Posicionado entre os sedãs compactos e os médios, modelo oferece o conteúdo essencial por um preço de tabela competitivo. Habitáculo e porta-malas são muito amplos, mas motor de concepção simplória não entrega desempenho condizente com a cilindrada

Durante o período de convivência com o Cobalt, me lembrei muito das várias viagens em família que fiz durante a infância. Minhas férias escolares de verão sempre eram contempladas com idas de carro ao litoral, com o habitáculo cheio e o porta-malas idem.  Fiquei pensando o sedã da Chevrolet mira em um perfil de consumidor semelhante ao que meus pais tinham, há cerca de 20 e poucos anos: casais com mais de um filho, em busca de um automóvel espaçoso, mas com preço que não comprometa o orçamento justo, típico de classe média.

O Cobalt é de fato um produto bem familiar. Não desperta paixões pelo design, mas agrada àqueles que precisam de espaço e não podem ir tão além do segmento de entrada. Com preços entre os compactos e os médios e lista de equipamentos de série que entrega o essencial , ele segue a linha de veículo racional, que foi inaugurada pelo Logan há alguns anos. O sedã pode se mostrar interessante para esse tipo de público, mas não deixa de apresentar alguns pontos fracos. A começar pelo motor…

HERANÇA DOS ANTEPASSADOS O coração da versão LTZ que avaliamos é um velho conhecido do mercado. Trata-se do propulsor batizado internamente de Família I e apresentado mercadologicamente como Econo.Flex, que recebeu modificações nos sistemas eletrônicos e de alimentação. A concepção é simples, com cabeçote de alumínio com oito válvulas e bloco em ferro fundido. Os comandos são acionados por correia dentada e não há variação no tempo de abertura ou de fechamento. Esse motor tem fama de manutenção fácil e boa durabilidade, mas entrega números modestos em relação à cilindrada: são 108/106 cv de potência a 5.400  rpm e 17,1/16,4 kgfm de torque a 3.200 rpm, com etanol e gasolina, na ordem.

Segundo a Chevrolet, 90% do torque está disponível entre 2.500 e 4.700 rpm. Essa informação nos pareceu parcialmente verdadeira: em baixas rotações, o Cobalt realmente responde bem, mostrando disposição adequada para o uso urbano. Mas a partir das 3.500 rpm, a impressão é de que o motor perde o fôlego e o desempenho fica abaixo do que se espera da cilindrada. Além do mais, em altos regimes são notadas algumas asperezas. Imagino que, se eu fosse criança atualmente e meu pai dirigisse um Cobalt durante nossas viagens de férias, sentiríamos falta de mais vigor durante as ultrapassagens na estrada…

Outra aspecto ao qual o 1.8 Família I costuma ser associado é o alto consumo de combustível. Porém, justiça seja feita, em nossas mãos o modelo não foi exatamente gastão, embora também não possa ser considerado econômico. Sempre com gasolina no tanque, obtivemos marcas de 8,0 km/l na cidade e 11,5 km/l na estrada.  O ar-condicionado estava ligado durante parte das aferições e vale lembrar que vários fatores podem gerar reflexos no consumo, tais como características das vias, relevo e estilo de condução do motorista.

A boa notícia é que os demais componentes mecânicos do Cobalt agradam bastante, compensando em parte as limitações do motor. A suspensão, que segue o tradicional esquema de sistema independente do tipo Mc Pherson na dianteira e semi-independente por eixo de torção na traseira, tem boa calibragem, com compromisso equilibrado entre conforto e estabilidade. É verdade que, em pisos irregulares, o conjunto acaba transmitindo alguns impactos para a cabine, mas por outro lado, segura a carroceria com muita propriedade nas curvas, proporcionando segurança e tornando a direção mais divertida. O câmbio manual também agradou, com bons engates e relações corretas: as marchas não são nem longas nem curtas demais e a 120 km/h o conta-giros registra 3.200 rpm, regime coerente com a proposta. Por fim, a direção com assistência hidráulica também apresentou acerto satisfatório, com boa progressividade e sem leveza excessiva em alta velocidade.

ESPAÇO BEM APROVEITADO Por fora, as dimensões do Cobalt se aproximam das de veículos médios: são 4,479 metros de comprimento, 1,735 m de largura e 2,62 m de distância entre-eixos. O peso, de 1.122 kg na versão avaliada, é até contido para o tamanho geral. A carroceria graúda permitiu que o interior fosse bem amplo. Os ocupantes frente não encontram qualquer restrição de espaço, assim como os de trás. Mesmo adultos altos conseguem se sentar com folga no banco posterior do Cobalt, sem aperto para a cabeça ou as pernas. O porta-malas é enorme: comporta 563 litros de bagagem. A capacidade é tão grande que nem as dobradiças do tipo “pescoço de ganso” e o vão de entrada um pouco menor que o ideal são capazes de comprometer o resultado geral.  A tampa não tem forração interna, mas por outro lado, o batente tem proteção plástica e os encostos do banco traseiro são divididos em 1/3 e 2/3, com revestimento em carpete na parte posterior.

O Cobalt tem interior agradável, com acabamento coreto, contudo sem se destacar. Longe de ser luxuoso, o modelo exibe plásticos rígidos no painel e nas forrações das portas, mas sem rebarbas aparentes, embora tenhamos notado imperfeições em alguns encaixes. Os bancos são revestidos em tear conjugado com tecido aveludado, muito agradável ao toque, e são bastante confortáveis, com apoios adequados para as pernas e as costas, além de abas que seguram o corpo com competência em curvas.

O motorista senta-se centralizado em relação aos pedais. O volante tem boa pega, é revestido em couro e pode ser regulado, assim como o banco, mas apenas parcialmente nos dois casos: é que o primeiro é ajustável em altura, mas não em profundidade, enquanto no segundo, só o assento se movimenta (o encosto permanece em posição vertical fixa). A visibilidade é boa para a frente a para os lados. Para trás, a visão é ruim, pois o terceiro volume  da carroceria é muito alto. Os retrovisores externos são bem dimensionados, mas o interno é pequeno. Ao menos há sensores de estacionamento traseiros. O quadro de instrumentos oferece boa visualização, mas peca ao deixar de fora o termômetro de água. Os faróis, de parábola simples, iluminaram a contento e ainda contam com o auxílio de luzes de neblina. Os limpadores também apresentaram funcionamento correto, varrendo boa área e sem fazer muito barulho.

Como dissemos no começo do texto, o Cobalt LTZ traz o essencial em termos de itens de conforto. De série, há todos os equipamentos mais importantes, entre os quais ar-condicionado,  travas elétricas das portas e porta-malas, alarme por controle remoto,  rádio AM/FM com CD/MP3 Player com Bluetooth, porta USB e entradas auxiliares, computador de bordo, espelhos retrovisores externos com regulagem elétrica e rodas de liga-leve aro 15”. Vai uma ressalva para os vidros elétricos, que estão presentes em todas as portas, mas não têm função um-toque e iluminação.

O Cobalt também traz o essencial quando o assunto diz respeito aos itens de segurança. O sedã oferece duplo airbag e freios ABS de série, mas não há qualquer equipamento adicional na lista de opcionais. No centro do banco traseiro, não há cinto de três pontos ou encosto de cabeça, duas falhas graves para um modelo que se propõe a ser familiar. Também não há sistema Isofix para fixação de cadeirinhas. As frenagens jogaram no mesmo time: foram satisfatórias, mas não chegaram a se destacar.

PACOTE SEM INFLAÇÃO O Cobalt não é expoente em tecnologia ou visual, mas ao apelar para a velha fórmula de entregar bom conteúdo sem abusar do preço, acaba se tornando uma opção válida. A versão top LTZ é tabelada em R$ 48.090, valor competitivo diante da concorrência, sendo que o espaço tanto da cabine quanto do porta-malas pode fazer a diferença para determinados consumidores. Há ainda a configuração LT, que abre mão de faróis de neblina, sistema de som, rodas de liga leve e frisos externos, mas custa menos e parte de R$ 44.390. Lamentável é a ausência dos motores da linha Ecotec, que casariam muito bem com o câmbio a e suspensão.  Na pior das hipóteses, o fabricante poderia ao menos realizar um trabalho um pouco mais aprofundado no velho 1.8, de modo a fazê-lo entregar uns 10 cv de potência a mais…

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho(acelerações e retomadas) 7 6
Consumo(cidade e estrada) 7 6
Estabilidade 8 7
Freios 7 8
Posição de dirigir/ergonomia 8 9
Espaço interno 10 10
Porta-malas(espaço, acessibilidade e versatilidade) 10 10
Acabamento 7 7
Itens de segurança(de série e opcionais) 6 7
Itens de conveniência(de série e opcionais) 7 8
Conjunto mecânico(acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7 7
Relação custo/benefício 8 9

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, gasolina/etanol, 1.796 cm³ de cilindrada, 106cv (g)/108cv (e) de potência máxima a 5.400  rpm, 16,4 kgfm (g)/ 17,1 mkgf (e) de torque máximo a 3.200  rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
10s5

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
170 km/h

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira, tambores na traseira, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio 6×15, pneus 195/65 R15

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,479; largura, 1,735; altura, 1,514; distância entre-eixos, 2,620

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 54 litros; porta malas: 563 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 488 quilos; peso: 1.122 quilos

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos