Equipado com vários componentes externos da versão RS, modelo faz bonito na aparência, mas comportamento sequer esboça esportividade

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Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

Quem já dirigiu o Sandero RS, como a equipe do Autos Segredos, certamente se frustra ao experimentar o GT Line. Enquanto o primeiro é realmente um hot hatch, o segundo é mais um “esportivado”, com visual nervoso, mas mecânica mansa. Essa combinação pode não ser atraente para quem sente real prazer ao dirigir, como nós, e talvez você também, leitor, mas tem poder de atração sobre uma parcela significativa de consumidores. Durante uma conversa informal, há alguns dias, uma fonte que trabalha em uma concessionária Renault em Belo Horizonte explicou: “desde o lançamento, sempre tem alguém no showroom olhando o RS. Os clientes que podem gastar mais ficam com ele. Para aqueles que estão com o orçamento mais apertado, a gente acaba vendendo o GT Line, que é esteticamente parecido, porém mais barato”, disse. Junte esse relato à grande quantidade de esportivos e de aventureiros de mentirinha nas ruas e nos portfólios da indústria automotiva e ateste que, para muitos motoristas, parecer é mais importante que de fato ser.

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Em termos visuais, as duas versões são realmente bem parecidas: elas compartilham o body kit composto por para-choques e spoilers laterais e traseiro. Os mais atentos, todavia, irão notar que o GT Line trocou as grades com trama losangular por outras, filetadas, a cor dos retrovisores externos, de preto brilhante para cinza, e as luzes diurnas de LEDs por faróis de neblina, rodeados por duas molduras pintadas de cinza. O elemento horizontal na tomada de ar inferior que remetia a uma asa da Fórmula 1 foi suprimido, assim com a saída dupla de escape.  As rodas aro 16” também são as mesmas em ambas as configurações, mas o jogo de 17 polegadas está disponível como opcional unicamente para o RS. Em termos estéticos, o resultado parece ter agradado: durante a avaliação, o membro “esportivado” da linha Sandero conseguiu atrair tantos olhares pelas ruas quanto o seu irmão esportivo.

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Corpo de RS, alma de Dynamique

Ao contrário de outros hot hatches de mentirinha, que trazem ao menos um retrabalho na suspensão, o Sandero GT Line tem mecânica rigorosamente idêntica à das versões Expression e Dynamique. Isso significa que as molas e os amortecedores privilegiam um rodar suave e absorvem bem as imperfeições do piso: o conjunto até consegue proporcionar boa estabilidade, fruto do acerto bem-equalizado do conjunto em associação aos pneus 195/55 da versão, mas o resultado está longe de poder ser classificado como esportivo. Significa também que o câmbio de cinco marchas tem engates longos e imprecisos, embora macios e com relações corretas (a 120 km/h, em quinta marcha, o tacômetro registra 3.200 rpm, valor coerente para a cilindrada), e que o motor 1.6 com potência de 106/98 cv e torque de 14,5/15,5 kgfm proporciona desempenho apenas razoável, com alguma disposição em baixa rotação, mas pouco ânimo em alta. Esse propulsor, vale lembrar, tem oito válvulas com comando único, movimentado por correia, bloco confeccionado em ferro fundido, cabeçote em alumínio e sistema de partida a frio com tanquinho auxiliar. A arquitetura, portanto, está datada. No mais, há direção com assistência hidráulica, um pouco pesada em manobras, porém com peso correto em velocidades elevadas, e freios com discos no eixo dianteiro e tambores no traseiro, que mostraram resultados corretos em termos de espaço de frenagem.

Há, entretanto, um quesito em que a mecânica do GT Line se sai melhor que a do RS: o consumo. Abastecido com gasolina, o veículo avaliado teve rendimento médio de 10 km/l na cidade e de 12,3 km/l na estrada. Como de praxe, fica o lembrete de que o gasto com combustível é influenciado por diversas variáveis, como as características das vias, as condições do tráfego e o estilo de condução do motorista.

teste_renault_sandero_gtline_2O uso de elementos de estilo do Sandero RS também é notado no interior do GT Line, mas em menor grau. O quadro de instrumentos, com grafia característica e sem termômetro do fluido de arrefecimento do motor, é o mesmo nas duas configurações. Já a combinação de cores é parecida, mas não exatamente igual: no “esportivado” há abundância de preto brilhante, enquanto o esportivo o conjuga com cinza metálico. Nas saídas de ar, o  vermelho dá lugar ao azul. Mas as semelhanças param por aí: volante, pedais e bancos são os mesmos das versões comuns, e não da top de linha, que usa peças exclusivas. O estofamento é praticamente o único item da cabine sem intercâmbio com o restante da linha, mas nem por isso agradou, pois, além de ser composto por um tecido sintético muito áspero ao toque, ainda traz apliques nas abas laterais em courvin que imita fibra de carbono. Além do efeito visual de gosto duvidoso, um desses retalhos, no banco traseiro, grudou em um booster infantil que estava fixado ali, após o veículo avaliado ficar estacionado algumas horas sob o sol.

Mais capricho por fora que por dentro

O fato é que, em termos ergonômicos, o Sandero GT Line não traz esportividade alguma. Os bancos têm assentos capazes de apoiar bem as coxas, o que é bom, mas as estreitas abas laterais do encosto são incapazes de segurar o corpo em curvas. O do motorista, vale destacar, é ajustável em altura. Já o volante, de aro maior, tem pegada mais relaxada, e, como no restante da linha, dispõe apenas de regulagem de altura, deixando de fora a de profundidade. A visibilidade é boa para a frente e para os lados, e razoável para trás, um pouco prejudicada pelas colunas C mais largas, mas otimizada pelos retrovisores bem-dimensionados.  O acabamento é simples, com parafusos aparentes, plásticos sem emborrachamento e alguns encaixes imperfeitos.

No mais, o interior é espaçoso como em qualquer Sandero, suficiente para que quatro adultos de estatura mais elevada se acomodem sem apertar pernas, pés e cabeça. Mesmo com cinco a bordo, o resultado não chega a ser sacrificante, como costuma ocorrer em outros hatches compactos. O problema, nesse caso, não diz respeito às dimensões internas, e sim à ausência de cinto de três pontos e de encosto de cabeça para o quinto ocupante, que fica mais vulnerável em caso de acidente. O porta-malas também está acima da média da categoria, com 320 litros de capacidade, mas o encosto do banco traseiro, embora rebatível, não é bipartido, e falta uma proteção ao batente da tampa.

teste_renault_sandero_gtline_1O Sandero GT Line tem preço sugerido em R$ 48.900. Esse valor inclui todos os equipamentos de comodidade essenciais, entre os quais ar-condicionado automático, sistema multimídia com tela touch de 7”, navegador GPS, rádio, conexão Bluetooth e porta USB, retrovisores, travas e vidros elétricos (esses últimos nas quatro portas), alarme, computador de bordo, sensores de estacionamento traseiros e as já citadas rodas de liga leve de 16 polegadas. O pacote voltado para a segurança, entretanto, é pobre: traz apenas o exigido por lei, ou seja, resume-se a airbags frontais e freios ABS. Nenhum item é oferecido como opcional: o pacote do modelo é fechado.

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Foco na aparência 

A julgar pelo sucesso que os pseudo-esportivos fazem no Brasil, o Sandero GT Line pode ser uma opção interessante em termos de custo-benefício. Afinal, diante da atual conjuntura do mercado, o preço de compra (de R$ 48.900, como já citado), considerando o conteúdo oferecido, é competitivo para um hatch 1.6 (vale lembrar que alguns 1.0 já estão beirando os R$ 50 mil). Ademais, a diferença para a configuração realmente nervosa, a RS, é de consideráveis R$ 9.890: o valor mais alto se justifica plenamente pelo melhor desempenho, pelo maior prazer ao dirigir e pela lista de equipamentos mais generosa, mas a verdade é que, nesse segmento, há compradores que realmente não podem arcar com tal investimento. Porém, há de ficar claro que, no GT Line, a esportividade é puramente visual mesmo. A dirigibilidade é pacata, graças ao motor que não se destaca pelo desempenho (mesmo dentro de sua faixa de cilindrada), e a suspensão mais voltada para a suavidade que para a estabilidade. Ele poderia ter, ao menos, o propulsor 1.6 16V do Duster, para melhorar um pouco a performance, e molas e amortecedores um pouco mais firmes, para otimizar o comportamento em curvas (nem precisava ser o mesmo sistema do RS; bastaria algo entre ele e as versões Expression e Dynamique). Do jeito que está, este Renault leva às últimas consequências a ideia de que parecer é mais importante que de fato ser.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 7 7
Consumo (cidade e estrada) 8 7
Estabilidade 7 7
Freios 7 8
Posição de dirigir/ergonomia 7 8
Espaço interno 8 9
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 7 8
Acabamento 7 7
Itens de segurança (de série e opcionais) 6 6
Itens de conveniência (de série e opcionais) 8 7
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7 8
Relação custo/benefício 8 7

FICHA TÉCNICA

»MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, gasolina/etanol, 1.598 cm³ de cilindrada, com diâmetro de 79,5 mm e curso de 80,5 mm, 98 cv (g)/106 cv (e) de potência máxima a 5.250, 14,5 kgfm (g)/ 15,5 mkgf (e) de torque máximo a 2.850 rpm

»TRANSMISSÃO
Tração dianteira e câmbio manual de cinco marchas

»ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
11,2 segundos com gasolina e 11 segundos com etanol

»VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
177 km/h com gasolina e 179 km/h com etanol

»DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica variável

»FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS

»SUSPENSÃO
Dianteira, independente,  McPherson; traseira semi-independente, por eixo de torção

»RODAS E PNEUS
Rodas em liga leve aro 16, pneus 195/55 R16

»DIMENSÕES
Comprimento, 4,068 m; largura, 1,733 m; altura, 1,536 m; distância entre-eixos, 2,590 m; peso, 1.075 quilos

»CAPACIDADES
Tanque de combustível: 50 litros; porta-malas: 320 litros; carga útil (passageiros e bagagem), 450 quilos

teste_renault_sandero_gtline_6 Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos