Com o novo propulsor 1.6 16V, hatch aventureiro ficou mais rápido e econômico; evolução mecânica, apesar de muito consistente, ainda não justifica preço do modelo  

teste_vw_gol_rallye_27Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

Não é novidade que havia passado da hora de o motor 1.6 da Volkswagen passar por um up-grade tecnológico. Nós, aqui do Autos Segredos, inclusive, sempre citávamos a defasagem do propulsor em questão, até então com oito válvulas, frente à concorrência, sempre que avaliávamos algum carro equipado com ele. Demorou, mas a marca alemã finalmente se mexeu, adotando um novo trem de força, dotado de 16 válvulas e outras melhorias (vamos enumerá-las logo à frente). Porém, talvez com receio da rejeição de parte dos consumidores, que ainda mantêm grande preconceito com cabeçotes multiválvulas, a atualização é oferecida, por enquanto, apenas na Saveiro Cross e no Gol Rallye, mas em breve chegará também à linha Fox, junto com a reestilização aguardada para os próximos meses. Experimentamos o hatch aventureiro equipado com o novo conjunto. Entretanto, como o Gol Rallye não passou por outras mudanças, e nós já havíamos avaliado o modelo há menos de um ano, ainda com o antigo propulsor,  trazemos agora um texto mais sucinto, focado no conjunto mecânico.  Mais detalhes sobre a versão podem ser vistos em nosso primeiro teste (veja aqui).

teste_vw_gol_rallye_29Engana-se quem pensa que a Volkswagen trocou apenas o cabeçote e manteve o bloco sem alterações. Na verdade, estamos tratando de um motor bastante diferente do antigo 1.6 de oito válvulas, conhecido pelo código de EA-111. O novo, que adota o codinome de EA-211, manteve o diâmetro e o curso dos pistões, e consequentemente, a cilindrada, de 1.598 cm³, mas é integralmente feito de alumínio; no anterior, o bloco era de ferro fundido. Bielas e virabrequins ficaram mais leves e passaram a trabalhar com menos atrito, o que colabora tanto para a redução de consumo quanto para a suavidade de funcionamento. O coletor de admissão é confeccionado em material plástico, enquanto o de escape foi integrado ao cabeçote. A ignição passou a ser feita com uma bobina para cada cilindro. As 16 válvulas são acionadas por duplo comando, sendo o de admissão variável (o de escape é fixo), movimentados por correia dentada, com troca prevista a cada 120 mil km, valor que já não impressiona nos dias de hoje, dada a existência de correntes e de correias imersas em óleo, que duram o dobro dessa quilometragem. Por fim, o sistema flex dispensa o tanquinho de partida a frio, o que não chega a ser exatamente uma novidade (lembra-se do Polo E-Flex?), mas que é bem vindo. Trata-se de um motor que, se não chega a ser exatamente de última geração (faltam-lhe, por exemplo, injeção direta e sobrealimentação), consegue se destacar positivamente no segmento, ficando à frente, em termos tecnológicos, de vários concorrentes.

teste_vw_gol_rallye_2ANDOU MAIS E BEBEU MENOS O 1.6 16V da Volkswagen entrega 110 cv de potência com gasolina e 120 cv com etanol, a 5.750 rpm, enquanto o torque é de 15,8 kgfm com o derivado do petróleo e de 16,8 kgfm com o combustível vegetal, a 4.000 rpm. Os números não chegam a impressionar, mas o fato é que o novo motor deu uma injeção de ânimo ao Gol Rallye. Em altas rotações, nas quais o modelo anterior apresentava nítida queda de rendimento, o atual mostra-se muito animado, fazendo com que as acelerações sejam bastante lineares. Esse ganho, contudo, era mais do que esperado; o que impressiona mesmo é a disposição do hatch em baixas rotações. Alguns propulsores multiválvulas mostram certa anemia nesses regimes, mas não é o caso do EA-211. Segundo a Volkswagen, 85% do valor máxio está disponível já a 2.000 rpm. Nós, do Autos Segredos, que já dirigimos vários modelos equipados com o EA-111 (entre os quais Gol, Voyage, Fox e SpaceCross), não notamos qualquer perda com a adoção da nova mecânica. Os outros componentes, que foram mantidos, continuam agradando: o câmbio manual de cinco velocidades (MQ200) continua se destacando por oferecer engates curtos, macios e precisos. O escalonamento é correto, sem buracos entre as marchas, e a 120 km/h, o tacômetro marca 3.300 rpm. A direção, hidráulica, tem progressividade adequada, m as não consegue ser leve como os sistemas elétricos em manobras. Os freios também mostraram-se bem-dimensionados, imobilizando o veículo com segurança.

Além da melhora em desempenho, o 1.6 16V também mostrou bons resultados em consumo. Com gasolina, ele fez com que o Gol Rallye obtivesse médias de 11,1 km/l na cidade. Na estrada, os números não impressionaram tanto, mas ainda assim foram satisfatórios, em torno de 14,2 km/l. Sempre lembramos que o gasto de combustível é diretamente influenciado por uma série de fatores, como as características das vias, o relevo, as condições do trânsito e o estilo de direção do motorista.

teste_vw_gol_rallye_8A suspensão, elevada em 28 mm, tem acerto mais juntinho, como é comum nos modelos da marca alemã, provilegiando a estabilidade às custas da transmissão de parte das irregularidades do piso para o habitáculo. Essa solução faz com que o Rallye tenha boa estabilidade, mas o comportamento das demais versões do Gol, com menor altura em relação ao solo, é ainda melhor nesse sentido. Por outro lado, graças à altura extra, o hatch vai bem em estradas de terra. Rodamos por algumas dezenas de quilômetros em estradas rurais e não notamos esbarrões contra o solo. Se a ideia, contudo, for encarar vias sem pavimentação com frequência a bordo do modelo, é melhor adotar outro conjunto de pneus. Os que vêm de série são voltados para asfalto e derraparam bastante em uma subida de terra, vencida só na terceira tentativa. O conjunto original, por outro lado, é o mais indicado para quem pretende enfrentar apenas valetas, desníveis e outros obstáculos urbanos com o hatch aventureiro.

NO MAIS, NADA MAIS Por dentro (assim como por fora), o Gol Rallye é o mesmo de sempre. O acabamento apresenta boa montagem, mas utiliza quase que exclusivamente materiais rígidos. Até que não faz feio nas versões básicas, mas no top de linha, mostra-se simplório demais. A diferenciação em relação às demais configurações fica por conta apenas do teto com revestimento na cor preta, do painel bicolor e dos bancos bordados com o nome da versão. Em termos ergonômicos, aliás, esses últimos são os mesmos do restante da linha, com apoios deficientes para as pernas e a região lombar da coluna. No mais, porém, a posição de dirigir é correta, com bom alinhamento em relação a pedais, câmbio e volante. O banco do motorista é ajustável em altura, assim como a coluna de direção, que ainda acrescenta a regulagem em profundidade. O espaço interno é razoável: o hatch não é folgado, mas com quatro adultos de estatura média a bordo, tampouco haverá aperto. O porta-malas tem 285 litros de capacidade, valor razoável para o segmento.

teste_vw_gol_rallye_3O Gol Rallye vem de série com vidros, travas e espelhos retrovisores elétricos, direção hidráulica, ar-condicionado, alarme, retrovisor externo direito com efeito tilt-down e abertura elétrica do porta-malas, aparelho de som com bluetooth, CD player, MP3 player e entrada USB, associado ao volante multifuncional, e rodas de liga leve aro 16”. Opcionalmente, é possível adquirir o revestimento em couro sintético dos bancos e um pacote que inclui faróis com timer para desligamento, sensores de chuva, retrovisor interno eletrocrômico e controlador de velocidade.

Os equipamentos destinados à segurança vão pouco além dos obrigatórios freios ABS e airbags frontais. Além deles, há apenas o quinto encosto de cabeça, porém acompanhado de um arcaico cinto subabdominal. É pouco, mas vale destacar que alguns concorrentes oferecem ainda menos, disponibilizando apenas dois apoios de cabeça atrás.
NOVIDADE RESTRITA AO TOP No fim das contas, repetimos a mesma conclusão à qual chegamos da primeira vez que avaliamos o Gol Rallye, ainda com o motor antigo: o maior problema não está no produto em si, mas no preço que a Volkswagen cobra por ele. Sem opcionais, o compacto custa R$ 51.370. Completo, o valor sobe para R$ 54.524. É verdade que o novo motor, um diferencial importantíssimo da versão aventureira, é bem melhor que o anterior, em todos os sentidos. Porém, parece-nos mais vantajoso que a marca alemã o ofereça logo para a toda a linha Gol, em vez de limitá-lo à cara configuração top. Esse propulsor, inclusive, deve ficar ainda melhor com a suspensão mais baixa (e a consequente maior aptidão para curvas) do restante da linha.
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A CONFUSÃO DA SIGLA MSI A sigla MSI passou a ser usada não apenas para o novo motor EA-211, mas também para o velho EA-111, que equipa outras versões do Gol e da Saveiro, além do Voyage e da linha Fox. Segundo a Volkswagen, essa denominação passou a identificar todos os propulsores aspirados da marca com potência igual ou superior a 101 cv. Na opinião do Autos Segredos, essa decisão gera confusão. Afinal como foi citado nesta matéria, as diferenças dos dois motores em questão vão muito além do número de válvulas. Acreditamos que, para proporcionar maior transparência e evitar mal-entendidos, a empresa deveria adotar nomes comerciais diferentes para seus propulsores 1.6.

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.598cm³ cm³ de cilindrada, 110cv (g)/120cv (e) de potência máxima a 5.750, 15,84 kgfm (g)/ 16,8 mkgf (e) de torque máximo a 4.000 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
9,9 segundos com gasolina e 9,5 segundos com etanol

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
184 km/h com gasolina e 190 km/h com etanol

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 6 x 16 polegadas, pneus 195/50 R16 (opcionais)

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,924; largura, 1,898; altura, 1,491; distância entre-eixos, 2,467

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 55 litros; porta malas: 285 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 432 quilos; peso: 1.043 quilos

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos