Versão aventureira, que também é a top de linha, conserva todas as qualidades e os defeitos das demais versões, já que não passou por alterações mecânicas; preço alto contrasta com a simplicidade do projeto

teste_toyota_etioscross_44Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

Pouco mais de um ano após avaliarmos o Etios hatch 1.3 (veja aqui) e o Etios Sedan 1.5 (veja aqui), o Autos Segredos volta a se encontrar com o modelo. De lá pra cá, algumas coisas mudaram, e para melhor: antes protegidas apenas com primer, algumas partes da carroceria, como caixas de roda e cofre do motor, ganharam pintura a partir da linha 2014. O interior também ganhou novos materiais. Sobre isso, contudo, vamos deixar para falar detalhadamente mais à frente. Mas a maior novidade foi a chegada da polêmica versão aventureira Cross, justamente a que nos foi cedida agora. Normalmente, esse tipo de configuração tem um apelo mais emocional que racional, pois os adereços off-road servem mais para incrementar o visual, deixando o carro com um aspecto agressivo, que para sair do asfalto. No caso do hatch da Toyota…. Bem, é tarefa árdua encontrar alguém que se encante pelo Etios Cross. Se nas demais versões o design parece simplório, nesta há um exagero de elementos, que em vez de embelezar a carroceria, poluem-na. Mas como quem vê cara não vê coração, vamos ultrapassar o campo das aparências.

teste_toyota_etioscross_42Outra característica das versões aventureiras é que elas normalmente têm suspensões elevadas, muitas vezes unidas até pneus de uso misto, que permitem, ao menos em parte, o cumprimento da promessa visual de sair do asfalto. Eles não encaram aventuras radicais, mas podem se sair bem em estradas rurais que trariam alguns problemas, como esbarrões contra o piso, a automóveis convencionais. O Etios Cross, contudo, não pertence a essa turma. Ele tem exatamente a mesma altura em relação ao solo do restante da linha. Na verdade, sua capacidade off-road é até ligeiramente pior, uma vez que o para-choque dianteiro mais comprido, graças aos enxertos plásticos que simulam um quebra-mato, reduzem ligeiramente o ângulo de entrada. Ou seja, o Toyota em traje safari não é a melhor opção para quem quer um carro mais altinho para ir ao sítio…

AVENTUREIRO PARA ASFALTO Pobre Etios Cross: sua roupagem, além de não acrescentar em termos visuais, ainda não vem acompanhada de mudanças mecânicas.   Mas nem tudo está perdido. Afinal, ao compartilhar exatamente o mesmo conjunto de suspensões do restante da linha, o modelo mantém o ótimo comportamento dinâmico. A suspensão do Toyota, composta por conjuntos do tipo Mc Pherson na frente e de eixo de torção atrás, tem um dos melhores acertos entre os compactos de entrada e une com muita competência esportividade e conforto. Nas curvas, o hatch surpreende, entregando muita neutralidade e controle direcional. E em pavimentação irregular, ele filtra bem as imperfeições, mantendo os solavancos fora do habitáculo. Se a ideia for trafegar no asfalto, a dirigibilidade é um ponto muito forte. O comportamento também é seguro nas frenagens, feitas em curtos espaços e sem desvios de trajetória. A modularidade do pedal também agrada.

teste_toyota_etioscross_17A suspensão competente vem acompanhada de um motor à altura: embora não seja referência em valores máximos de potência ou torque – são 92/96,5 cv, com gasolina e etanol, na ordem, a 5.600 rpm e 13,9 kgfm a 3.100 rpm, com ambos os combustíveis – o 1.5 agrada pelas respostas ágeis em todas as faixas de rotação, além do funcionamento suave mesmo perto da faixa de corte. O hatch arranca com vivacidade, acelera rapidamente e não tem dificuldade para retomar velocidade. O cabeçote, de 16 válvulas, tem comandos fixos, mas o acionamento é por corrente e a confecção de todo o conjunto, incluindo o bloco, é em alumínio. O propulsor trabalha em fina sintonia com o câmbio manual de cinco marchas, que concilia ótimos engates, macios e precisos, a um escalonamento correto. A 120 km/h, em quinta marcha, o tacômetro marca cerca de 3.300 rpm. A direção, contudo, não se destaca tanto: apesar de agradar pela grande progressividade proporcionada pela assistência elétrica, que torna o volante leve em manobras e suficientemente firme em alta velocidade, deixa a desejar por ser muito desmultiplicada. Uma relação mais direta seria mais condizente com o restante da parte mecânica.

Assim como das outras vezes em que foi testado, o Etios obteve bons resultados em termos de consumo. Dessa vez, contudo, as médias foram calculadas com etanol, e não com gasolina, como é de praxe no Autos Segredos. É que a unidade avaliada veio com o tanque cheio de combustível vegetal, e após esgotá-lo, não tivemos tempo de fazer medições suficientes usando o derivado do petróleo. Assim, com álcool, as marcas foram de 8,9 km/l na cidade e de 10,3 km/l na estrada. Lembramos que o consumo é influenciado por vários fatores, como as condições do trânsito, as características da vias, o relevo e o estilo de condução do motorista.

teste_toyota_etioscross_23MENOS SIMPLÓRIO No interior, estão as mais evidentes alterações aplicadas à linha 2015. Em termos de design, não houve mudanças: o painel é exatamente o mesmo e apenas o aparelho de som foi substituído por outro, de melhor aparência. Os materiais, contudo, têm aspecto melhor. No lugar do plástico cinza, há superfícies brilhantes e até alguns apliques cromados. Os bancos são revestidos com um tecido sintético bastante agradável aos olhos e ao toque. Também há tecido nas forrações das portas. O resultado é um acabamento até razoável para a categoria, com bons encaixes e sem rebarbas.  Porém, nem todos os defeitos foram sanados: ainda existem parafusos aparentes e há apenas uma cordinha para sustentar o bagagito aberto. Os polêmicos instrumentos centralizados continuam lá, exibindo apenas uma nova cor preta de fundo. Apesar de desagradar parte dos motoristas, a posição do cluster, em si, não causa incômodo: velocímetro e conta-giros têm leitura fácil. O problema é o marcador de combustível, com barrinhas digitais muito pequenas e, consequentemente, de dificílima visualização. Outro ponto criticável é a ausência de um termômetro do fluido de arrefecimento do motor. Mas o pior é a falta de uma luz-espia para o tanquinho de partida a frio. O Autos Segredos sentiu na pele a falta desse item: na manhã seguinte à entrega do veículo para nossa avaliação, custamos a dar a partida no motor, pois o reservatório de gasolina estava vazio. Após alguma insistência, o veículo acabou funcionando, mas foi preciso abrir o capô para constatar a falta do combustível fóssil. Após esse episódio, nos sentimos no direito de cobrar da Toyota a referida luz-espia, mas não vamos fazê-lo. Em vez disso, aconselhamos a marca a instalar um sistema de partida a frio sem tanquinho, que, inclusive, já está presente em alguns dos concorrentes do Etios…

A posição de dirigir, que já era boa, melhorou com a adoção de um volante revestido em couro, de ótima pegada, para a versão Cross. A peça é multifuncional, com comandos do sistema de som, e traz base achatada: esse último detalhe, todavia, parece até exagerado em um veículo sem apelo performático como o Etios. Em vez do volante esportivo, teria sido mais útil adotar uma coluna de direção regulável tanto em altura quanto em profundidade. O banco do motorista tampouco dispõe do ajuste de altura. Quanto à visibilidade, a novidade fica por conta dos retrovisores externos mais arredondados (outro aperfeiçoamento que chegou na linha 2015), que cobrem boa área, embora os antigos também fossem eficientes. As peças trazem os úteis repetidores de seta integrados. No mais, para frente e para os lados, o campo de visão é muito bom. Para trás, os encostos de cabeça fixos atrapalham um pouco, ainda que o resultado seja razoável. Não há sensores de ré: eles são vendidos como acessórios e devem ser instalados na rede autorizada. Mas como o hatch da Toyota é bem curtinho, esses itens nem fazem muita falta. Os faróis monoparabólicos satisfazem em termos de iluminação e são auxiliados por luzes de neblina. Por fim, fica a aprovação para o inteligente limpador de parabrisa único: adotado para reduzir custos, não fica a dever aos convencionais, pois consegue varrer quase toda a superfície do vidro, graças a seu braço do tipo pantográfico.

teste_toyota_etioscross_34APROVEITAMENTO DE ESPAÇO Como quase todos os carros que se intitulam racionais, feitos para os mercados emergentes, o Etios tem o espaço interno como uma das principais qualidades. Quatro adultos, mesmo de estatura elevada, não sofrem com apertos no interior do hatch. Com cinco pessoas a bordo, não há folgas, mas ainda assim as acomodações são acima da média para um compacto, graças ao túnel central rebaixado. O porta-malas acomoda oficialmente 270 litros de bagagem, medida na média da categoria, e conta com vão de entrada amplo. Na versão Cross, a tampa pode ser aberta eletricamente, mas não por dentro do veiculo, e sim por um botão instalado na própria face externa da peça. O compartimento é integralmente forrado em carpete e o batente traz proteção plástica, que a protege contra danos ocasionados pelas operações de carga e descarga.

O Etios Cross é vendido em pacote único, sem opcionais. O modelo vem de série com ar-condicionado, direção elétrica, retrovisores, travas e vidros elétricos (nas quatro portas, mas sem função um-toque), rádio/cd player com leitor MP3 e entrada USB, faróis de neblina, rodas de liga leve aro 15”, chave com telecomando e alarme antifurto, entre outros pormenores. A lista de equipamentos é razoavelmente completa, mas deveria incluir também um computador de bordo, item que há muito se popularizou e está presente em outros automóveis de entrada. Entre os itens de segurança, há apenas os obrigatórios airbags frontais e freios ABS. É verdade que o hatch da Toyota foi bem-avaliado no crash-test do Latin NCAP e obteve quatro estrelas na proteção para adultos, mas ainda assim oferece muito pouco conteúdo destinado à preservação da integridade física dos ocupantes em caso de acidente. Deveria oferecer, no mínimo, três cintos de três pontos e três encostos de cabeça para os passageiros do banco de trás. No entanto, só a um par de cada um desses equipamentos e quem se senta no centro do banco fica desprotegido. Isso sem falar em dispositivos como controle eletrônico de estabilidade e airbags laterais…

teste_toyota_etioscross_14PROPOSTA SEM APELO Passados quase dois anos desde seu lançamento, o Etios começa a mostrar sinais de maturidade. O aspecto geral ainda é de simplicidade excessiva, mas é inegável que o acabamento do modelo melhorou, assim como a oferta de equipamentos. Dirigibilidade acima da média o modelo sempre teve. Porém, entre todas as versões da linha, a Cross parece ser a menos interessante para o bolso do consumidor. As versões de entrada X 1.3 e XS 1.5, que custam até R$ 40 mil, concorrem com compactos menos potentes, majoritariamente equipados com motores 1.0, mais antigos em termos de projeto e que também não primam pelo capricho interno. Assim, ainda conseguem ter algum apelo. Porém, a configuração aventureira é tabelada em R$ 46.790, valor que a coloca em patamar mais elevado, competindo com hatches mais sofisticados. E quem procura um veículo mais altinho, para pegar uma estradinha de terra no fim de semana, também não vê no Toyota uma opção válida, uma vez que a suspensão não é elevada e os pneus são destinados ao uso no asfalto. Sem o apelo racional das demais configurações, o Etios Cross, com seu visual carregado e controvertido, tampouco parece encontrar argumentos emocionais para justificar sua compra.

Avaliação Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas)  7 7
Consumo (cidade e estrada)  8 7
Estabilidade  8 7
Freios  8 8
Posição de dirigir / Ergonomia  7 8
Espaço interno  8 7
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade)  6 7
Acabamento  6 6
Itens de segurança (de série e opcionais)  6 7
Itens de conveniência (de série e opcionais)  7 7
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção)  9 9
Relação custo/benefício  6 7

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Ficha técnica
Motor:
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.496 cm³ de cilindrada, 92 cv (g)/96,5 cv (e) de potência máxima a 5.600  rpm, 13,9 kgfm (com ambos os combustíveis) de torque máximo a 3.100  rpm.

Transmissão:
Câmbio manual de cinco marchas,tração dianteira.

Aceleração de 0 a 100 km/h:
11,1 segundos.

Velocidade máxima:
Não informada.

Direção:
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica.

Freios:
Discos ventilados na frente e tambores  atrás, com ABS.

Suspensão:
Dianteira independente do tipo McPherson, com barra estabilizadora. Traseira com eixo de torção e barra estabilizadora. Não oferece controle eletrônico de estabilidade.

Rodas e pneus:
Rodas em liga leve 15×5,5, pneus 185/60 R15.

Dimensões:
Comprimento, 3,90 m; largura, 1,73 m; altura, 1,55 m; distância  entre-eixos, 2,46 m.

Capacidades:
Tanque de combustível: 45 litros; porta malas: 270 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 422 quilos; peso: 985 quilos.

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos