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Marcus Alves Celestino
Especial para o Autos Segredos

De Detroit, EUA – Recordo-me que sempre enxerguei no otimismo exacerbado dos estadunidenses, vulgarmente conhecidos como “americanos” (poxa, “americanos” somos todos nós, mas tudo bem) certa arrogância. Mesmo antes de quando tive a oportunidade de fincar raízes na gélida Green Bay — aqui pertinho da também nada cálida Detroit — não conseguia aturar algo que na minha cabeça considero como uma desmedida empáfia por parte dos locais. Sua cultura é espalhada mundo afora “ad nauseam” como se fosse a oitava maravilha do mundo e o “american way of life” é empurrado goela abaixo mesmo daqueles que querem se manter dentro de suas ocas nessa “Aldeia Global McLuhiana”. No entanto, o gosto do americano em termos de automóveis jamais chegou a ser unanimidade fora de seu país-continente. Seus muscles, utilitários e dantescas picapes sempre tiveram muitas dificuldades para atravessar o Atlântico. Todavia, há de se admirar o poderio dos magníficos carros ianques e a paixão daquele povo pelo mundo automotivo.

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No Salão de Detroit (que abriu as portas ontem (17/01) para o público e se encerra no próximo dia 25) tivemos o prazer de conferir máquinas capazes de demonstrar a grandiosidade da indústria da “terra dos livres e lar dos bravos”. Com o preço da gasolina por lá por um preço médio de US$ 1,75 o gallon, ou US$0,50 o litro, e a recuperação ante a crise de 2008, a avidez dos consumidores pela volta às raízes fica ainda mais evidente e as fabricantes estão a par deste exacerbado “american pride”.  Tudo bem que eficiência energética, autônomos e conectividade estão na pauta do evento realizado na “Motor City”. Contudo, é de um bom cheeseburger, de carangos gigantes e esportivos barulhentos que os americanos mais gostam.

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A Ford deixou isso bem claro ao apresentar alguns de seus modelos de alta performance, incluindo o novíssimo GT. Com linhas maravilhosas, o superesportivo tem sob o capô um motor de seis cilindros biturbo capaz de gerar 633cv de potência. Na humilde opinião do escriba o cupê pode ser considerado vencedor do prêmio de “estrela do salão”. O frenesi com que o (ainda) conceito foi recebido só pode ser equiparado aos olhares maravilhados do público em direção ao Avenir. O nome do conceitual da Buick — tentáculo de luxo da General Motors — significa “em breve” no idioma francês e, de fato, antecipa um futuro sedã de topo da marca premium. Completa a tríade de veículos mais fantásticos do evento uma venenosa cobra. O Shelby Mustang GT350R ressurgiu das cinzas tal qual uma fênix em Detroit mais de quarenta anos depois. Um propulsor “vê oitão” com virabrequim plano de 500cv de potência e generosos 55kgfm para empurrar o possante já dão o tom de sua proposta. É mesmo, esqueci de mencionar a transmissão, certo? Bem, é uma deliciosa manual de seis velocidades; nada de frescura de câmbio automático. Ah, e assim como um bom e velho muscle, o ‘Tang não tem quaisquer frufrus como ar-condicionado ou assento traseiro. Se você quiser essas besteiras só adquirindo-as como opcional, amigo! Na verdade, tais itens são coisas que só os “ecochatos” anti-petrolheads gostariam de ter. Aliás, isso nos leva a um outro ponto do salão: eficiência.

AH, ESSA TECNOLOGIA…

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No sul, mais especificamente no calor californiano, a Tesla é muito badalada. Só lá mesmo, porque, como o mensageiro do hotel em que fiquei hospedado bem frisou e tenho de enfatizar nestas próximas linhas, “carro elétrico não é coisa de americano de verdade”. O estande da empresa do bilionário Elon Musk passou incólume ao frisson causado pelos modelos supracitados, deixando claro que, apesar do sucesso, a marca ainda não está preparada para alçar voos mais altos com carros “chochos”, porém luxuosos. Fazendo o caminho inverso, a GM propõe a popularização do elétrico. O conceito Bolt EV apresenta uma proposta de ser um carro elétrico não para as massas, só que mais acessível à classe média pelo menos. Mary Barra — a firme CEO da montadora que enfrentou vários percalços em 2014 — ainda “tabelou” o preço do veículo: 30 mil dólares, uma pechincha para um carrinho com autonomia de 322km, espaço interno condizente com sua categoria e um painel ocupado pelo MyLink, reforçando o quesito conectividade tão presente no salão. A nova geração do Volt também foi objeto de destaque na área reservada para a General Motors. O modelo já havia dado o ar de sua graça no último Consumer Electronics Show (CES), na dionísiaca Las Vegas, mas rapidamente. O híbrido, agora equipado com motor 1.5 de 101cv de potência aliado ao propulsor elétrico de 149cv, ganhou um visual que condiz com o pregado pelo VP de Design da fabricante, Ed Welburn. O executivo defende a revitalização da estética dos modelos da marca da gravatinha para atender aos millennials (nós, os meninos “leite com ‘maltino'” criados pelas avós nascidos a partir da década de 1980), para que o desenho deles fique em sintonia com os adventos tecnológicos.

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Outro modelo feito já pensando nos millennials — e até mesmo nos pimpolhos destes — é o conceito F 015 da Mercedes. Tudo bem que seu design pode não parecer aprazível nas fotos, mas garanto-lhes que, in loco, ele impressiona. Principalmente seu espaçoso e extremamente luxuoso interior repleto de gadgets e gizmos perfeitos para os tecnófilos. Outro que já tinha dado as caras no CES, o carango, para completar, é autônomo. Creio que todos os leitores do Autos Segredos concordarão com este que vos escreve: dirigir um carro propicia prazer inenarrável. Uma injeção direta de endorfina na corrente sanguínea. Tudo bem que daqui a alguns anos teremos vários veículos como o F 015 circulando pelas nossas vias, mas nada, nada substituirá a paixão do homem por guiar uma máquina. Tudo bem que a comodes dos autônomos tende a conquistar muitos adeptos, mas eu, de forma alguma (mesmo sabendo que a evolução é normal e imparável), sou um deles.

EUROPEUS INVADEM A FESTA

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Se já mencionamos a estrela de três pontas no parágrafo anterior, por quê não adicionarmos um tempero europeu ao cheeseburger de carne de Angus? Além do conceito, a Mercedes mostrou dois modelos que em breve estarão aqui no Brasil. O utilitário GLE Coupe chega no último trimestre ao país em duas versões e o Classe C com mais pimenta de engenharia alemã, o C450 AMG Sport, aportará na terra brasilis também no segundo semestre. Destaque para o motor V6 capaz de gerar 367cv. A BMW deu uma bela repaginada na Série 6. O facelift serviu para mudanças na grade dianteira, nos para-choques e também no console central, que ganhou novo look. Ademais, os modelos da linha agora podem vir com o sistema de tração integral presente nos utilitários X (não confundir com alguma empresa falida de Eike Batista) da marca. O Grupo Volkswagen, por sua vez, agraciou os visitantes com três novidades bacanas. As primeiras advém da Audi. O Q3 passou por uma reestilização e o Q7 uma nova geração. 325kg mais leve que seu predecessor, o utilitário chega ao Brasil no apagar das luzes desse ano. O estande da VW, contudo, era um oceano de Golfs. Também pudera; o hatch venceu o prêmio de carro do ano da Motor Trend e os chucrutes também não tinham lá muito a expor. A única exceção é o Cross Coupe GTE. O conceito provavelmente servirá de base para um novo utilitário da fabricante, que brigaria numa rinha de galos campeões como BMW X6 e até mesmo o neófito GLE Coupe. Vamos ver se dessa vez o SUV da Volks vai para a linha de montagem, já que a fabricante há tempos vem lançando conceitos, ensaiando uma versão de produção e nada.

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Da terra do peixe com fritas e da Rainha, temos o pequenino e enfezado John Cooper Works. A nova geração do carrinho é considerado como o Mini mais potente de toda a história. Seu motor biturbo de 231 cv de potência faz com que o invocadinho vá da inércia aos 100km/h em apenas 6,1 segundos. Já estou aguardando ansiosamente pela chegada do pequenino no Brasil, ainda esse ano, para poder me endividar, comprá-lo e fazer a alegria do meu banco. Já de lá da Bota, da boa e velha Itália, temos o 4C Spider. A versão conversível do cupê da Alfa Romeo chega ao mercado norte-americano em abril e é lindo que só. No entanto, de acordo com o Grupo Fiat, a entrada da Alfa no Brasil segue totalmente descartada. Uma pena para os alfisti que gorjeiam cá. Aliás, tirando a belezura citada anteriormente, a gigantesca área coberta pela FCA não tinha muita coisa de interessante (heresia se levarmos em conta a presença de um fantástico Challenger Trans-Am no local, mas é verdade). Para nós brasileiros, contudo, tínhamos uma presença já conhecida. Os vários exemplares do Jeep Renegade expostos dão a tônica do que a FCA pretende. O modelo, que será lançado por aqui em março, é a grande aposta do grupo para as Américas. A Fiat/ Chrysler dará total ênfase à Jeep na América Latina — ignorando a princípio outras marcas dentro de seu escopo que poderiam entrar no continente. Tanto que todos já estamos cansados de saber que o utilitário será produzido na nova planta da Fiat no Brasil, em Goiana (PE).

O RETORNO TRIUNFAL

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Após a crise de 2008, os Estados Unidos viram seu mercado de automóveis arrefecer na velocidade da luz. As “big three” (Ford, Chrysler e GM) se pegaram meio a uma tempestade de insucessos que acabou levando todos à bancarrota (ou quase). Com a gasolina sendo vendida à época por valores estratosféricos, a vida das fabricantes ficava cada vez mais difícil. Em decorrência da crise, Detroit viu sua população cair pela metade e a cidade outrora gloriosa tornou-se das mais violentas do país. Além disso, o número de vendas de picapes, uma paixão americana, caiu consideravelmente, elevando a comercialização de “pequenos e caretas” sedãs japoneses. Todavia, com a recuperação econômica o cenário voltou a mudar. E isso é perceptível no auto show desse ano. Vale destacar uma gama de picaponas que vão fazer os olhos dos visitantes brilharem. Bruta como eles gosta e com design bem jovial, a 1500 Rebel abdica da tradicional grade da marca e joga um RAM em letras garrafais no centro. São duas opções de motorização, ambas dignas de tamanha robustez. Querendo manter seu reinado no mundo das mid-size, a Tacoma, parrudona da Toyota. Competindo numa seara onde se encontram fortes contenders como Silverado e Canyon, a grandona teve de receber alguma maquiagem. Além de mais robustez, os faróis foram desenhados e o modelo ainda tem luzes diurnas de LED. Os motores que podem equipá-la são um 2.7 litros de quatro cilindros ou um 3.5 V6. A transmissão é automática de seis velocidades.

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No entanto, meus amigos, aos americanos o que é dos americanos. A F-150 Raptor, agora equipada com motor EcoBoost 3.5 V6, agrada aos olhos e ao coração de quem nasceu na terra do Tio Sam. Um magnífico exemplar de picape. Outra da série “picaponas que gostamos” que é um belo pitel é a Titan XD, empurrada por um motor V8 turbodiesel 3.0 de 314cv. Interessante frisar que a Nissan enfatizou a todo o momento que seu modelo tinha DNA cem por cento americano, desde sua concepção até a linha de montagem. Por fim, encerramos o time bruto com um conceito. Curiosamente unindo os nomes de Santa Fe e Veracruz, a Santa Cruz deve ir para a produção já em 2016. Apesar de enorme se comparada ao que temos de opções nesse nicho aqui no Brasil, para o mercado americano ela é apenas parrudinha, aquele bully baixinho e meio forte que adora atazanar a vida dos coleguinhas de escola. Se pudesse, divagaria durante horas e horas sobre este modelo e os outros citados, mas creio que os amigos já estejam cansados de tanta leitura e queiram apreciar uma notável galeria recheada com fotos que refletem a ressurreição das picapes e, por conseguinte, da indústria automotiva norte-americana e também de Detroit. Enfim, a capital mundial dos automóveis retornou. Os carros estão voltando para casa.

OUTROS DESTAQUES

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Ayrton Senna ficaria deveras orgulhoso com a nova geração do Acura NSX. O debute do belíssimo possante em Detroit contou inclusive com a presença do comediante, e aficionado por automóveis, Jerry Seinfeld. O híbrido conta com motor V6 3.5 biturbo e também é auxiliado por propulsores elétricos. Por falar em Acura, apesar de tímido, o nosso HR-V estava presente no estande da Honda e pudemos conferir o interior do veículo, algo que não foi possível no último Salão de São Paulo. Destaque para o ótimo acabamento e para a disposição do quadro de instrumentos. O Porsche 911 Targa 4 GTS comemora os 50 anos do modelo em grande estilo. 0 a 100km/h em 4.3 segundos e velocidade máxima acima dos 300km/h são possíveis apenas por causa do motor de 430cv e o pacote aerodinâmico Sport Chrono. Única representante chinesa no tradicionalíssimo salão, a GAC ficou relegada a um espacinho que poderíamos definir como uma área de serviço do auto show. Contudo, os “xing-lings” mostraram o GS4, utilitário nada afeito às dimensões magnânimas dos carros americanos, e o conceito WITSTAR. O híbrido até que tem um design interessante, mas chegando mais perto pode-se perceber a falta de esmero em termos de acabamento dentro do habitáculo.

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Fotos | Marcus Alves Celestino e Zbigniew Mazar/wpr-AutoReporter