no asfalto, para melhorar a frenagem e o controle sobre piso de baixa aderência.

A versão mais cara do SUV Fiat Pulse também recebeu sistema de manutenção de faixa que reconhece até os limites do caminho sem asfalto (e portanto sem pintura). Basta um trecho de terra ladeado por mato que ele percebe o trajeto a seguir e corrige automaticamente a direção.

O modelo cumpriu todo o trajeto na terra sem raspar a frente e a traseira no solo, graças às boas medidas off-road. Além dos 19,6 cm de altura, o Pulse tem 20,5º de ângulo de entrada e 31,4º de saída.

O SUV Pulse também tem frenagem de emergência (capaz de parar totalmente desde que o carro esteja a até 30 km/h) e comutação automática de farol alto.

Expectativa de crescimento

Mesmo sem disputar o segmento de SUVs compactos – categoria mais importante e a que mais cresce -, a Fiat já vinha liderando o mercado com folga. A marca tem 22,8% de participação (veículos de passeio e comerciais leves) sem um SUV para chamar de seu. Agora, com o Pulse, o pessoal de Betim anda rindo à toa. A possibilidade de ampliar a liderança é real (a VW, segunda colocada, tem 15,4%), e não estranhe se o primeiro SUV da marca no País escalar posições e aparecer entre os líderes de vendas em pouco tempo.

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