Para manter a liderança do segmento dos compactos, montadora norte-americana realiza mudanças pontuais em seus campeões de venda

Chevrolet_Onix_2017-(5)Renato Passos (*)
De Gramado (RS)

Em toda sociedade, ao longo da humanidade, os ditados populares são parte marcante da cultura local, além de instrumento de transmissão do saber. Em nosso país, é difícil não conhecer quem nunca tenha ouvido a expressão “Em time que está ganhando não se mexe”. Nem sempre, entretanto, tal afirmação é seguida à risca. Vide, por exemplo, a Chevrolet, que apresentou dois modelos campeões de venda com pequenas modificações. Para que? Para se consolidar como líder em um dos mais disputados segmentos do mercado tupiniquim, o dos compactos.

Chevrolet_Onix_2017-(4)Apenas o mercado, com seus índices de venda, mostrará o quão acertada foi a decisão da General Motors. Ocupando 7,2% do mercado de hatches compactos com o Onix; e 20% dos sedãs pequenos com o Prisma, a dupla da marca do bow-tie é, respectivamente, bi e tricampeã nacional em seus devidos estratos de venda. É inegável, portanto, o apelo desses dois modelos com o público. E o que mudou – e qual o efeito dessas mudanças?

Comecemos pelo lado de fora. As linhas gerais se mantêm, estando a lateral praticamente intocada, a despeito de discretas modificações percebidas na seção final de faróis e lanternas, novas tanto no Onix quanto no Prisma. Mudanças na suspensão deixaram os modelos 10mm mais baixos, bem como novas rodas de alumínio usinado de 15 polegadas na versão LTZ (em aço, com calotas, na LT 1.4) adornam os veículos. Na seção dianteira é onde se concentram a maior quantidade de mudanças, compartilhadas por ambos os modelos.

Chevrolet_Onix_2017-(13)A grade no estilo dual port segue a linha adotada pelos produtos mais recentes da Chevrolet, como Cruze, S10 e Cobalt. Entretanto, cada qual com suas linhas e traços peculiares. Não há, logo, confusão visual entre os distintos modelos da gama da fabricante. Novos para-choques e faróis compõem o conjunto, que trazem modernidade aos modelos sem o ar habitual de “gambiarra” verificado nas intervenções em ciclos de meia-vida dos produtos. De acordo com Wagner Dias, responsável pela reestilização, as linhas agora apresentam uma tendência de horizontalidade, que por sua vez transmitem uma impressão de maior largura do veículo – que, por sua vez, passa a impressão de colocar o automóvel mais próximo ao chão. Luzes de uso diurno em LED (DRL) são de série na versão LTZ, topo de linha.

Chevrolet_Onix_2017-(19)Na traseira, cada um com mudanças à sua maneira. Enquanto Onix é agraciado com novos para-choques e lanternas, com mudanças bem sutis nessas últimas, o Prisma teve o mesmo pacote de mudanças adicionado de novo desenho da tampa do porta-malas, com o discreto – porém marcante – spoiler no topo da seção posterior. A silhueta da região se projeta de forma distinta, de forma mais elegante e esportiva, conferindo mais um acerto para a equipe de desenhistas. Um emblema com os dizeres “eco” também se faz presente na região. No geral, uma boa qualidade construtiva, com gaps (distância entre as chapas) uniformes e de pequenas dimensões entre as peças estampadas, para-choques e adornos afins. Um excelente trabalho da Chevrolet nesse aspecto, portanto.  Apenas cinco cores estão disponíveis: branca (sólida), cinza, prata, preto e vermelho (metálicas).

Chevrolet_Prisma_2017-(18)Equipamentos e mais equipamentos

No interior, a mudanças são bem menos extensas. Novos revestimentos (diferentes para Onix e Prisma) e puxadores de porta mais bem localizados – substituindo os anteriores, péssimos em termos de ergonomia fazem par com a manopla de câmbio que, sutilmente, demonstra uma inovação técnica bem recebida no Onix e no Prisma: o câmbio manual de seis marchas, em todas as versões, tanto para o motor 1.0 (apenas disponível para o Onix) ou 1.4.

Chevrolet_Prisma_2017-(19)Os equipamentos de série foram rearranjados também. No Onix LT 1.0 temos: ar condicionado, travas elétricas, vidros dianteiros elétricos tipo um-toque, alerta de mudança de marcha, sistema de áudio com Bluetooth e entrada USB, chave tipo canivete com controle remoto das travas e vidros elétricos, banco do motorista e cintos de segurança dianteiros com regulagem de altura, porta-revista no dorso do assento do carona, limpador e desembaçador traseiro, sistemas antifurto, aviso sonoro para não-afivelamento do cinto de segurança, rodas aro 14 em aço, além dos onipresentes freios ABS com EBD e airbag duplo.

Chevrolet_Prisma_2017-(9)Chama a atenção também o OnStar presente em todas as versões, com o primeiro ano de uso gratuito. Na LT 1.0 básica, o pacote oferecido é o Safe. Neste pacote se encontram as funções “Diagnóstico” –  onde por meio de um aplicativo o usuário pode conferir alguns parâmetros do veículo, como a quilometragem total percorrida e a pressão dos pneus, este com monitoramento via infravermelho emitido por equipamento instalado nas rodas originais do automóvel; “App/Web” – Acesso a esses dados via computador ou smartphone –  e “Segurança” – auxílio na recuperação veicular em caso de furto ou roubo. O veículo pode ser monitorado, e o motor, bloqueado remotamente pela Central de Atendimento.

Chevrolet_Onix_2017-(17)Ainda na versão LT 1.0, é oferecido como opcional o pacote MyLink, que abrange acabamento interno em dois tons (preto e cinza), volante com comandos de áudio e telefone, luz de cortesia no porta-luvas, abertura do porta-malas por controle remoto, o pacote Protect do OnStar que acrescenta a função “Emergência” (Salvamento e socorro médico, por qualquer motivo, acionado por meio de botão junto ao retrovisor ou acionado automaticamente em caso de acidente). Mas a grande vedete do pacote é o sistema multimídia MyLink de segunda geração.

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Para os antenados em tecnologia – um público cativo do Onix/Prisma justamente pelo equipamento aqui revisto – o MyLink2 oferece tela tátil de 7 polegadas, integração com Android Auto e o Apple CarPlay e permite ditar e ouvir mensagens de texto por meio do sistema de áudio do veículo, obter itinerários com as condições atualizadas de trânsito, fazer buscas de pontos de interesse e até mesmo acessar aplicativos como WhatsApp, de troca de mensagens, e o Spotify e o TuneIn, de músicas online.

O aparelho também informa data, hora e temperatura externa e permite configurar vários parâmetros do automóvel. As teclas de avançar e retroceder do multimídia foram deslocadas do visor para o painel externo do aparelho e o botão do volume passa a ser giratório.  Várias funções do sistema de áudio e telefonia ainda podem ser comandadas por teclas no volante. A versão LT 1.4 acrescenta o pacote MyLink do LT 1.0, mais coluna de direção com regulagem de altura, sensor de estacionamento traseiro com auxílio gráfico junto à central de mídia e rodas de aro 15, com conteúdo idêntico para Onix e Prisma. Cruise Control e revestimento do volante em couro acompanham o veículo quando equipado com câmbio automático

Chevrolet_Prisma_2017-(20)O mesmo se repete na versão topo de linha LTZ 1.4, que adiciona ao conteúdo da LT 1.4 detalhes internos e externos cromados, computador de bordo com cinco funções (consumo médio, velocidade média, autonomia, temperatura externa e cronômetro), vidros traseiros elétricos com a função um toque, bancos com revestimento distinto, retrovisores externos com ajuste elétrico, DRL nos faróis, faróis de neblina, rodas de alumínio e o pacote Exclusive do OnStar, que inclui as funções “Concierge” de atendimento humano personalizado e “Navegação”, que opera de forma distinta ao Google Maps que pode ser executado no MyLink via Android Auto ou Apple CarPlay. A única diferença se faz no Prisma, que possui câmera de ré exclusiva da versão.

Chevrolet_Prisma_2017-(25)Novidades mecânicas – e outras nem tão novas assim…

É hora de andar nos carros. Em uma incursão de 360 quilômetros pela serra gaúcha, muitos deles sob intensa chuva, avaliamos o Onix LTZ com câmbio manual por dois terços do percurso, sendo o restante realizado no Prisma LTZ com câmbio automático. Mas antes de falarmos da experiência dinâmica, uma olhada no conjunto propulsor e sistemas mecânicos diversos.

O motor 1.4 SPE/4 ECO é o velho conhecido de todos nós: oriundo da Família 1 de motores da GM e deslocando exatos 1.389 cm³, é descendente direto do C14NZ que equipou o Corsa B – o primeiro Corsa lançado no Brasil, em 1994. Após várias evoluções ao longo do tempo, entrega 106 cv de potência @ 6.000 rpm e 13,9 kgfm @ 4.800 rpm de torque quando abastecido com etanol.

Excelente para o motor em questão, mas longe de ser um exemplo de desempenho: com comando simples no cabeçote e apenas duas válvulas por cilindro, são apenas 76,3 cavalos por litro, enquanto concorrentes chegam aos 82 cv/l sem recorrer à sobrealimentação. Nesta revisão, mais tecnologia foi aplicada ao veterano propulsor. O conjunto de móvel composto por pistões, bielas e anéis ficou mais leve, com anéis mais finos, saias de pistão redesenhadas e bielas – forjadas – ainda mais aliviadas.

Chevrolet_Prisma_2017-(4)O óleo lubrificante é de baixa viscosidade a quente (0W20), fazendo par com o módulo eletrônico de gerenciamento do motor (ECU) que está 40% mais rápido e potente. Mudanças no sistema de arrefecimento, com central de controle multivelocidades, ventilador sem escovas – logo, em menor atrito -, trocadores de calor construídos por brasagem, mais leves e menores e menor quantidade de líquido refrigerante resultam em um sistema mais silencioso, leve e eficaz. No campo de gerenciamento de cargas elétricas verifica-se o monitoramento continuo da carga da bateria, que demanda um uso mais racional do alternador, agora de alto rendimento.

O óleo lubrificante é de baixa viscosidade a quente (0W20), fazendo par com o módulo eletrônico de gerenciamento do motor (ECU) que está 40% mais rápido e potente. Mudanças no sistema de arrefecimento, com central de controle multivelocidades, ventilador sem escovas – logo, em menor atrito -, trocadores de calor construídos por brasagem, mais leves e menores e menor quantidade de líquido refrigerante resultam em um sistema mais silencioso, leve e eficaz. No campo de gerenciamento de cargas elétricas verifica-se o monitoramento continuo da carga da bateria, que demanda um uso mais racional do alternador, agora de alto rendimento.

Na transmissão, a caixa manual de seis marchas é novidade. Com a última funcionando como sobremarcha real, o componente se mostrou uma excelente surpresa, com escalonamento correto e engates suaves, sem curso demasiadamente longo, “calos” no acionamento ou imprecisão nos engates. Não obstante, a nova caixa é mais leve que a antecessora de cinco marchas. Na versão automática, temos a nova geração da já utilizada caixa GF6, com bomba de óleo mais eficiente. Infelizmente não foi revisto o comando manual de marchas, pelo incômodo botão na lateral da manopla.

Uma grata surpresa também se verifica no chassi. A despeito da obtenção de maior rigidez do monobloco e de terem mais equipamentos embarcados, os veículos se mostram mais leves: 32 kg a menos no Onix, 34 no Prisma. Parte do ganho se deve à aplicação de aços de alta resistência em painéis e reforços estruturais em mais de 100 componentes distintos. A menor massa do automóvel resulta em melhor dirigibilidade. Mas nesse aspecto, a Chevrolet foi além para melhor interação com o veículo.

Para tal, foi adotada direção assistida eletricamente, de ação progressiva inteligente. Ela compensa a inclinação da via em longos percursos e reduz as trepidações geradas por eventuais desbalanceamentos das rodas. Soma-se a isso a recalibração da suspensão, com novas molas, amortecedores, cubos de roda e barra estabilizadora de menor diâmetro. Além de reduzirem a altura do veículo em 10 mm – auxiliando a aerodinâmica, também aprimorada em 5% no Onix e 8% no Prisma – a dinâmica do veículo se mostra com acerto diferenciado em relação a seu antecessor.

Chevrolet_Prisma_2017-(6)Cavalo que (não) anda, cavalo que (não) bebe.

Rodando nas estradas do sul do Brasil, ponto negativo para os pneus de baixa resistência ao atrito, extremamente ruidosos. O motor cumpre bem sua proposta frente a seu público-alvo: não é um primor em desempenho, mas apresenta boas médias de consumo, sendo agraciado com a insígnia “A” no Conpet-Inmetro. Com índices de consumo rodoviário de 14,9/10,2 km/l (gasolina e etanol, respectivamente) e urbano na casa dos 12,5/ 8,6 km/l para o motor 1.4 aliado ao câmbio manual, esperávamos consumo aproximado em nossa jornada. E foi isso que obtivemos: 14,8 km/l com gasolina, de acordo com o PC de bordo.

Méritos para caixa de câmbio, com a sexta marcha longa e que permite velocidade de cruzeiro de 120 km/h com o motor girando a exatas 3000 rpm. Mas é nos aclives e retomadas que o SPE/4 mostra a sua falta de elasticidade: sem variador de fase, turbocompressor ou outro artifício técnico avançado, são apenas 1.200 rpm entre os picos de torque e potência máxima. Isso se reflete na mandatória necessidade de reduções de marcha – no plural – para vencer subidas ou carros mais lentos. Na cidade, e tendo em mente o comprador habitual, o motor se mostra sereno e menos áspero que seu antecessor. Não é lépido. Mas agrada quem o compra para um uso sereno, como a maior parte de seu público.

Chevrolet_Onix_2017-(24)Nas curvas, uma grata surpresa. Rígido sem ser desconfortável, o trabalho de chassi dos modelos se mostra primoroso, tornando os compactos prazerosos – e clamando por motores mais pujantes para melhor explorá-los. Os bancos prendem bem o corpo quando submetido a aceleração lateral, e são confortáveis mesmo após longas distâncias percorridas. A despeito de uma ligeira tendência de pular em demasia no eixo traseiro, os Chevrolet passam com nota alta nos trechos de serra e nas manobras rápidas do cotidiano. Os freios estão de acordo com a proposta, cumprindo bem sua obrigação.

Com preço a partir de R$ 44.890,00 para o Onix na versão LT 1.0 básica, alcançando surpreendentes R$ 64.690,00 no Prisma LTZ AT, o par da fabricante norte-americana mostra que o brasileiro não compra o carro mais barato diante de si, e sim aquele que lhe parece entregar mais por menos, numa equação complicada e própria desse mercado tropical. Por entender tão bem disso, a GM soube trabalhar seu campeão para que o sucesso se tornasse ainda mais concreto – e com muito mais acertos que erros, não restam dúvidas de que valeu a pena mexer em um time vencedor.

FICHA TÉCNICA – CHEVROLET ONIX 1.4 LTZ MT

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, com injeção indireta no coletor de admissão, bicombustível, 1.389 cm³ de cilindrada (diâmetro de 77,6mm, curso de 73.4mm), taxa de compressão de 12,4:1, 98/111 cv de potência máxima a 6.000 rpm (gasolina/etanol), 13,0/13,9 kgfm de torque máximo a 4.8000 rpm (g/e)

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, com câmbio manual de seis velocidades à frente, mais marcha-a-ré

ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
10,5 segundos (Abastecido com etanol)

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
180 km/h (Abastecido com etanol)

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores atrás, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira por eixo de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 5,5×15 polegadas, pneus 185/65 R15

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,933; largura, 1,705; altura, 1,476; distância entre-eixos, 2,528; peso: 1.042 quilos

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 54 litros; porta malas: 280 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 375 kg.

(*) O jornalista viajou à convite da Chevrolet do Brasil.

Fotos | Chevrolet/Divulgação