Pode um carro oferecer números de consumo excepcionais e ainda ser divertido ao dirigir?

teste_vw_up!_run_1Por Renato Passos (*)

O Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (The Strange case of Dr. Jekyll and Mr Hyde, no original em inglês) foi um livro publicado em 1886 por Robert Louis Stevenson e deu origem ao famoso filme “O médico e o Monstro” de 1941, dirigido por Victor Fleming. Em ambos os casos, a história se passa na Londres do século XIX. O médico e pesquisador Henry Jekyll crê que bem e mal existam em todas as pessoas.

teste_vw_up!_run_4Jekyll tem muita determinação para provar sua teoria, que é criticada por todos ao seu redor. Após trabalhar incansavelmente em seu laboratório, Jekyll elabora uma fórmula química. Não querendo colocar em risco a vida de ninguém, ele mesmo a bebe. Como resultado, seu lado demoníaco é revelado, que ele chama de Mr. Hyde. Mas o pior ainda estava por vir pois, inicialmente, Jekyll acreditava poder controlar as aparições de Hyde, mas logo ele veria o quão enganado estava.

Agora, deixe de lado a sétima arte. Aqui o papo é carro. Mas haveria algum carro que se portasse como Dr. Jekyll e Mr. Hyde? Dócil no trato por um lado, e sanguíneo de outro, em uma só embalagem? Após divagar, escolhemos o Volkswagen up!, velho conhecido nosso. Recebemos para essa jornada o pequeno germânico na versão Run que, apesar do nome, apenas adiciona itens que remetem à esportividade. E não, o aclamado motor EA211 1.0 TSI não faz parte dessa versão.

teste_vw_up!_run_7
Rodas de liga leve na cor grafite são de série na versão RUN

Com preço base de R$ 44.370 e com previsão de vendas até meados do segundo semestre de 2016, a série remete à uma esportividade em tese ausente no compacto. Faixas na porção inferior das laterais com o nome da série , bem como capa dos retrovisores de cor preta, faróis e lanternas escurecidos, rodas de liga leve de 15 polegadas em tom cinza escuro ornamentam pelo lado de fora do up!.

Por dentro, as modificações se concentram na forração preta de colunas e teto revestimento de couro no volante e nas alavancas do câmbio e do freio, além de apliques relativos à série no painel e nos bancos dianteiros. Baseado na versão Move up!, itens como ar condicionado, direção elétrica, vidros dianteiros, travas e retrovisores elétricos são de série. Ofertado como opcionais estão sensores de estacionamento e sistema de som com quatro alto-falantes e dois tweeters.

teste_vw_up!_run_10
Versão RUN tem aplique adesivo alusivo a versão no lado direito do painel

Apresentado o nosso candidato à esquizofrenia, é hora de verificar sua personalidade dicotômica.

Primeiro teste – Dr. Jeckyll e sua faceta econômica

Fácil de se utilizar no trânsito urbano, com dimensões reduzidas e visibilidade favorecida, o up! é o equivalente automotivo ao cachorro, sempre fiel a seu dono. Com comandos bem localizados e sem exigir nenhum esforço extra para manuseio dos comandos, a vida citadina com o pequeno Volks é excelente: temos, pois, um veículo de vocação urbana inegável.

Entretanto, sabemos que o brasileiro espera que seu carro seja como Bombril, com mil e uma utilidades. Na Europa, onde os carros normalmente seguem sua vocação à risca, uma viagem de up! é raridade, embora seguramente exista. No Brasil, entretanto, com apenas um carro na garagem e uma infinidades de coisas a serem feitas, seguramente veremos carros voltados para uso urbano passando a mil nas nossas complicadas estradas. E como o compacto alemão, sabidamente um estandarte de economia, se portaria nessas situações?

teste_vw_up!_run_22

Para tal, montamos um roteiro de 128 quilômetros por estradas mineiras, entre as cidades de Betim, Itatiaiuçu e Itaúna. Embora rodando na maior parte do tempo em rodovias duplicadas, não se foge com tanta facilidade das grandes variações de relevo nos caminhos de Minas. Logo, longe de ser um cenário ideal para a execução de maratonas de consumo. Com duas pessoas a bordo, vidros fechados, ar condicionado desligado e andando durante a noite para menor interferência do tráfego, fomos rumo à máxima economia que poderíamos obter no up!.

teste_vw_up!_run_23
Com etanol no tanque e 130 quilômetros rodados up! fez média de 13,8km/l

Buscando manter a velocidade constante em 85 km/h, percorremos todo o trajeto sem grandes percalços. Estando abastecido com etanol, sabíamos que a média de consumo para trajeto rodoviário obtida pela Volkswagen no CONPET era de 10,6 quilômetros com um litro de combustível vegetal. Após quase 130 quilômetros, a grata surpresa: aferimos no computador de bordo o interessante valor de 13,8 quilômetros por litro. Imagine, agora, em uma autoestrada sem trânsito, no plano, e a nível do mar para melhor eficiência global do propulsor. É para aplaudir de pé, não é mesmo?

Sabemos que o lado bonzinho do up! é realmente verdadeiro. Mas, e de apertamos a fundo – e o mergulharmos na maldade – qual será a realidade que o Mr. Hy…quer dizer, o up! revela? É o que veremos a seguir

Segundo teste – Mr. Hyde e o engolidor de curvas

O up! não demonstra ser bobo na cidade, a despeito de seu apetite frugal. Com boa oferta de torque a baixas rotações – típica dos atuais motores tricilíndricos com construção subquadrada (curso dos pistões maior que o diâmetro dos mesmos) como nos motores Diesel, o EA 211 tem o irmão mais nervoso equipado com turbocompressor e candidato a lenda nas ruas e nos fóruns virtuais.

teste_vw_up!_run_21

Mas, com o irmão mais fraco em mãos, fomos rumo a uma viagem de 92 quilômetros entre Belo Horizonte e Ouro Preto. Também em período noturno, o up! concluiu o percurso em menos de uma hora de viagem. Mantendo velocidade de cruzeiro como um carro de maior cilindrada, o pequeno 1.0 não se faz de rogado e respira com vontade para entregar o melhor de si.

[photomosaic]

Não obstante, quando provocado na temerosa serra de Itabirito, o pequeno VW teimava em se manter sob trilhos, apoiado apenas em seus pneus e a bela calibração de chassis. Quando desgarrava, o up! saia ligeiramente de frente (comportamento subesterçante) de forma sutil e em um limiar de aderência muito além do experimentado pelo motorista comum nas situações rotineiras. Nem a ausência de controle de tração nem o centro de gravidade teoricamente elevado se fizeram presentes: o carrinho é bom de chão, devorando curvas sem o menor esforço.

Ponto negativo apenas para os pedais, bem afastados entre si e tornando dificultosa a realização de punta-tacco para melhor aproximação nas curvas. Mas para um aparente Dr. Jeckyll que se tornou Mr. Hyde, é um pequeno e irrelevante descuido nesse compacto tão bem executado e de duas facetas tão díspares entre si.

(*) Engenheiro mecânico formado pelo Cefet-MG

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos