Renault Duster Oroch passa a contar com câmbio automático de quatro velocidades e direção elétro-hidráulica. Modelo também ganhou mudanças no acabamento interno
teste_renault_duster_oroch_AT_32Alexandre Soares

A Duster Oroch é um bom exemplo da evolução natural: ela ganhou vida há exatamente um ano, em setembro do ano passado, com a proposta de povoar um nicho então inexplorado, entre as picapes compactas e as médias. Durante tal período, a criatura da Renault vem mostrando estabilidade: em 2016, o número médio de emplacamentos vem sendo de pouco mais de 1.100 unidades por mês. Ironicamente, esses índices a colocam no meio da tabela de vendas de caminhonetes, à frente da compacta Chevrolet Montana e à Frente de Mitsubishi L200, Volkswagen Amarok e Nissan Frontier, porém atrás de Fiat Strada, Volkswagen Saveiro, Toyota Hilux, Chevrolet S10 e Ford Ranger. Mas o que mais chama a atenção é a diferença em relação à Fiat Toro, um ser que chegou logo depois, com características mais parecidas, e que tornou a existência da utilitária da Renault bem mais difícil: a comercialização mensal da rival tem sido nada menos que quatro vezes maior. As dificuldades enfrentadas em seu habitat natural, todavia, fizeram a Oroch evoluir rapidamente, bem de acordo com as premissas de Charles Darwin: os carros ainda nem existiam quando o naturalista iniciou seus estudos biológicos, mas suas conclusões se encaixam como uma luva para alguns modelos. A linha 2017 da Oroch, por exemplo, já trouxe direção eletro-hidráulica e, o mais importante, opção de câmbio automático, recurso fundamental para se auto-defender no feroz mercado atual.

teste_renault_duster_oroch_AT_27A inédita transmissão da Oroch não é exatamente nova: trata-se do mesmo conjunto que já equipava o irmão Duster, que, por sua vez, o herdou da finada linha Mégane nacional. Ela é autenticamente automática, com conversor de torque (e não com embreagem acionada automaticamente, como no Sandero e no Logan Easy’R), com opção de trocas sequenciais por meio de toques na alavanca, mas de apenas quatro velocidades. Por sua vez, a direção eletro-hidráulica é semelhante ao sistema de assistência do Sandero RS, porém com uma caixa dotada de relações menos diretas. Ela contribuiu para deixar a condução da picape bem mais agradável, pois agora o volante não mais é pesado em manobras, inconveniente que atingia a linha Duster equipada com direção hidráulica e que já havia sido observado pelo Autos Segredos em outras avaliações (veja aqui e aqui). E, o melhor, a nova solução não prejudicou o controle em alta velocidade, pelo contrário, pois o dispositivo é progressivo, entregando peso correto em todas as situações.

Já o câmbio… Bem, ele tem a vantagem de dar ao consumidor uma opção a mais, mas, tecnicamente, não configura evolução. Em movimento, a picape demonstra comportamento típico dos veículos automáticos da década passada, que tinham menos marchas e, consequentemente, relações mais longas, que fazem as rotações caírem demais durante as trocas. Isso prejudica as retomadas e causa a incômoda alternância sucessiva entre duas marchas (quarta e terceira ou terceira e segunda) em algumas situações, como em subidas de serra. Além do mais, a central eletrônica não é das mais espertas, e, às vezes, retém as marchas desnecessariamente ou demora a reduzí-las. Ao menos a caixa, apesar de limitada, opera com suavidade; além de não fazer o motor funcionar em rotações muito altas na estrada: a 120 km/h, o tacômetro registra cerca de 3.000 rpm.

teste_renault_duster_oroch_AT_28Trabalho da suspensão é ponto alto

Felizmente, no mais, o conjunto mecânico agradou. A suspensão independente nos dois eixos, dos tipos McPherson no da frente e multilink no de trás, é certamente o sistema com melhor acerto no modelo. Graças a ele, a absorção das imperfeições do solo é muito boa, principalmente para uma picape, e a estabilidade em curvas  também merece elogios: para um veículo com altura elevada, a Oroch é bastante previsível em segura em curvas. Durante a avaliação, a caminhonete da Renault foi carregada com cerca de 450 kg de materiais de construção (a capacidade total é de 650 kg) e não decepcionou: a traseira arriou pouco, e a dirigibilidade quase não se alterou. Também fizeram parte da saga cerca de 20 km de estradas de terra, superadas com facilidade, graças à altura livre em relação ao solo de 20,6 cm e aos bons ângulos de ataque e de saída, de 26° e de 19,9°, respectivamente. Vale lembrar que, como a tração 4×4 segue indisponível para o modelo, incursões off-road mais severas estão fora de cogitação.

teste_renault_duster_oroch_AT_24Já o motor 2.0 F4R, mesmo sem tecnologias como variação na abertura das válvulas – são 16, acionadas por comando duplo, movimentado por correia dentada simples; bloco e cabeçote são confeccionados em ferro fundido, e o sistema de partida a frio ainda traz o arcaico tanquinho auxiliar – está longe de ser fraco. Ele também passou por mudanças no sistema de injeção, que permanece do tipo indireto, e ganhou anéis menos resistentes ao atrito nos pistões, com o objetivo de reduzir o consumo de combustível. Os números, porém, não foram alterados: ele rende 148 cv de potência com etanol e 143 cv com gasolina, a 5.750 rpm, além de 20,9 kgfm de torque com o primeiro combustível e de 20,2 com o segundo, a 4.000 rpm, mais que suficientes para o peso de 1.375 da versão automática. Porém, vale destacar que a configuração equipada com o mesmo propulsor e câmbio manual de seis marchas, testada pelo Autos Segredos anteriormente, era sensivelmente mais ágil. Já os freios mantêm o esquema com discos na dianteira e tambores na traseira. Embora essa arquitetura tenha limitações, as frenagens não tomam espaços exagerados.

Mesmo as mudanças feitas pela Renault, em termos de consumo a Oroch obteve números não mais que razoáveis durante a avaliação. Com gasolina, a picape cravou 8,3 km/l na cidade e 10,4 km/l na estrada. Os resultados foram parecidos com os divulgados pelo Programa de Etiquetagem Veicular do Inmetro, que aferiu 8,6 km/l e 10,8 km/l, respectivamente, com o mesmo combustível, além de 5,9 km/l em ciclo urbano e 7,6 km/l em trajetos rodoviários, com etanol.  Como o tanque de 50 litros não é dos maiores, a autonomia máxima é de cerca de 540 km.

teste_renault_duster_oroch_AT_19Melhoria nos detalhes

A evolução da Oroch não é notada apenas na parte mecânica. Por dentro, alguns inconvenientes foram sanados, mostrando a capacidade de adaptação da picape ao gosto dos consumidores. É o caso, por exemplo, do comando elétrico dos retrovisores, que antes era inexplicavelmente situado abaixo da alavanca do freio de mão, e, agora, está junto aos comandos dos vidros elétricos, na porta do motorista. É verdade que, para fazer essa realocação, a Renault transferiu a tecla para travas as janelas traseiras, que antes ocupava exatamente a posição do botão dos retrovisores, para o console central, em posição menos bem acessível. Ainda assim, em termos de ergonomia, houve mais ganhos que perdas. Outro ponto corrigido foi a manopla do câmbio automático: no Duster com esse tipo de transmissão, ela tinha aspecto antigo, com o botão-trava em posição lateral. Agora ficou mais atual, com gatilho e faixa metalizada. Mas ainda há pontos que merecem correção, como o painel com dígitos pequenos e sem termômetro de água, os bancos com pouco apoio lombar e a coluna de direção regulável apenas em distância, e não em profundidade. Por outro lado, outros pontos positivos foram mantidos, entre os quais o volante com empunhadura correta, o assento do motorista com ajuste de altura e a boa visibilidade geral.

Outro ponto em que a picape da Renault precisa evoluir para não ser engolida por outros modelos é no acabamento. O problema nem é o plástico rígido que predomina no habitáculo, afinal, esse material ainda é padrão em caminhonetes, inclusive nas mais caras. Mas o excesso de parafusos à mostra (nas maçanetas e nos porta-copos do console, por exemplo) e a presença de rebarbas em algumas peças destoa negativamente diante da concorrência. Por outro lado, o espaço interno é muito bom: quatro adultos se acomodam com folga, e mesmo com cinco a bordo ainda há nível razoável de conforto. Outro ponto positivo é que todos contam com a proteção de encostos de cabeça e cintos de três pontos. Por sua vez, a caçamba tem 683 litros, valor coerente para o porte do veículo.

teste_renault_duster_oroch_AT_25O câmbio automático é disponibilizado unicamente na versão Dynamique. De série, ela traz ar-condicionado manual, vidros elétricos nas quatro portas (com sistemas one-touch e antiesmagamento), travas elétricas com acionamento à distância e ativação automática, retrovisores elétricos, faróis de neblina, rodas de liga leve de 16 polegadas, computador de bordo, cruise-control, volante multifuncional revestido em couro, comando satélite para as funções do rádio e sistema multimídia com tela de 7” sensível ao toque, navegador GPS, entrada USB e conexão bluetooth. O conteúdo voltado à segurança se restringe a airbags frontais e freios ABS. Nessa configuração, o preço sugerido é de R$ 77.900. Os bancos em couro, que equipavam a unidade avaliada, são opcionais. Há ainda um kit com itens estéticos, como protetor do para-choque dianteiro com faróis auxiliares, molduras alargadoras dos para-lamas, grade do vidro traseiro e capota marítima, que a Renault chama da Pack Outsider.

Ela ainda pode evoluir mais

Como ocorre com todos os modelos Renault de origem Dacia, a Oroch oferece espaço interno campeão e o conteúdo essencial por um preço abaixo da média: o valor de R$ 77.900 cobrado pela versão Dynamique automática chega a ser inferior até ao de algumas picapes compactas e menos potentes. A Fiat Strada Adventure 1.8 16V Cabine Dupla Dualogic, por exemplo, tem o preço sugerido de R$ 78.117! Em comparação a uma Fiat Toro Freedom, que parte de R$ 81.700, a diferença é ainda maior. Porém, vale ressaltar, a utilitária da Renault tem transmissão limitada e acabamento interno simplório, o que acaba ofuscando consideravelmente suas vantagens frente à concorrência. O que parece ser melhor negócio é optar pela versão Dynamique 2.0 manual, que é ligeiramente mais barata: sai por R$ 75.900, e, de quebra, ainda traz um casamento de motor e câmbio bem melhor, desde que, é claro, você não seja da turma que considera pisar na embreagem um sacrifício. A verdade é que a caminhonete franco-romena evoluiu rapidamente, mas merece mais aperfeiçoamentos, entre os quais uma transmissão automática mais eficiente, se quiser dominar, e não apenas sobreviver, na selva do mercado automotivo.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 8 9
Consumo (cidade e estrada) 6 7
Estabilidade 7 7
Freios 7 7
Posição de dirigir/ergonomia 7 8
Espaço interno 9 9
Caçamba (espaço) 6 7
Acabamento 7 8
Itens de segurança (de série e opcionais) 7 7
Itens de conveniência (de série e opcionais) 8 8
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7 7
Relação custo/benefício 7 8

FICHA TÉCNICA

»MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, com diâmetro de 82,7 mm e curso de 93 mm, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.998 cm³ de cilindrada, 143 cv (g)/148 cv (e) de potência máxima a 5.750, 20,2 kgfm (g)/ 20,9 mkgf (e)quatro seis marchas

»ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
11,5 segundos com gasolina e 10,4 segundos com etanol

»VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
173 km/h com gasolina e 176 km/h com etanol

»DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência eletro-hidráulica variável

»FREIOS
Discos na dianteira e tambores na traseira, com ABS

»SUSPENSÃO
Dianteira: independente do tipo McPherson; traseira: independente do tipo multilink

»RODAS E PNEUS
Rodas em liga leve aro 16, pneus 215/65 R16

»DIMENSÕES 
Comprimento, 4,693 m; largura, 1,821 m; altura, 1,695 m; distância entre-eixos, 2,829 m; altura em relação ao solo, 206 mm, peso, 1.375 quilos

»CAPACIDADES
Tanque de combustível: 50 litros; caçamba: 683 litros; carga útil (passageiros e bagagem), 650 quilos

teste_renault_duster_oroch_AT_8Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos