O Corcel II manteve qualidades do antecessor, como economia de combustível e confiabilidade mecânica, e deu origem a novos modelos na linha nacional da Ford

Ford Corcel II

Alexandre Carneiro Soares

Nos anos de 1970, o Corcel consolidou-se como um dos automóveis mais bem aceitos no mercado brasileiro (veja a história da primeira geração aqui). Robusto, confortável, econômico e acessível, ele era o responsável pela maior parte das vendas da Ford no país. Mas a trilha de sucesso não demorou a ser seguida pela concorrência. Dodge 1.800/Polara e VW Passat foram lançados ao longo daquela década e acirraram a disputa pelo consumidor. O Corcel, que esbanjava modernidade na época do lançamento, enfrentava rivais mais jovens e avançados. A Ford, contudo, logo daria uma resposta à altura, com o lançamento do Corcel II, em 1977.

O novo Corcel era uma evolução e tanto quando comparado ao antecessor. A carroceria era completamente nova e em nada lembrava o modelo anterior. A silhueta não tinha mais três volumes bem definidos. Agora, a traseira terminava em um caimento suave, e faróis e lanternas assumiam formato retangular, tudo de acordo com as tendências de estilo então em vigor. O Corcel II não teve versão quatro portas. Só existiu na configuração cupê, preferida pelo público da época, ao contrário do que acontece hoje em dia.

Ford Corcel II

O projeto foi desenvolvido em túnel de vento, resultando em melhor aerodinâmica. A grade dianteira, de filetes horizontais, criava um efeito que otimizava a entrada de ar em velocidades mais baixas, situação em que a ventilação do motor é mais deficiente, e restringia-a em velocidades mais altas, as condições de refrigeração são mais favoráveis. A versão esportiva GT permanecia em linha, com a tradicional pintura preta em alguns componentes da carroceria , faróis de neblina sob o pára-choque dianteiro e quatro cavalos a mais debaixo do capô, que não eram suficientes para proporcionar ganho significativo em desempenho.

Ford Corcel II

Ford Corcel II

A Belina II também surgia em 1977, e assim como acontecia com o Corcel II, as linhas retas predominavam em todas as partes. As dimensões de ambos estavam apenas ligeiramente maiores, mas havia mais espaço tanto no habitáculo quanto no porta-malas. Um dos grandes destaques da linha Corcel, o acabamento, estava ainda melhor. O painel e os bancos foram totalmente redesenhados e faziam com que o interior tivesse um aspecto tão moderno quanto o exterior. Um dos detalhes modificados foi a posição do freio de mão, que migrou da parte inferior do painel para o espaço entre os bancos dianteiros.

Ford Corcel II

Vários componentes mecânicos, como suspensão e motor, foram mantidos, passando apenas por pequenas alterações. O propulsor de quatro cilindros e 1.372 cm³ gerava 72 cavalos de potência bruta e 11,5 kgfm de torque bruto. Na segurança, destaque para o pára-brisa em vidro laminado, que impede que os estilhaços se soltem e atinjam os ocupantes, uma primazia entre os carros nacionais produzidos em série. O novo modelo era mais estável, silencioso e confortável que o antigo, e mantinha os bons índices de economia, mas não se destacava em desempenho.

CILINDRADA Para reverter a situação, a Ford provou já em 1979 um novo motor, com 1.555 cm3, 90 cavalos de potência bruta e 13 kgfm de torque bruto. O conjunto era o mesmo, apenas a cilindrada havia sido aumentada. O antigo propulsor não saiu de linha, e o comprador podia escolher entre os dois. Entretanto, a Belina passava a ser equipada apenas com a opção mais potente, pois era mais pesada e ressentia-se da falta de força. Graças a essa alteração, o desempenho passava por uma nítida melhora, enquanto o consumo registrava marcas apenas um pouco piores.

Ford Corcel II

Ford Corcel II

Em 1980, surgiam dois aprimoramento técnicos importantes, ambos opcionais: o câmbio de cinco velocidades e o motor a álcool. O primeiro deixava o carro ainda mais econômico, e representava o começo da popularização desse tipo de transmissão, já que apenas o caro e luxuoso Alfa Romeo 2.300 dispunha de quinta marcha entre os nacionais. O segundo chegava com atraso à linha Ford, pois as marcas concorrentes já ofereciam veículos movidos com o combustível vegetal há algum tempo. Contudo, havia uma inovação: o sistema de partida a frio era acionado automaticamente, enquanto nos outros modelos o processo era manual. Além do mais, o Corcel ganhou a fama de ser o mais confiável quando abastecido com álcool, já que os rivais apresentavam problemas de corrosão pelo combustível.

LUXO O Del Rey, um sedã que viria a ser o topo de linha da Ford, era lançado em 1981, em versões de quatro e duas portas. A estratégia do fabricante era oferecer um automóvel requintado e ao mesmo tempo econômico, por um preço que não fosse exorbitante, uma vez que, naquela época, a economia estava em crise, o que aumentou valor do combustível e diminuiu o poder aquisitivo do consumidor. Para cumprir com esse objetivo, havia grande compartilhamento de peças com o Corcel II, o que incluía o conjunto mecânico e itens de estamparia. O motor era o mesmo: 1.555 cm3 e 90 cavalos de potência bruta. Até o entre-eixos de 2,44 metros era comum aos dois modelos. Tal medida é modesta para um veículo voltado para o conforto, e o resultado era um espaço interno limitado para a categoria. No comprimento, havia três centímetros a mais. Mas o carro tinha trunfos: o interior vinha recheado de equipamentos e possuía acabamento caprichadíssimo, que seria referência na indústria nacional por muitos anos.

Ford Corcel II

O estilo era tradicional, e incluía faróis e lanternas retangulares e três volumes bem definidos. A traseira longa e o vidro posterior bastante verticalizado eram os elementos que mais distanciavam o Del Rey do Corcel II externamente. No mais, os dois carros eram muito parecidos. O mais luxuoso diferenciava-se por detalhes como a grade dianteira com lâminas horizontais, luzes de seta mais encorpadas e a incorporação de rodas de liga leve. Na pista, mais semelhanças entre os modelos da Ford: a economia de combustível se destacava, ao contrário do desempenho.

PICAPE No ano de 1982 foi apresentada uma picape desenvolvida a partir do Corcel II. A Pampa era a primeira caminhonete derivada de um carro de passeio que a Ford fabricava no país. O segmento havia surgido há poucos anos, com o lançamento da Fiat City, que tinha como base o modelo 147. A Pampa oferecia uma vantagem importante sobre a rival: a caçamba de dimensões consideravelmente maiores. A capacidade de carga era de 600 quilos e incluía o motorista.

Em relação ao Corcel II e ao Del Rey, a Pampa tinha entre-eixos 14 centímetros maior e altura do solo elevada em três centímetros. A suspensão traseira utilizava feixes de molas, próprios para transportar peso, e o câmbio de cinco velocidades tinha relações exclusivas. O tanque de combustível foi aumentado, e comportava 76 litros. O motor era o mesmo 1.6 dos demais veículos da linha. Como era econômico, proporcionava ótima autonomia. As lanternas traseiras eram as mesmas da F-1000, uma picape maior e mais pesada. A resistência e a vocação para o trabalho logo fizeram com que o modelo caísse no gosto público, e o resultado foi a liderança nas vendas da categoria por um longo período.

EVOLUÇÃO Em 1983, a Ford aproveitou a grade dianteira e o conjunto óptico do Del Rey para criar a perua Scala. Na traseira, um prolongamento das lanternas se estendia pela tampa do porta-malas. A Scala nada mais era senão uma Belina com o interior requintado do sedã, e bem que poderia ter sido apenas uma versão mais luxuosa, mas por razões mercadológicas o fabricante optou por posicioná-la como um modelo distinto.

Ford Corcel II

No mesmo ano, toda a gama recebia o motor CHT, que havia estreado no Escort. O nome é sigla de Chamber High Turbulence, que em português significa Câmara de Alta Turbulência. A vantagem do novo propulsor estava justamente no formato das câmaras de combustão, que proporcionavam uma queima mais eficiente, com reflexos sutis no consumo de combustível e no desempenho.

Mais novidades surgiriam em 1984. Um sistema de tração 4×4 passou a ser oferecido opcionalmente para a Pampa. A caixa de transferência foi posicionada no lugar onde ficava a quinta marcha, o que fazia com que o câmbio tivesse apenas quatro velocidades. Na aparência, novamente foi utilizado o recurso de modificar a grade dianteira, que na linha 4×4 apresentava uma trama de retângulos, que transmitia a sensação de robustez.

A linha 1985 marcou a primeira e única reestilização promovida pela Ford. A modificação mais marcante estava na frente: os faróis assumiam um formato trapezoidal, com os cantos arredondados, enquanto a grade ficava um pouco menor. Havia mudanças também na parte traseira dos veículos, que se resumiam a leves retoques nas lanternas. O motor 1.6 foi aperfeiçoado e passou a entregar o torque de maneira mais linear, o que melhorou as respostas em baixa rotação. O Corcel abandonou a denominação II e passou a ter o mesmo nome da primeira geração, além de receber aprimoramentos do interior. Outra novidade foi a disponibilização da tração 4×4 para a Belina, que chegava já com as alterações visuais.

SURPRESAS Apesar dos constantes aprimoramentos aplicados pela Ford, os veículos já não escondiam o envelhecimento. O Chevrolet Monza, lançado quase simultaneamente no Brasil e nos países de primeiro mundo, agitava o mercado com seu desenho arrojado e sua concepção avançada. A Volkswagen, por sua vez, começou a produzir o Santana, também moderno e atual. O próprio irmão Escort parecia (e era) bem mais jovem. O Corcel já não conquistava o consumidor como na época do lançamento, e saiu de linha em 1986.

Ford Belina II

Ford Belina II

Os demais modelos seguiram sem grandes alterações. Apenas a denominação Scala  foi abandonada, e a Belina assumia oficialmente a posição de perua Del Rey. Até que, em 1989, era implementada uma novidade que mudou o caráter da linha: a adoção do motor AP 1.800, de origem Volkswagen, com 1781 cm³ de cilindrada, 92 cavalos de potência bruta e 15,1 mkgf de torque bruto. A utilização desse propulsor era um fruto gerado pela Autolatina, uma associação comercial entre as duas marcas. O câmbio também passava a ser fornecido pela Volkswagen e a suspensão recebia aperfeiçoamentos para proporcionar mais estabilidade. O desempenho, que nunca havia sido destaque, ficou interessante. Na Pampa, o propulsor 1.6 permanecia apenas nas versões 4×4. A Belina já não contava mais com a opção de tração integral, e passou a ser oferecida unicamente com o motor de maior cilindrada. O mesmo acontecia com o Del Rey.

Mas nem a melhor performance foi suficiente para mudar o rumo do três volumes e da perua. Ambos estavam defasados, e os compradores davam preferência aos automóveis com projetos mais recentes, que já ofereciam, inclusive, motores 2.0. Assim, Del Rey e Belina deixaram de ser fabricados em 1991. A Pampa, que ainda tinha as vendas em alta devido à durabilidade e à capacidade de carga, continuou em produção por um bom tempo. A Ford parou de oferecer a opção de tração 4×4 em 1994, mas a versão 4×2 permanecia. Somente em 1997 a picape se despediu do mercado. Naquele ano, a Pampa ganhou injeção eletrônica, item que se tornava necessário para atingir os novos limites de emissões de poluentes estabelecidos pelo Proconve.

ANTIGOS De acordo com a legislação brasileira, são considerados antigos os veículos com idade mínima de 30 anos. O Corcel II atingiu essa marca há pouco tempo, e muita gente ainda não vê valor histórico nele, o que faz com que, infelizmente, seja difícil ver um exemplar em perfeito estado de conservação e com todas as características originais. O modelo das fotos, de 1981, é uma exceção. Está impecável e preserva todos os detalhes de fábrica. As imagens do Del Rey e da Belina são de divulgação. A Pampa pode ser vista na ocasião de seu lançamento, no Salão do Automóvel de 1982.

Ford Del-Rey

Ford Pampa

Fotos Marlos Ney Vidal/Autos Segredos (Corcel)
Fotos Ford/Divulgação

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