Nova geração do modelo mostra evolução no asfalto, mas ainda sabe encarar uma terra; preço, como costuma ocorrer com importados, é ponto fraco  

teste_jeep_cherokee_2015_45Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

Confesso que, entre todos os tipos de veículos que costumo avaliar aqui para o  Autos Segredos, os SUVs e crossovers são os que considero mais insossos. É que, para qualquer entusiasta de automóveis, inclusive para o jornalista que vos escreve, a dirigibilidade costuma ser fator primordial, e, nesses segmentos, tal aspecto acaba relegado ao segundo plano. Afinal, os utilitários são mais altos, corpulentos e pesados que os automóveis, o que prejudica, na ordem, a estabilidade, a aerodinâmica e o desempenho. E isso sem falar no consumo, que diretamente relacionado aos três fatores citados. O Cherokee mostra de cara, literalmente, que quer causar impacto, com seu desenho frontal característico. Goste ou não, é impossível negar que ele tem personalidade. Mas o melhor é que os atributos dele vão além das aparências: eu gostei muito de guiá-lo. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, ele demonstrou, entre outras coisas, que consegue estampar um sorriso no rosto do motorista.

teste_jeep_cherokee_2015_39Não que o modelo da Jeep deixe de apresentar todas as características típicas de um SUV: sim, ele é pesadão (1.834 kg) e alto (1,683 m). Mas não é tão comprido: mede, de para-choque a para-choque, 4,624 m, tamanho comparável ao da maioria dos sedãs médios. E sua carroceria é do tipo monobloco, o que melhora a rigidez torcional e otimiza o projeto de deformação programada em caso de acidente. É verdade que a velha solução de apoiar a carroceria em chassis de aço costuma favorecer o desempenho fora-de-estrada. Mas o Cherokee já usava esse tipo de estrutura há algum tempo, e ademais, quando lançou a atual geração, a marca norte-americana não escondeu que havia dado atenção especial ao uso no asfalto. Isso, aliás, é coerente, uma vez que a maioria dos proprietários desses veículos os colocam na terra apenas em eventualidades. Ademais, quem quer literalmente enfiar os pés (ou melhor, as rodas) na lama não foi esquecido: há uma versão com maior preparação off-road, chamada Trailhawk, que traz, entre outras coisas, maiores ângulos de entrada e saída, suspensão elevada e reforçada e pneus de uso misto. Essa configuração já é vendida na América do Norte e está confirmada para chegar ao Brasil neste ano.

teste_jeep_cherokee_2015FORÇA

E, verdade seja dita, foi nos trechos de asfalto que o utilitário estampou sorrisos no meu rosto. Nossos testes sempre incluem trechos rodoviários, mas devido ao período de férias, o Cherokee foi submetido a percursos ainda mais longos em estradas. Nas curvas, o modelo mostrou estabilidade exemplar (dentro, é claro, das limitações que qualquer SUV proporciona nesse sentido), proporcionada pela suspensão independente nos dois eixos (com conjuntos do tipo McPherson na frente e multilink atrás), pela direção elétrica bastante progressiva e pela tração 4×4 permanente com operação sob demanda (falaremos mais sobre ela adiante). Nas retas, ele esbanjou desempenho, graças ao motorzão Pentastar V6 3.2 (na verdade, são 3.239 cm³) a gasolina, capaz de gerar nada menos que 271 cv de potência a 6.500 rpm e 32,2 kgfm de torque a 4.400 rpm. A arquitetura é atual, com direito a quatro válvulas por cilindro, com duplo comando variável acionado por corrente e construção de bloco e cabeçote em alumínio. A injeção eletrônica, porém, é do tipo multiponto, e não direta. O propulsor é capitaneado por um câmbio automático de nove marchas, de operação muito suave. Seu único problema é não oferecer paddle-shifts no volante para operá-lo sequencialmente. Para isso, é preciso dar toques na alavanca. De qualquer modo, o arsenal mecânico poderoso faz com que o modelo da Jeep ignore subidas e encare ultrapassagens com extrema agilidade, algo bem útil neste período de início de ano, no qual as estradas ficam mais movimentadas. Em trechos urbanos, as respostas ao acelerador também são imediatas: nem parece que o utilitário tem quase duas toneladas de peso.

teste_jeep_cherokee_2015_33Minhas viagens a bordo do Cherokee também contaram com aproximadamente 120 km em vias sem pavimentação. Nesses trechos, foi possível conhecer bem o sistema de tração 4×4, que apesar de atuar automaticamente sob demanda, permite que o condutor escolha entre quatro modos de operação, por meio de um seletor: Auto, que concentra 70% da tração na dianteira e 30% na traseira, Snow, que mantém a proporção em 60%/40%, Sport, que a inverte para 40%/60%, e Sand/Mud, que equaliza a força em 50% nos dois eixos. Tudo funcionou muito bem! Mas dois fatores evidenciaram a ênfase da versão Limited no uso em asfalto: os pneus convencionais, que em algumas situações, perderam aderência, e o curso da suspensão, curto para o uso off-road, tanto que chegou a “dar batente” em lombadas e valetas mais acentuadas. Quanto à altura em relação ao solo, que é de respeitáveis 20 cm, não há reclamações. Mesmo nos locais mais precários, não houve raspões contra o piso.

SEDENTO É pena que toda a performance que o Cherokee oferece, tanto no asfalto quanto fora dele, cobre um alto preço no consumo de gasolina. Quando é preciso parar em frente à bomba, o motorista lembra-se bem que está ao volante de um SUV pesadão. Em rodovias, as marcas obtidas pelo Auto Segredos ficaram em torno de 8,2 km/l. Em ciclo urbano, a média obtida foi de 6,8 km/l. Dois detalhes incômodos: o consumidor de bordo informa o consumo em l/100 km, e não em km/l, como é padrão no Brasil, e o tanque de combustível de 60 litros limita a autonomia. Tratam-se de pontos que merecem revisão. No mais, como sempre, frisamos que o gasto de combustível relaciona-se a uma série de fatores, entre os quais o elevo, estilo de condução do motorista e as características das vias trafegadas.

O Cherokee é um SUV para cinco ocupantes. Pois é, não há bancos extras no compartimento do porta-malas. Mas os lugares a bordo são, de fato, para cinco pessoas: o banco traseiro comporta três adultos sem apertos para pernas, ombros ou cabeças, mesmo se todos forem mais altos. Na frente também sobra espaço. Os bancos seguem o padrão norte-americano: são muito largos, feitos para apoiar os corpulentos cidadãos estadunidenses. As pernas e a coluna ficam perfeitamente acomodadas. Também há vários porta-copos e porta-objetos a bordo, outro resquício da nacionalidade do SUV. Já o porta-malas é razoável, considerando o porte do veículo: comporta de 412 a 500 litros, sempre até a altura dos vidros (a variação se deve ao fato de os encostos dos bancos traseiros serem reclináveis). Destaque para a tampa externa, com acionamento elétrico para abrir e fechar. O acabamento, como convém a um veículo dessa categoria, é muito bom: painel e portas têm superfícies emborrachadas, e os encaixes são perfeitos.

teste_jeep_cherokee_2015_3A posição de dirigir é típica dos SUVs: bastante elevada, porém correta e ergonômicamente confortável. O painel tem ótima acessibilidade, e o cluster oferece boa leitura. Ademais, a instrumentação é completa, com direito a termômetro de água, o que evidencia que a abolição desse item é, sim, fruto de economia de escala, e não caso de falta de necessidade (ou será que um carro popular é confiável a ponto de dispensar do marcador de temperatura, e um Cherokee  não?). Já a visibilidade é boa para a frente a para os lados, mas ruim para trás. Ainda assim, o motorista não terá dificuldade para fazer manobras, graças aos retrovisores bem-dimensionados e à câmera traseira. A iluminação conta com luzes diurnas e lanternas em LEDs e faróis de xenon (não-direcionais), com resultado bastante satisfatório.

CUSTO/BENEFÍCIO

A lista de equipamentos é muito farta. Além dos itens já citados ao longo do texto, há sistema de partida sem chave, ar-condicionado bi-zona, bancos dianteiros com aquecimento e ventilação (o do motorista tem regulagem elétrica), freio de mao eletrônico, teto solar panorâmico, sistema de entretenimento com tela de toque de 8,4”, comandos de voz, Bluetooth, nove alto falantes, subwoofer e amplificador, entradas auxiliar, USB e SD Card, navegador GPS, faróis e limpadores com acionamento automático, sistema de monitoramento de pressão dos pneus e assistente de partida em rampa. Entre os itens de segurança, há sete airbags (frontais, laterais, do tipo cortina e para os joelhos do motorista), encostos de cabeça dianteiros ativos e controles eletrônicos de tração, estabilidade e de rolagem da carroceria, além de freios ABS.

teste_jeep_cherokee_2015_8Quanto ao produto em si, não há dúvida. O Cherokee é excelente. Quanto ao preço… Bem, a versão Limited custa R$ 194.900 (no ano passado, antes da alta do IPI, o valor era de R$ 174.900). É fato é que outros SUVs com potência e equipamentos semelhantes estão na mesma faixa, mas ainda assim, o valor parece exagerado, mesmo com todas os atributos que o modelo da Jeep entrega.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho(acelerações e retomadas) 10 10
Consumo(cidade e estrada) 5 6
Estabilidade 8 8
Freios 9 9
Posição de dirigir/ergonomia 9 9
Espaço interno 9 9
Porta-malas(espaço, acessibilidade e versatilidade) 8 9
Acabamento 10 10
Itens de segurança(de série) 9 9
Itens de conveniência(de série) 9 9
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 9 9
Relação custo/benefício 6 8

FICHA TÉCNICA

Motor
Dianteiro, longitudinal, seis cilindros em V, 24 válvulas, a gasolina, 3.239 cm³ de cilindrada,  271cv de potência máxima a 6.500 rpm e 32,2 kgfm de torque máximo a 4.400 rpm

TRANSMISSÃO
Tração integral, câmbio automático de nove velocidades

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h 
Não informada pelo fabricante

VELOCIDADE MÁXIMA 
Não informada pelo fabricante

SUSPENSÃO
Dianteira independente, do tipo McPherson, com barra estabilizadora; traseira independente, de braços múltiplos, com barra estabilizadora

RODAS E PNEUS
Rodas de 7 x 18  polegadas, em liga leve, pneus 225/55 R18

DIREÇÃO
Do tipo pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
A discos ventilados na dianteira e a discos sólidos na traseira, com ABS

DIMENSÕES
Comprimento, 4,624; largura, 1,859; altura, 1,6832; distância entre-eixos, 2,700

CAPACIDADES
Tanque de combustível, 60 litros; porta-malas, de 412 a 500 l, capacidade de carga (passageiros e bagagem), 454 quilos; peso, 1.834 kg

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos