O Corcel foi lançado para atrair um grande número de compradores. E cumpriu com o
objetivo: econômico e robusto, o modelo foi um dos mais vendidos pela Ford no Brasil.

Nostalgia Ford Corcel I

Alexandre Carneiro Soares (*)
Especial para o Autos Segredos

Em 1964, Ford norte-americana lançava um carro totalmente novo no mercado. A carroceria tinha três volumes bem definidos e o nome fazia menção a uma raça de cavalos. O modelo tinha preço acessível e fez enorme sucesso. Era o Mustang, um ícone que atrai admiradores até os dias de hoje. Em 1968, estreava no Brasil um automóvel que também tinha linhas que formavam rês volumes e cujo o nome remetia aos cavalos. A novidade custava pouco e sua aceitação foi excelente. Era o Corcel, um dos veículos mais bem sucedidos já produzidos em solo nacional.

Os pontos em comum com o Mustang, no entanto, paravam por aí. A mecânica em nada lembrava o esportivo desenvolvido para os Estados Unidos. O Corcel tinha um econômico motor de quatro cilindros, com 1289 cm³ e 68 cavalos de potência bruta. Entretanto, as diferenças não desmereciam o modelo nacional, pois suas características atendiam melhor às possibilidades do consumidor brasileiro. Além do mais, o projeto era bastante avançado para a época: o radiador selado, que impedia que o líquido de arrefecimento evaporasse, era uma primazia no mercado, e a tração dianteira, que já equipava alguns outros veículos, ainda causava estranheza ao público mais conservador. O câmbio era de quatro marchas e a carroceria tinha quatro portas, com comprimento de 4,39 metros e peso de apenas 929 quilos.

Nostalgia Ford Corcel I

É irônico, mas um dos automóveis de maior sucesso lançados pela Ford no Brasil tem origem Renault. O Corcel foi desenvolvido pela extinta Willys-Overland, em parceria com o fabricante francês. O projeto tinha o codinome “M” e na Europa deu origem ao Renault R12, que também foi muito bem aceito no mercado. A maior diferença entre os dois veículos era a carroceria. Na parte mecânica, ambos compartilhavam a maioria dos componentes. As duas marcas já haviam firmado outros acordos anteriormente, que permitiram a produção de modelos como o Dauphine, Gordini e Alpine (este último chamado aqui de Interlagos) no país. Em 1968, quando faltava pouco para o lançamento, a Ford comprou a Willys do Brasil e levou de brinde o Corcel. Os três parafusos para fixação em cara roda, enquanto outros veículos usam pelo menos quatro, são vestígios bem visíveis da concepção do carro.

DERIVADOS A Ford ampliava a linha Corcel já em 1969, com o lançamento da carroceria de duas portas, que deslanchou de vez as vendas do modelo. O vidro traseiro estava mais inclinado e transmitia certa jovialidade. Assim como no sedã, as janelas  laterais posteriores podiam de abertas baixando-se os vidros. Aproveitando as linhas mais dinâmicas do cupê, a Ford introduziu a versão esportiva GT. Além do visual diferenciado, com faixas pretas no capô, nas laterais e na traseira e capota revestida em vinil, o GT tinha algumas modificações mecânicas. O motor manteve a cilindrada, mas teve a taxa de compressão ligeiramente aumentada, o que fez a potência bruta crescer para 80 cavalos. As modificações, no entanto não eram capazes de surtir grandes diferenças no desempenho do carro.

Nostalgia Ford Corcel I

No ano de 1970, a família crescia novamente, com a apresentação da Belina, a perua Corcel. Assim como o cupê, o novo integrante da gama tinha apenas duas portas, pois os compradores da época preferiam essa configuração. O espaço para a bagagem era ótimo, e podia ser ampliado com o rebatimento dos bancos traseiros. A versão mais requintada, batizada de Luxo Especial, tinha as laterais revestidas com um material que imitava jacarandá, em uma nítida referência às Woodies, peruas norte-americanas que recebiam componentes da carroceria confeccionados em madeira. O desenho da carroceria era agradável, e a perua seguiu o caminho de sucesso percorrido pelos irmãos.

MATURIDADE A linha 1971 trazia novidades, com o aplique de leves retoques estilísticos. A grade foi redesenhada e ganhou um emblema no centro. Na traseira, havia duas lanternas quadradas de cada lado. Anteriormente, era uma peça retangular por extremidade. Na Belina, as lanternas passavam a ser divididas pela tampa do porta-malas, mas cada conjunto formava visualmente um único elemento. Em 1972, mais mudanças. O esportivo GT estava ligeiramente mais veloz, graças a um aumento na cilindrada. Agora, o motor tinha 1372 cm³ e desenvolvia 85 cavalos de potência bruta.

Nostalgia Ford Corcel I

Nostalgia Ford Corcel I

Modificações mais profundas seriam reservadas aos modelos de 1973. A grade dianteira era substituída por outra, fabricada em material plástico. O capô também foi redesenhado e ganhou ressaltos para abrigar os faróis. O sedã e o cupê tiveram as lanternas traseiras novamente agrupadas em uma única peça de formato retangular, porém com dimensões maiores. Toda a linha recebeu o propulsor de 1372 cm³, mas a potência bruta tinha 10 cavalos a menos que na versão esportiva, devido à taxa de compressão mais baixa.  Para 1975, a grade seria alterada mais uma vez. O formato anterior foi mantido, mas a trama tinha filetes horizontais, enquanto a peça anterior era composta por elementos verticais. As lanternas traseiras receberam um friso e passaram por leves retoques.

Nostalgia Ford Corcel I

Em 1977, cerca de 650 mil unidades do Corcel já tinham saído das linhas de montagem da Ford. No entanto, o primeiro capítulo da história do modelo chegava ao fim. Naquele ano, ele era substituído pelo Corcel II, cuja trajetória será abordada mais tarde, em outra reportagem.

ITEM DE COLEÇÃO O carro das fotos é um GT 1974, que preserva todas as características originais e está em excelente estado de conservação. O esportivo é o mais valorizado no mercado de automóveis antigos, graças ao visual insinuante e à produção menor que a das demais versões.

Nostalgia Ford Corcel I

FICHA TÉCNICA
Ford Corcel GT 1974
Motor: Dianteiro, longitudinal, 4 cilindros em linha, 2 válvulas por cilindro, gasolina, 1.372cm³, potência máxima (bruta) de 85cv a 5.400rpm e torque máximo (bruto) de 11,6 kgfm a 3.600rpm
Transmissão: Câmbio manual de quatro velocidades, tração dianteira
Direção: Pinhão e cremalheira, mecânica
Freios: Disco na dianteira e tambor na traseira
Pneus: 165 R13
Carroceria: Cupê, duas portas, cinco ocupantes
Dimensões (metros): Comprimento 4,39; largura 1,64; altura 1,42; entre-eixos 2,44
Peso: 960 quilos
Capacidades (litros): tanque de combustível: 51; porta-malas: N/D

(*)  O autor do texto é arquiteto e jornalista

Fotos Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

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