Apesar de não ser mais “novo” como o fabricante o chama comercialmente, hatch ainda tem interior agradável e dirigibilidade correta; a parte mecânica, porém, precisa urgentemente de uma atualização 

teste_fiat_palio_attractive_32Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

A disponibilidade das frotas de imprensa das montadoras nem sempre está alinhada com os anseios dos jornalistas. Em outras palavras, não é incomum que, em certos momentos, a indústria não tenha determinado modelo para ceder aos nossos testes. Isso acaba gerando algumas situações curiosas: ao passo que, às vezes, chegamos a avaliar várias versões de um só veículo – no Autos Segredos, isso ocorreu, por exemplo, com Volkswagen Gol, Fiat Uno e Nissan March – em outras ocasiões acabamos não experimentado determinados modelos. É o caso do “novo” Palio, que já não é mais tão novo: lançado em 2011, ele inacreditavelmente ainda não havia passado por nossas mãos. Eu, por exemplo, até cheguei a dirigi-lo, rapidamente, na época do lançamento, na versão Essence 1.6 16V, mas depois, por coincidência, nunca mais havíamos nos encontrado (apenas a configuração Fire, da geração anterior,  já esteve conosco). Até que, enfim, agora calhou de um Attractive 1.0 cair na nossa pauta. 

teste_fiat_palio_attractive_23Em termos projetuais, o “novo” Palio pode até não ser tão novo, mas tampouco chega a estar exatamente velho. O interior, por exemplo, acolhe muito bem os ocupantes: o espaço interno é mais que suficiente para quatro ocupantes adultos, mesmo de estatura mais elevada. Esse, inclusive, foi um dos aspectos em que o modelo mais evoluiu em relação ao antecessor. Com cinco a bordo, o aperto é inevitável, mas ainda assim, o resultado é bastante aceitável para um compacto. O problema é que o quinto ocupante não conta com a proteção do cinto de três pontos: ali, o equipamento é subabdominal. No máximo, irá gozar do apoio de cabeça central-traseiro, vendido como opcional. Os 290 litros de capacidade do porta-malas são compatíveis com o porte do veículo. A ressalva vai para o vão de entrada com base um tanto elevada, o que dificulta as operações de carga e descarga. O acabamento é bom para a categoria do hatch: os plásticos dos revestimentos internos, embora rígidos, têm bom toque e trazem diferentes cores e texturas. Na unidade avaliada, eles apresentavam boa montagem, mas havia algumas rebarbas plásticas nos difusores de ar. Os tecidos dos bancos também são agradáveis ao toque.

Ao motorista, o Palio oferece uma posição razoável, um pouco mais elevada que o comum, artifício utilizado para otimizar o espaço interno. O volante tem boa pegada, mas é regulável apenas em altura, e não em profundidade. O banco proporciona ótima acomodação para as costas, porém, o assento, mais curto que o desejável, não apoia bem as pernas. As abas laterais são pequenas e não sustentam muito bem o tronco em curvas, mas isso é aceitável em um carro que não tem qualquer pretensão esportiva. Assim como ocorre em outros modelos da marca italiana, a espuma é bem macia e tende a provocar cansaço após longas utilizações. O do condutor oferece regulagem de altura, mas apenas como opcional na versão avaliada. Inconveniente herdado da geração anterior, os pedais são deslocados para a direita e muito próximos uns dos outros. Já o painel tem comandos bem-posicionados e acessíveis. Os cluster traz instrumentos analógicos que, apesar de um tanto pequenos, têm visualização fácil. Além do mais, há o útil termômetro do fluido de arrefecimento do motor. A visibilidade é boa, e os retrovisores têm dimensionamento correto. Os faróis biparabólicos são bastante eficientes, e os limpadores de para-brisa varrem boa área e atuam em silêncio.

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CORAÇÃO ENVELHECIDO

É sob o capô que o “novo” Palio está mais envelhecido. O motor 1.0 da linha Fire foi herdado da geração anterior e já não consegue esconder suas limitações tecnológicas. Com bloco em ferro fundido e cabeçote de alumínio com oito válvulas, sem variação de comando, desenvolve apenas 75 cv de potência com etanol e 73 com gasolina, a 6.250 rpm, além de 9,9 kgfm de torque  com o combustível vegetal e de 9,5 kgfm com o derivado do petróleo, a 4.500 rpm. O propulsor ainda conta com correia dentada convencional (nada da do tipo longa-vida ou de corrente de acionamento) e nem mesmo o arcaico tanquinho da partida a frio foi aposentado. No mais, em termos de concepção, o conjunto mecânico não se destaca nem para o lado positivo nem para o negativo. O câmbio é manual de cinco marchas (único oferecido para a versão Attractive), a direção tem assistência hidráulica e a suspensão segue o manjado esquema com conjuntos do tipo McPherson, independente, na dianteira, e de barra de torção, semi-independente, na traseira.

O resultado é um desempenho fraco, mesmo para um automóvel com motor 1.0 aspirado. O câmbio com as primeiras marchas bem curtas até otimiza a força nas arrancadas, mas o Palio demora para embalar, e, principalmente, para retomar. As marchas mais altas vão ficando mais longas, e a 120 km/k, o tacômetro marca 4.000 rpm, valor aceitável dentro da proposta.  Assim, as subidas vêm sempre acompanhadas de sucessivas reduções: o único jeito para minimizar a perda de velocidade (para minimizar, pois impedir é impossível) nessas situações é deixar o motor girar bem alto. Seria injusto, porém, culpar só o motor: o peso chega a uma tonelada (para ser exato, são 999 kg), algo elevado para a categoria.

teste_fiat_palio_attractive_5Outro problema é que o desempenho fraco não foi compensado por um consumo de combustível excepcional. Pelo contrário: as aferições do Autos Segredos, realizadas com etanol no tanque, revelaram médias de 9,1 km/l na cidade e 12,5 km/l na estrada. Não que esses números sejam ruins; a questão é que eles estão aquém dos obtidos por outros hatches equipados com motor 1.0, em especial os de concepção mais atual, com três cilindros. Como de praxe, o Autos Segredos lembra que o gasto de combustível é influenciado por vários fatores, entre os quais o relevo, o estilo de condução do motorista e as condições das vias.

LINHA EVOLUTIVA

Todavia, nem tudo no comportamento de um carro é desempenho e consumo, e, no mais, o Fiat se sai bem. A direção hidráulica tem boa  progressividade: é suave em manobras sem ser excessivamente leve em alta velocidade. A suspensão tem acerto mais voltado para o conforto: macia, ela absorve muito bem as imperfeições do piso, mas nem por isso deixa o compacto instável. Ainda que ele não seja daqueles modelos que entram justinhos nas curvas, tampouco dará sustos no motorista. Aliás, em comparação à geração anterior, a evolução nesse quesito é notável: a carroceria ainda rola sobre os eixos, mas em intensidade bem menor, enquanto o limite de aderência surge nitidamente depois. Já os engates do câmbio são apenas razoáveis, e mantêm as mesmas características já notadas pelo Autos Segredos em outros modelos da marca italiana: são macios, mas não muito precisos, e, ademais, o curso da alavanca é longo. Os freios, com discos no eixo dianteiro e tambores no traseiro, imobilizam o veículo em espaços curtos e sem desvios de trajetória, mas o pedal poderia proporcionar respostas mais progressivas.

teste_fiat_palio_attractive_6A lista de itens de série do Palio Essence 1.0 traz só o trivial. Há ar-condicionado analógico, direção hidráulica, computador de bordo, vidros elétricos nas portas dianteiras e travas elétricas com acionamento à distância, por meio da chave com telecomando. Também há airbags frontais e freios ABS, que são obrigatórios por lei. Todos os demais equipamentos, incluindo aparelho de som com CD/MP3 player, entrada USB, e viva-voz Bluetooth, alarme antifurto, retrovisores elétricos, vidros elétricos traseiros, faróis de neblina, volante multifuncional e rodas de liga leve (aro 14, mesma medida do conjunto de aço estampado que vem de série no modelo) são vendidos como opcionais. A unidade avaliada trazia ainda vários acessórios da Mopar, vendidos na rede autorizada, entre os quais spoilers dianteiro, laterais e traseiros (que o fabricante chama de aeroparts), pedaleira esportiva, câmera de ré integrada ao retrovisor interno, sensores de estacionamento traseiros, pedaleira esportiva, capas dos retrovisores externos e das maçanetas cromadas e aparelho de áudio com interface específica para conexão com celulares.

teste_fiat_palio_attractive_24PARA ACOMPANHAR O MERCADO

Apenas com o conteúdo básico, o hatch custa R$ 39.990, mas pode chegar a R$ 47.045 considerando todos os opcionais, inclusive a pintura metálica (menos os acessórios, que não têm valor tabelado). Esses preços, embora elevados, não chegam a destoar dos praticados atualmente no mercado brasileiro: há vários veículos 1.0 com conteúdo semelhante na casa dos R$ 40 mil. O problema do modelo da Fiat é que muitos desses concorrentes têm mecânica bem mais atual: o motor Fire 1.0 8v, embora bem-afamado em termos de manutenção, é fraco e tampouco se sobressai em consumo de combustível. Enquanto, nos demais requisitos, o Palio demonstre ter alguma lenha para queimar,  sob o capô ele carece de algo realmente novo. Resta esperar pelo novo 1.0 de três cilindros que a Fiat está desenvolvendo, cujo lançamento ainda  tardará pelo menos um ano…

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas)  5 6
Consumo (cidade e estrada)  7 7
Estabilidade  7 7
Freios  7 7
Posição de dirigir/ergonomia  7 8
Espaço interno  7 7
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade)  6 7
Acabamento  7 8
Itens de segurança (de série e opcionais)  6 7
Itens de conveniência (de série e opcionais)  7 7
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção)  7 7
Relação custo/benefício  7 7

FICHA TÉCNICA

» MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, oito válvulas, 999cm³ de cilindrada;  73 cv de potência com gasolina e 75 cv de potência com etanol, a 6.250 rpm; 9,5 kgfm de torque com gasolina e 9,9 kgfm de torque com etanol, a 4.500 rpm.

» TRANSMISSÃO
Câmbio manual de cinco marchas, tração dianteira

» ACELERAÇÃO A 100KM/H (dado de fábrica)
15,8 s com gasolina e 15 s com etanol

» VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
156 km/h com gasolina e  157 km/h com etanol

» DIREÇÃO
Do tipo pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

» FREIOS
Discos sólidos na dianteira e tambores na traseira, com ABS

» SUSPENSÃO
Independente do tipo McPherson na dianteira e semi-independente com barra de torção na traseira

» RODAS e PNEUS
Rodas de 5,5 x 14 polegadas, em liga leve (opcionais); pneus 175/65 R14

» DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,875; largura, 1,670; altura, 1,504; distância entre-eixos, 2,420

» CAPACIDADES

Tanque de combustível: 48 litros; porta malas: 290 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 400 quilos; peso: 999 quilos

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos