Mudanças na Chevrolet  S10 para 2017 são pontuais, mas parte de um longo ciclo de evolução

teste_chevrolet_S10_high_country_42Renato Passos (*)

Permitam-me sair do óbvio: dessa vez não teremos um teste tradicional. As mudanças para 2017 que a Chevrolet fez na S10 são pontuais – embora importantes no contexto que colocaremos aqui – e também testamos a mais recente versão da Trailblazer LTZ 3.6 V6, que compartilha praticamente tudo com a pick-up, inclusive o facelift frontal que foi semelhante para ambos. Faremos, portanto, diversas chamadas ao que já colocamos na avaliação do SUV. Porque dessa vez, permitam-me, vou contar uma história real, em cujos meandros as caminhonetes da GM fazem parte indistinguível. Embarquemos nessa picape de R$ 169.140 rumo à um Brasil desconhecido por muitos.

teste_chevrolet_S10_high_country_34Terras altas

Vou falar de terras altas. E não é do Highlander propriamente dito, embora muito possa se assemelhar. Até porque o nome da versão topo de linha da S10, High Country, também evoca às montanhas e aqueles que dela fazem sua vida. De diferente entre a S10 e a Trailblazer, apenas pequenos detalhes de acabamento interno, como detalhes exclusivos da versão, a sentida ausência do sensor de ponto cego nos retrovisores externos e a joia da coroa: no lugar do 3.6 V6 a gasolina, o valente 2.8 CDTi a diesel, um projeto da italiana VM Motori – e produzido no Brasil sob licença pela MWM – com duto único de injeção a alta pressão (1800 bar), debitando 200 cv de potência e 51 kgfm de torque. De resto, tudo igual.

teste_chevrolet_S10_high_country_5Foram mais de mil quilômetros a bordo da picape, entre cidades, rodovias e o campo. E foi no campo que a S10 reencontrou as suas origens – e eu, as minhas. Desde meados dos anos 1950, os utilitários Chevrolet dominam as castigadas estradas da região que abriga minha família materna há mais de 120 anos. Valentia e robustez não eram vantagens – era algo mandatório, num campo onde a Toyota com a Hilux cativou muitos durante os últimos 15 anos. Mas, recentemente, a S10 veio a reassumir o legado por lá. E não é pouca coisa. Ainda mais com a nova geração da pick-up japonesa, cujos números de desempenho não agradaram quem costuma andar com carga humana na cabine, e mais peso na caçamba.

Histórico

Desde Chevrolet Brasil 3100 a S10 2016, a fauna de pick-ups com o bow tie é imenso, tanto na sede do município quanto nos mais isolados rincões. Inúmeras D20, surradas pelo tempo, cumprem arduamente seus afazeres no campo e trazem vegetais do campo até a feira dos produtores, vagarosamente esgueirando pelas estradas que ladeiam a serra, com o roncar típico dos motores Perkins Q20B e Maxion S4/S4T. Gasolina, por lá, é besteira: a autonomia do motor diesel é amiga dos que podem ficar dias inteiros no campo, ilhados por estradas intransitáveis na época de chuva. Falando em consumo, uma média final de exatos 10,0 km/l ao longo da jornada, dada a exigência do percurso, pode ser considerada com boa.

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Ainda no campo, saltam aos olhos duas virtudes da S10 que orgulhariam seus antepassados: A primeira delas é o motor, tido por muitos como referência de desempenho no segmento, com entrega massiva de torque a baixas rotações sem muito turbo lag e potência máxima aprazível. Sendo assim, ao mesmo tempo em que é possível andar de forma prazerosa em velocidade de cruzeiro em linha reta nas estradas asfaltadas com a Chevrolet, existe a força necessária no campo, na labuta e na dureza, para puxar cargas, sair de atoleiros e muito mais. Ponto positivo para o intuitivo cruise control também presente na versão, além de controle de tração e estabilidade para maior segurança nas viagens em ritmo mais acelerado.

teste_chevrolet_S10_high_country_9Estiagem

Falando em atoleiros, que felizmente não fizeram parte do roteiro dada a estiagem permanente de uma região anteriormente rica em recursos hídricos – a tradição trás, por vezes, conservadorismos estúpidos e inaceitáveis – a tração 4×4 com reduzida operada por seletor eletrônico no painel é de série na versão, a despeito dos pneus de asfalto aliado a rodas de liga leve de aro 18 polegadas exclusivas da opção High Country, bem como o belo santo-antônio também único da High Country e que, de quebra, evoca diretamente a D20: a versão especial El Camino, de 1994, também com o santo-antônio de desenho diferente do habitual.

Para quem ia para a roça nos paus-de-arara, qualquer automóvel é benesse benvinda para o conforto. Nesse aspecto, a S10 trata bem seus passageiros, estando ainda melhor no ano-modelo 2017, com assistência elétrica de direção e retrabalho de coxins e suspensão. Mesmo sem o avanço imenso da Traiblazer nesse aspecto, a picape se mostra digna para viagens pelas duras estradas com bom desempenho, absorvendo bem as costelas-de-vaca e outras maldades das vias, levando em silêncio e segurança até 5 adultos sem grandes percalços. Parte importante da diferença de comportamento deve ser imputada à diferença do tipo de molas utilizada no eixo rígido traseiro, com o mais robusto – mas menos refinado – feixe de molas semielípticas sendo aplicado na S10 em detrimento das molas helicoidais, mais amigáveis ao rodar civilizado.

teste_chevrolet_S10_high_country_21Feliz de meu avô, passageiro contumaz nos caminhões que traziam leite para a cidade e voltavam vazios para o campo, que pode ainda em vida voltar ao vilarejo no qual muito fez por sua família e pelos residentes, dessa vez em carro adequado para a situação: a S10 sabe a que veio. No asfalto, a vantagem tende a desaparecer: qualquer sedã médio se comporta melhor, com conforto e melhor comportamento dinâmico. Mas, novamente, a relação peso/torque imbatível da revista Chevrolet assusta a muitos que desconhecem os números de retomada da caminhonete.  Na hora de parar no asfalto, o peso é sentido, mas sem sustos. No campo, o controle de velocidade em descida faz parte do pacote de série, sendo utilizado junto das marchas reduzidas, trás segurança nos declives mais perigosos.

teste_chevrolet_S10_high_country_14Campo

No campo, viajar em baixas velocidades, com o conforto do ar-condicionado e a central multimídia MyLink2 criando um antagonismo único com o bucólico e com hábitos que nunca se perderam com o tempo. Não basta apenas ter um reprodutor de música via Bluetooth com tela sensível ao toque, um completo computador de bordo ou ajuste elétrico dos bancos, bem como acionamento remoto do motor: o agropecuarista, na lida de sol a sol, paga pelos luxos que o refrescam depois da batalha no campo. Mas nada disso vale se a pick-up o deixar na mão no meio do nada, não receber bem o peso da riqueza nas suas costas e refugar frente as estradas enlameadas que os esperam.

Daí, não sou eu que o digo. É o que vi, é o que os anos corroboram. Ao ver tantas C10, D10, D20, Silverado e S10, estejam elas imaculadas nas garagens quanto valentemente trabalhando no campo, soube que não basta parecer competente – tem que o ser. Muitas vezes o campo é relacionado ao atraso e à ignorância, e não cabe a eu julgar a veracidade de tal fato. Mas uma coisa eu afirmo, sem medo de errar: no campo, a confiança é moeda e documento primordial. E nesse aspecto, a S10 High Country 2017 parece seguir firmemente a linhagem da qual descende.

AVALIAÇÃO Marlos Renato
Desempenho (acelerações e retomadas) 9 8
Consumo (cidade e estrada) 8 7
Estabilidade 7 6
Freios 8 6
Posição de dirigir/ergonomia 9 8
Espaço interno 9 9
Caçamba (espaço) 9 8
Acabamento 8 8
Itens de segurança (de série e opcionais) 8 9
Itens de conveniência (de série e opcionais) 8 8
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 9 9
Relação custo/benefício 7 8

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, longitudinal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, com injeção direta de combustível a alta pressão, a diesel, 2.766 cm³ de cilindrada (diâmetro de 94,0mm, curso de 100,0mm), 200cv de potência máxima a 3.600 rpm, 51,0 kgfm de torque máximo a 2.000 rpm

TRANSMISSÃO
Tração traseira, com atuação integral mediante seleção. Câmbio automático de seis marchas com caixa de redução atuante sob seleção.

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
N/A

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
180 km/h, limitada eletronicamente.

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira, eixo rígido com 5 pontos de fixação e feixe de molas helicoidais

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 7,5×18 polegadas, pneus 265/60 R18

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 5,408; largura, 1,874; altura, 1,839; distância entre-eixos, 3,096; peso: 2.101 quilos

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 76 litros; porta malas: 1.329 litros (até o limite de altura lateral da caçamba); carga útil (passageiros e bagagem): 1.049 quilos.

(*) Engenheiro Mecânico formado pelo Cefet-MG

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos