Linha ID é prova de vida elétrica da VW para o mercado

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Andamos no hatch e SUV médios zero combustão que devem chegar ao Brasil até 2024

Por Fernando Miragaya (*)
De São Paulo

A festa da mobilidade elétrica ainda é seleta no Brasil. Reúne poucas marcas, tradicionais e novatas, no mesmo espaço VIP. Só que a Volkswagen estava sem a pulseirinha. A marca alemã coloca um pé nessa balada com a linha ID, que o Autos Segredos foi conhecer de perto dirigir.

Um pé apenas porque, por enquanto, a Volks apenas mostra o ID.3 e o ID.4 em eventos Brasil afora. Não há previsão oficial de início das importações de nenhum dos dois carros elétricos por aqui, mas o fabricante sabe que não pode se atrasar muito para a festa.

Até lá, a marca dá seu jeito de mostrar que domina a tecnologia, como nós pudemos conferir. Foi uma voltinha bem tímida ao redor do Jockey Club de São Paulo, diga-se de passagem. Pouco para analisar o que os carros oferecem, mas suficiente para mostrar que a Volks não brincou em serviço.

Golf monovolume e elétrico?

Começamos pelo ID3, hatch médio com porte de Golf e jeitão de monovolume. Antes de acelerar, é preciso dedicar um tempo para descobrir as bossas do carro elétrico. Não que isso seja difícil. Pelo contrário: tudo é bem intuitivo dentro da cabine minimalista da versão intermediária do ID3 que estava exposta no Jockey.

São poucos os botões físicos e a maior parte dos dispositivos é comandada pela central multimídia com tela de 10″. Esta tem o layout e a navegação funcionais como os de um smartphone.

No sistema, ainda é possível acessar várias configurações do carro por meio de comandos de voz. Basta falar “Oi ID” que uma voz com sotaque luso pergunta do que você precisa. Se você responder que está calor, o equipamento dotado de inteligência artificial já diminui a temperatura do ar. Se falar que quer mudar a luz ambiente, já abre o menu com a paleta de cores possível.

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Para quem é old school, boa parte dos comandos físicos funciona com o simples deslizar dos dedos – chamados pomposamente de botões capacitivos -, como em um celular, ou mesmo por toque suaves. É assim para regular o ar na base da central, ou aumentar a projeção do display do pequeno quadro de instrumentos.

A propósito, o painel mais parece um daqueles games portáteis, com desenho geométrico e moderno. Ao lado está o comando do câmbio automático igualmente estiloso e diferentão, que funciona ao aperto de teclas como em um interruptor, com o parking em um botão lateral.

O ambiente é bastante clean, os bancos são feitos de material reciclável, bastante firmes, mas o acabamento não é lá muito inspirador. Parece simples demais nas portas e no console central – até com alguns encaixes mal feitos.

O espaço interno é beneficiado pelo assoalho plano, o que se reflete em um bom vão para pernas atrás. Pessoas com cerca de 1,75 m de altura não raspam joelhos ou cabeças. O banco traseiro ainda chama a atenção pela inclinação maior do encosto, dando a impressão que você está na cadeira do cinema – aqueles cinemas mais modernos.

Ao volante

Sem mais delongas, hora de acelerar o carro elétrico da Volks. Ao entrar no ID.3 com a chave presencial, basta pisar no pedal do freio que o motor desperta em seu silêncio característico. Aos apegados, um alento: tem um botão start na coluna de direção.

A configuração do ID.3 trazida para o Brasil tem potência de 204 cv e 31,6 kgfm. Apesar da boa potência, o hatch elétrico não tem aquelas acelerações brutas, mesmo que você pise mais forte no pedal do acelerador.

O que não se traduz em um carro pacato. Segundo a Volks, nesta opção, a aceleração de 0 a 100 km/h do hatch se dá em 7,3 segundos, enquanto a máxima fica em 160 km/h.

O carro proporciona bastante conforto no rodar e a direção é bastante direta. Mesmo no modo Sport de condução, quando a carga do volante aumenta, os pedais ficam mais firmes e as respostas mais ágeis, a esportividade tem seu “quê” de conforto.

Claro que fomos cerceados pelo mísero trajeto e limitados pelo imperdoável trânsito paulistano em uma manhã chuvosa de terça-feira. Só no curto trecho da Marginal Pinheiros alcançamos os 60 km/h (com bastante facilidade), e aproveitamos para desfrutar das tecnologias do carro.

Por uma tecla no volante, entra em ação o sistema de permanência em faixa. É um item de condução semi-autônoma, que mantém o carro dentro da pista sem que o motorista segure sequer a direção.

O head-up display com realidade aumentada mostra a funcionalidade no para-brisa, tingindo de verde as faixas brancas da pista da Marginal. Ao mesmo tempo em que espelha o velocímetro, o sistema sinaliza a proximidade para o veículo à frente, detecta e desenha motos no para-brisa e freia sozinho se for necessário.

A cada 30 segundos, o equipamento pede que você pegue no volante – para verificar se o motorista está atento. Se nada for feito, é emitido um alerta sonoro com um aviso em letras vermelhas no painel. Se nem assim você assumir a direção, o carro freia sozinho.

E o SUV?

Com o ID.4 a Volks foi ainda mais econômica… no test drive. Em vez de duas, apenas uma volta com o SUV elétrico em torno do Jockey Club paulistano.

Ao contrário do hatch, o ID.4 revela maior cuidado no acabamento. Os materiais e fechamentos aparentam mais qualidade e certo grau de requinte. A central multimídia nesta versão mais completa do crossover usa display de 12″, com a mesma operação intuitiva e funcional.

O motor de 204 cv oferece desempenho bem parecido com o do ID.3. Apenas no modo Sport o SUV se mostra mais responsivo e com uma pequena pitada de virilidade nas respostas do acelerador. E também é possível, nesta opção de condução, perceber que o ajuste mais firme dos amortecedores eletrônicos sente mais a pista esburacada.

Em modo Conforto ou Cco, contudo, o ID.4 evidencia seu bom acerto de suspensão. E olha que o SUV médio, que tem porte de Taos, é equipado com gigantescas rodas aro 21″ e pneus de perfil baixo.

Autonomia dos VW ID.3 e ID.4

O ID.3 que estava disponível – mais para admiração do que para avaliação – usa baterias com 58 kWh de capacidade. Isso garante ao hatch uma autonomia de 426 km no ciclo europeu WLTP – aquele bem otimista. Mesmo com uma boa margem de erro, não deixa de ser um belo alcance.

Já o ID.4 “avaliado” tem baterias mais potentes, de 77 kWh, que prometem até 522 km de autonomia com uma carga completa. Lá fora, a linha também tem versões com potência entre 145 cv e 299 cv, e autonomias que vão dos 330 km até os 550 km.

Quando ID.3 e ID.4 começam a ser vendidos no Brasil?

Pois é, a Volks só mostrou que tem carro elétrico para vender, mas não disse quando fará isso no Brasil. O drama da marca alemã é que ela sabe que precisa chegar na festa dos elétricos com um produto bom.

Esses exemplares da linha ID já fazem as vezes desta vitrine tecnológica no Brasil. Como também servem para testar a reação do consumidor da marca, mais acostumado com a robustez dos motores a combustão e com a mecânica mais tradicional da marca alemã.

Além disso, a Volks não tem um veículo topo de linha ou referência de mais requinte em sua linha no Brasil. O carro de passeio mais caro da montadora hoje por aqui seria o Tiguan. A linha foi remodelada lá fora e deve chegar ao Brasil no início de 2022 com preços acima dos R$ 220 mil.

Na Europa, o ID.3 e ID.4 têm preços que vão, em conversão direta, de R$ 230 mil a R$ 320 mil. Isso sem taxas de importação e custos de preparação da rede de concessionárias.

Preço é desafio, mas a Volks vai trazer um modelo elétrico de um jeito ou de outro. Como o mundo e o Brasil respiram SUV, o ID.4 é o caminho natural e deve chegar até o fim de 2023. Se o convidado atrasado da festa vai fazer sucesso, aí é outra história.

(*) O jornalista viajou a convite da VW do Brasil.

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