Ford Modelo TT de 1918
Foto | Ford/Divulgação – Ford Modelo TT de 1918

Por Marcelo Jabulas

O automóvel tem sido construído da mesma maneira a cerca de 130 anos. Quatro rodas, volante para indicar a direção, pedais de freio e acelerador (às vezes embreagem), duas ou três fileiras de bancos, compartimento de motor e compartimento de bagagem. E esse modelo seguirá dessa forma se reinvente o carro novamente.

No entanto, não há como negar que o automóvel evoluiu em termos de ingredientes. Ano após ano eles ganham novos equipamentos. Sejam de segurança, comodidade ou conexão, fato é que há 10 anos, muito do que temos num carro popular de hoje seria visto como ficção.

E o Autos Segredos tem acompanhado de perto essa evolução da receita, mesmo que o conceito do automóvel seja o mesmo desde o século 19. Confira:

Mobi Easy
Foto | Fiat/Divulgação

Ar-condicionado

Se hoje praticamente todos os modelos, com exceção do Fiat Mobi e Renault Kwid podem ser configurados sem ar-condicionado, direção assistida e vidros dianteiros elétricos, há anos o cenário era diferente. Modelos de entrada e populares tinham pacotes incontáveis de opcionais. Instalar os três itens que formavam o chamado “completinho básico” poderia encarecer demais o preço final.

Accord 2.0 turbo
Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

Ar-condicionado digital

Ter um ar condicionado analógico já era um luxo, uma opção eletrônica era para poucos modelos. Hoje há modelos que oferecem opções com duas ou três zonas de climatização, mas em 2009 era um item que se restringia a modelos importados como Peugeot 407, Volkswagen Passat, além de opções mais caras. Na maioria das vezes a temperatura era a mesma para todas as saídas.

Airbag

Outro equipamento de segurança que era vendido como artigo de luxo em 2009. Naquela época era possível equipar grande parte dos modelos com bolsas infláveis, até mesmo o Gol de segunda geração (G4). Por ser um opcional caro e também por elevar a cotação do seguro, muita gente optava por uma roda bacana ou faróis de neblina a instalar as bolsas. Afinal, ninguém compra um carro pensando numa tragédia.

EcoSport 1.5 Titanium
Foto | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

Central Multimídia

Módulos multimídia fazem parte da grande maioria dos automóveis vendidos atualmente, e são cheios de funções. A exceção fica por conta dos modelos de entrada. Mas em 2009 a coisa era bem diferente. Apesar de termos rádios de duas baias, poucos eram os carros que realmente ofereciam funcionalidades como navegação GPS ou câmera de ré. A grande maioria contava somente com leitor MP3 e conexão Bluetooth com celular. Mesmo assim eram restritos a modelos importados como Chevrolet o Omega.

Renegade 1.8 Sport 2019
Foto | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

Direção Elétrica

Direção assistida sempre foi vendido como item de luxo nos automóveis brasileiros. Depois de 2014, quando as montadoras foram obrigadas a instalar bolsas frontais e freios ABS, a direção assistida entrou na lista, assim como vidros elétricos dianteiros e ar-condicionado, para justificar o encarecimento dos modelos de entrada.

Já a direção elétrica, que hoje equipa muitos compactos como Up, Kwid e Mobi, era um equipamento dedicado a modelos nacionais mais sofisticados como Fiat Stilo.

Foto | Audi/Divulgação

Faróis com LED

A GM foi o primeiro grupo a usar LED em faróis de seus modelos. Em 1984 no Corvette e posteriormente na Cadillac. No entanto, a explosão aconteceu a partir de 2007, quando a Audi apresentou o R8 com faróis cravejados com LED, para uso como luz diurna. Não demorou muito para a tendência se espalhar no mercado e não tardou a chegar aqui. Em 2009, já era possível comprar um A4 com filetes de LED.

No entanto, surgiu uma onda de decorar os faróis com tiras de LED importadas da China. Teve muita gente que colocou os filetinhos em modelos populares para dar uma valorizada no visual.

Com menor consumo de bateria e com maior luminosidade que as lâmpadas halógenas, o LED também foi aplicado nos faróis de facho baixo e também em lanternas. Por aqui, o Fiat Idea foi primeiro nacional a ser equipado com lanternas com LED.

Faróis com xenônio

Lâmpadas de Xenônio se tornaram uma febre no Brasil no final dos anos 2000. Por oferecer grande luminosidade e facho mais longo que as lâmpadas convencionais muita gente queria equipar seus automóveis com esse equipamento. No entanto, eram (e ainda são) equipamentos caros e muita gente recorreu às chamadas lâmpadas super brancas, que têm o mesmo brilho azul, mas que ofuscam a visão de quem vem na direção contrária.

Freios ABS

Freios ABS existem há 40 anos, mas no Brasil só se tornou item obrigatório em janeiro de 2014. Em 2009, todas as fabricantes que atuavam no Brasil ofereciam o equipamento como item opcional em modelos de entrada e compactos, como o Chevrolet Agile o Volkswagen Gol. ABS de série era uma regalia de quem podia pagar pelo menos por um sedã médio.

Dodge Journey
Foto | Dodge/Divulgação

Navegador GPS

Os navegadores GPS chegaram ao mercado em meados dos anos 2000 como equipamentos móveis. Em 2009, poucos eram os automóveis que tinham o equipamento embutido no console central. Apenas importados como A4, Mercedes Classe E. No entanto, em muitos casos faltavam mapas para que eles fossem utilizados por aqui.

A solução que a indústria encontrou foi vender os aparelhos com acessórios. A GM oferecia um GPS para o Agile, inclusive orientava o cliente a fixar o equipamento no porta objetos sobre o painel, usando a tampa como apoio.

A Renault, por sua vez optou por uma parceria com a Nokia e ofereceu o Sandero que vinha com um N95 preso ao para-brisas por ventosas. Era os primórdios do Uber.

Hoje os navegadores GPS tomaram um caminho inverso. Muitos fabricantes deixaram de oferecer os mapas embutidos nas centrais multimídia pelo custo elevado das licenças e de não permitirem monitoramento de tráfego em tempo real. Atualmente, o que há de mais moderno em navegação são centrais que se conectam com telefones e permite usar apps como Waze e Google Maps na tela do painel.

Toyota Yaris
Foto | Toyota/Divulgação

Sensor de ré

O Sensor de estacionamento ou sensor de ré é um equipamento que barato e que se tornou fundamental no uso cotidiano. Seu sistema por meio de ondas de ultrassom é capaz de calcular o tempo que a onda bate no obstáculo e retorna ao sensor tornou a vida do motorista bem mais tranquila. Por aqui, ele chegou  na segunda metade dos anos 2000, equipando modelos importados.

Não demorou para chegar às casas de acessórios, mas em seus primeiros anos o equipamento era visto com preconceito. Além de não querer fazer furos nos para-choques, consumidores também não queriam ser taxados de ruins de manobra. E olha que isso não é coisa só de brasileiro.

Na década do 1980, um dos inventores do equipamento (um pesquisador da universidade de Nottingham, no Reino Unido, que não tinha visão de um dos olhos) bateu na porta da Jaguar e foi ironizado pelos executivos, que afirmaram que o equipamento só seria útil para ele, que tinha visão debilitada.

Cronos 1.3 GSR
Foto | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

Transmissão Automatizada

Transmissões automáticas estão se popularizando cada vez mais no mercado brasileiro. Sedãs e utilitários-esportivos (SUV’s) com caixas manuais praticamente desapareceram. Até mesmo em compactos as caixas automáticas estão ganhando volume. No entanto, há 10 anos o cenário era muito diferente.

Caras, as caixas automáticas com conversor de torque eram luxos de modelos sofisticados. E olha que naquela época a maioria dos sedãs automáticos utilizam ineficientes caixas de quatro marchas. A solução para chegar ao grande público foi a transmissão automatizada de embreagem simples. Trata-se de uma caixa convencional que no lugar do pedal há um sistema robotizado que executa as trocas.

Pioneira

A pioneira foi a GM, que instalou os sistema da Magnetti Marelli no monovolume Meriva e batizou de Easytronic. Não demorou para a caixa chegar na Fiat batizada de Dualogic. Primeiro foi o Stilo, depois vieram Punto, Linea, Idea, Bravo, Palio, Uno, Grand Siena, assim como Argo e Mobi. A Volkswagen também entrou na onda e aplicou a caixa da Marelli em modelos como Gol, Fox, Voyage e Polo. Os alemães batizaram a transmissão de I-Motion. Em 2014, a Renault adotou a caixa Easy-R da ZF, que fez sua estreia no Sandero Stepway.

O problema é que esse tipo de caixa tem funcionamento ruim, dá trancos, tem trocas imprecisas e fora de hora. Além disso, com manutenção extremamente cara. Hoje, só a Fiat ainda insiste com essa transmissão, que ela rebatizou de GSR.