Versões aventureiras dos hatches desenvolvidos para países emergentes são parecidas em muitos pontos, inclusive no preço

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Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

Os hatches aventureiros se multiplicaram de tal modo que, hoje, seria injusto  classificar todos eles como concorrentes diretos. É possível comprar modelos novos com esse tipo de proposta em uma ampla faixa de preço, que começa em pouco mais de R$ 30 mil e supera os R$ 60 mil. Em meio a todas as opções, estão o Toyota Etios Cross (R$ 54.790) e o Renault Sandero Stepway (R$ 56.200): qual deles é mais vantajoso? Neste comparativo, os dois disputam cada um dos 12 itens que sempre balizaram os testes do Autos Segredos (desempenho, consumo, estabilidade, freios, posição de dirigir/ergonomia, acabamento, espaço interno, porta-malas, itens de conveniência, itens de segurança, conjunto mecânico e relação custo/benefício): o vencedor de cada quesito recebe um ponto e, se houver empate em algum deles, cada um leva 0,5. No final, vence aquele que obtiver a maior soma. Confira:

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Desempenho – Sandero Stepway 0/Etios Cross 1

O motor Renault tem mais potência e torque: seu 1.6 8V desenvolve 98 cv com gasolina e 106 com etanol, a 5.500 rpm, além de 14,5 kgfm com o primeiro combustível e 15,5 kgfm com o segundo, a 2.850 rpm. O 1.5 16V do Toyota entrega  92 cv com o derivado do petróleo e 96,5 cv com o destilado da cana. O valor de 13,9 kgfm é o mesmo com os dois combustíveis, a 3.100 rpm. Apesar dessa aparente superioridade, o Etios é mais leve e, por isso, tem relação peso/potência mais favorável: são 10,71 kg/cv com gasolina e 10,21 kg/cv com etanol. No Sandero, são 11,42 cv/kg com o combustível fóssil e 10,56 cv/kg com o vegetal. O mesmo ocorre quando se calcula a relação peso/torque: no hatch paranaense são 72,26 kg/kgfm e 77,24 kg/kgfm com os dois combustíveis, respectivamente, enquanto no concorrente paulista o resultado é sempre de 70,86 kg/kgfm.  Na prática, o Stepway é um pouco mais ágil apenas em arrancadas e em rotações mais baixas, até 2.000 rpm; a partir de 3.000 rpm, ele vai perdendo muito fôlego. Por sua vez, o Cross tem mais disposição em regimes médios e altos; nessas situações, a vantagem sobre o adversário é nítida. graças à distribuição da potência e do torque mais linear.

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Consumo – Sandero Stepway 0/Etios Cross 2

O Etios consumiu menos combustível tanto nos percursos urbanos quanto nos rodoviários: suas médias foram de 11 km/l e de 13,2 km/l, respectivamente, com gasolina. O Sandero cravou 9,6 km/l e 12,8 km/l com o mesmo combustível. Os dois foram submetidos aos mesmos tipos de trajeto e foram dirigidos pelo mesmo motorista. Embora as notas tenham sido dadas com base em nossas próprias aferições, os testes do Programa de Etiquetagem Veicular também apontam que o Toyota é mais econômico que o Renault. O primeiro obteve 12,2 km/l na cidade e 12,8 km/l na estrada, com o combustível fóssil, enquanto com o derivado da cana os números foram de 8,5 km/l e de 9,5 km/l, respectivamente. Já o segundo não passou de 10,5 km/l e de 11,6 km/l, com gasolina, e de 7,4 km/l e 8,1 km/l , com etanol, em ciclos cidade/estrada, na ordem.

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Estabilidade – Sandero Stepway 0/Etios Cross 3

Em outros testes, a estabilidade do Etios já havia sido elogiada. Mais uma vez, ele se destacou nesse aspecto, mostrando-se superior ao rival. O Toyota inclina menos a carroceria em curvas e demora mais para subesterçar. Não que o Sandero seja instável, longe disso: ele também apresenta comportamento seguro e previsível, mas chega ao limite antes. Fica o lembrete de que a versão Stepway traz suspensão elevada em 4 cm em relação ao restante da linha, ao passo que o Cross tem exatamente a mesma altura livre do solo das demais configurações. Isso traz vantagens quando se circula em vias sem pavimentação ou malconservadas – o que é coerente e desejável em um aventureiro – mas tende a prejudicar a dinâmica no asfalto. Por outro lado, o Renault tem pneus mais largos (195/60 R16, ante 185/60 R15 no concorrente; ambos para uso on-road), o que poderia beneficiar a aderência em pista seca, mas isso não foi o bastante para torna-lo mais equilibrado que o adversário.

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Freios – Sandero Stepway 0,5/Etios Cross 3,5

O sistema de freios de ambos dos aventureiros é semelhante, e não foge ao padrão utilizado em hatches compactos sem pretensões esportivas: discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS. Tanto o Sandero quanto o Etios apresentam resultados corretos nas frenagens, sem gastar espaço demais para chegar à imobilidade e sem desvios de trajetória. Assim, saem empatados desse item e dividem o ponto.

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Posição de dirigir/ergonomia – Sandero Stepway 1,5/Etios Cross 3,5

A posição de dirigir é correta nos dois hatches. O motorista senta-se alinhado aos pedais e ao volante, que, por sinal, tem boa pegada em ambos. Uma falha presente tanto no Etios quanto no Sandero: a coluna de direção é ajustável apenas em altura, e não em profundidade. Nos dois, o banco tem ajuste de altura, mas poderia haver mais apoio lombar. Também é possível notar em ambos alguns comandos mal-localizados: no Renault, as teclas dos vidros elétricos traseiros são posicionadas no painel, distantes das demais, e o botão para desativar o bipe do sensor de estacionamento traseiro fica parcialmente encoberto pelo volante. O Toyota traz todos os interruptores dos vidros agrupados na porta do motorista, mas também encobre parcialmente alguns botões: no caso, os responsáveis por ajustar os retrovisores elétricos. O modelo paranaense acaba vencendo este quesito devido ao seu quadro de instrumentos mais legível, graças ao seu posicionamento mais convencional, à frente do motorista. No adversário paulista, o cluster central requer alguma adaptação. E, mesmo depois de se acostumar ao velocímetro e ao conta-giros, que apresentam leitura correta na medida do possível, ainda é difícil enxergar o marcador de combustível, pequeno demais. Fica a ressalva de que nenhum dos aventureiros traz termômetro do fluido de arrefecimento.

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Acabamento – Sandero Stepway 1,5/Etios Cross 4,5

Os dois modelos têm padrão bem parecido de acabamento interno, com predominância de plásticos rígidos e peças pintadas de preto brilhante. Além do mais, em ambos há muitos parafusos à mostra no console central e nas maçanetas das portas. Mas  o Etios é superior nos detalhes. Os encaixes, por exemplo, são mais bem-cuidados, e há menos rebarbas. No Sandero avaliado, a moldura da tecla do vidro elétrico da porta do passageiro estava se soltando. E por falar nos painéis das portas, eles são inteiramente confeccionados em plástico no Renault, enquanto o rival traz porções estofadas. Até o porta-malas do hatch nipo-indiano tem uma proteção plástica no batente da tampa, enquanto no franco-romeno, a lataria fica exposta, vulnerável a danos causados pelas operações de carga e descarga. Neste quesito, o Toyota vence por pouco.

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Espaço interno – Sandero Stepway 2,5/Etios Cross 4,5

O habitáculo do Etios é amplo para a categoria. Nele, quatro adultos, mesmo de estatura mais alta, viajam sem sacrifício. Mas o Sandero é imbatível neste quesito: graças às suas dimensões externas mais generosas, o espaço para os ocupantes está mais para os médios que para os compactos, de modo que ninguém encosta a cabeça no teto ou os joelhos nos bancos da frente. O hatch paulista traz uma vantagem: o assoalho traseiro é quase plano, com um ressalto central rebaixado, que faz com que o quinto ocupante desfrute de melhores acomodações para os pés. Mas o Renault sacramenta a vitória com um banco traseiro mais largo, que faz com que, caso haja lotação máxima, os passageiros viajem com um pouco mais de folga.

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Porta-malas – Sandero Stepway 3,5/Etios Cross 4,5

Eis outro aspecto em que o Sandero é a referência do segmento. Ele tem um porta-malas de 320 litros, maior do que o de qualquer outro compacto. O do Etios, com 285 litros, não chega a ser pequeno dentro da categoria, mas fica em patamar inferior ao do rival. Outra vantagem do Renault  é que o banco traseiro bipartido (em esquema 1/3 e 2/3) permite mais possibilidades de utilização. No Toyota, o encosto rebatível é inteiriço. Em ambos, o batente da tampa é um pouco alto, o que prejudica um pouco a colocação dos volumes.

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Itens de conveniência – Sandero Stepway 4,5/Etios Cross 4,5

Equipamentos como vidros elétricos (nas quatro portas), travas e retrovisores elétricos, alarme e sistema multimídia com tela sensível ao toque de sete polegadas e entrada USB estão presentes nos dois modelos. A central da Renault traz os controles do sistema em um satélite na coluna de direção (solução típica das marcas de origem francesa) e inclui navegador GPS, ao passo que no Toyota os comandos estão em posição tradicional, no volante, mas preciso usar o celular, por meio de espelhamento, para utilizar o navegador.  O Etios vem de série com rodas de liga leve aro 15; no Sandero, o conjunto de liga leve, de aro 16, é opcional e adiciona R$ 890 ao preço final, mas ele oferece ainda, de série, computador de bordo e sensores de estacionamento traseiros, que são indisponíveis no rival, e, por isso, vence por pouco este quesito. Vale ressaltar que os bancos revestidos em couro que equipam o Etios do comparativo não vêm de fábrica: são acessórios instalados na rede de concessionárias. No concorrente, eles são opcionais verdadeiramente ditos, e custam  R$ 1.160, ainda que a unidade avaliada não os trouxesse.

Itens de segurança – Sandero Stepway 5,5/Etios Cross 4,5

Ambos os veículos são desprovidos de equipamentos de segurança, e não vão além dos obrigatórios airbags frontais e freios ABS. Itens como ganchos Isofix para ancoragem de cadeirinhas infantis ou controle eletrônico de estabilidade não estão disponíveis sequer como opcionais. O Stepway acaba levando uma ligeira vantagem por trazer encostos de cabeça para todos a bordo, que acabou desempatando esse quesito; no Cross, o passageiro central-traseiro não conta com esse dispositivo. Os cintos para o quinto ocupante são subabdominais nos dois aventureiros. Vale mencionar (a título de curiosidade, pois a avaliação do Autos Segredos levou em conta apenas os equipamentos) que, no crash-test realizado pelo Latin NCAP, o Etios recebeu quatro estrelas na proteção para adultos e duas na para crianças. Já a atual geração do Sandero ainda não teve seu projeto de deformação programada colocado à prova, e, por isso, desfruta do benefício da dúvida: apenas o modelo anterior, descontinuado em 2014, passou pelo teste de impacto, antes de trazer airbags frontais de série por força da legislação. Sem as bolsas de ar, recebeu apenas uma estrela na proteção para adultos e duas na para crianças.

Conjunto mecânico – Sandero Stepway 5,5/Etios Cross 5,5

Em termos mecânicos, o Etios tem mais tecnologia embarcada, e isso acaba fazendo a diferença para quem o dirige. Sua direção, por exemplo, com assistência elétrica, é mais leve em manobras que a hidráulica do adversário, e, graças à progressividade do sistema, não fica para traz em firmeza em alta velocidade, ainda que sua relação muito desmultiplicada a torne mais indireta que a do Sandero. O motor 1.5 de origem japonesa, mesmo dispondo de 16 válvulas, entrega menos potência e torque que o 1.6 de oito válvulas com raízes na frança, porém tem funcionamento mais suave e é equipado com corrente para movimentar o comando de válvulas: segundo a Toyota, essa corrente não tem trocas programadas e sua vida útil prevista é semelhante à de todo o conjunto propulsor. No Sandero, há uma correia convencional, com troca prevista a cada 60 mil km. Quanto aos materiais de confecção, bloco e cabeçote são em alumínio no Cross (o que contribui, em parte, seu peso mais baixo), enquanto o Stepway tem bloco em ferro fundido. Ambos têm câmbios manuais de cinco velocidades, mas o do modelo produzido em Piracicaba (SP) tem engates mais precisos. No concorrente fabricado em São José dos Pinhais (PR), o curso muito longo da alavanca prejudica o manuseio. As relações são ligeiramente mais curtas no Renault: a 120 km/k, em quinta, o motor gira a 3.500 rpm, ao passo que no rival o valor cai para 3.300 rpm, mas nos dois o escalonamento é correto, sem “buracos” entre as marchas.  A suspensão de ambos os aventureiros é do tipo McPherson, independente, na dianteira, e por barra de torção, semi-independente, na traseira, e gera resultados parecidos – e satisfatórios – em termos de absorção de impactos, isolando bem os ocupantes dos solavancos quando circulam por vias desniveladas.

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Relação custo/benefício – Sandero Stepway 6,5/Etios Cross 5,5

Conforme já foi informado no início do texto, o Stepway é um pouco mais caro: custa R$ 56.200, contra R$ 54.790 do Cross. Essa diferença, porém, é justificada pela lista de equipamentos maior, cujos itens já foram descritos. Apesar da boa fama da Toyota em termos de assistência técnica, os dois têm igual período de garantia, que é é de três anos. O que acaba dando a vitória ao Renault é um motivo mercadológico: ele não deverá sofrer mudanças até o ano que vem, quando a linha 2018 trará um facelift e, espera-se, também uma atualização mecânica. Por outro lado, o Etios, está prestes a mudar: a linha 2017 do compacto será lançada neste mês, e trará aperfeiçoamentos no motor. E, embora não haja uma confirmação, já há especulações sobre alterações também no interior. Desse modo, neste momento, o Sandero revela-se uma compra mais atraente e, ao vencer o quesito custo-benefício, acaba sagrando-se campeão no comparativo.

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FICHA TÉCNICA DO RENAULT SANDERO STEPWAY

»MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, gasolina/etanol, 1.598 cm³ de cilindrada, 98 cv (g)/106 cv (e) de potência máxima a 5.500, 14,5 kgfm (g)/ 15,5 mkgf (e) de torque máximo a 2.850 rpm

»TRANSMISSÃO
Tração dianteira e câmbio manual de cinco marchas

»ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
11,6 segundos com gasolina e 11,4 segundos com etanol

»VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
167 km/h com gasolina e 169 km/h com etanol

»DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica variável

»FREIOS
Discos na dianteira e tambores na traseira, com ABS

»SUSPENSÃO
Dianteira, independente,  McPherson; traseira semi-independente, por eixo de torção

»RODAS E PNEUS
Rodas em liga leve aro 16, pneus 195/60 R16

»DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,091; largura, 1,751; altura, 1,578; distância entre-eixos, 2,590; peso, 1.120 quilos

»CAPACIDADES
Tanque de combustível: 50 litros; porta-malas: 320 litros; carga útil (passageiros e bagagem), 458 quilos

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FICHA TÉCNICA DO TOYOTA ETIOS CROSS

»MOTOR:
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.496 cm³ de cilindrada, 92 cv (g)/96,5 cv (e) de potência máxima a 5.600  rpm, 13,9 kgfm (com ambos os combustíveis) de torque máximo a 3.100  rpm.

»TRANSMISSÃO:
Câmbio manual de cinco marchas,tração dianteira.

»ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
11,1 segundos.

»VELOCIDADE MÁXIMA:
Não informada pelo fabricante

»DIREÇÃO:
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica.

»FREIOS:
Discos ventilados na frente e tambores  atrás, com ABS.

»SUSPENSÃO:
Dianteira independente do tipo McPherson, com barra estabilizadora. Traseira com eixo de torção e barra estabilizadora. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.

»RODAS E PNEUS:
Rodas em liga leve 15×5,5, pneus 185/60 R15.

»DIMENSÕES:
Comprimento, 3,90 m; largura, 1,73 m; altura, 1,55 m; distância  entre-eixos, 2,46 m; peso: 985 quilos.

»CAPACIDADES:
Tanque de combustível: 45 litros; porta malas: 270 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 422 quilos.

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos