Por Júnior Almeida/Esporte Automotor

Roma, Milão, Modena, Siena e Veneza cidades que representam um avanço na arquitetura mundial, definindo novos padrões tanto na moda quando no mundo automobilístico através do modo de vida romântico presente no caráter da população italiana.

A tradição italiana tem influência fundamental no modo de projetar automóveis, reflexo disso estão os carros da Alfa Romeo que através de suas linhas seduzem e hipnotizam não só os entusiastas por automóveis, mas uma boa parcela da população vira o pescoço quando um modelo Alfa Romeo passa diante dos olhos.

Esta tradição, em construir belíssimas carrocerias e motorizá-las de maneira que sejam o suprassumo dos automóveis vem desde 1910 quando a Alfa Romeo foi fundada em Portello, um bairro de Milão, no qual depois da primeira grande guerra, grandes clássicos foram surgindo, inicialmente de modo artesanal como a série 6C que deu origem ao clássico1930 Alfa Romeo 6C 1750 Gran Sport1930 Alfa Romeo 6C 1750 Gran Sport 1930 Alfa Romeo 6C 1750 Gran Sport1750 Gran Sporte, de 1930 e mais tarde ao AlfaRomeo 8C 2900 Mille Miglia 8C 2900 Mille Miglia, de 1938 que representam o início da empresa no mundo dos automóveis de passeio.

Na década de 1940, o sucesso da marca com automóveis esportivos chegou ao topo com o modelo 6C 2500 que chegou a ser o automóvel mais comercializado pela marca, mesmo com alas ainda destruídas pelos conflitos da segunda guerra.

Mas a Alfa Romeo não queria ser apenas uma marca de automóveis artesanais e sim uma grande empresa. Para isso, a fabricante desistiu das pistas e passou a focar todos seus esforços para um automóvel que pudesse levar a empresa a se tornar uma das maiores fabricantes da Europa. No segundo semestre de 1950, a Alfa Romeo apresenta ao mundo a série 1900, que se tornaria o símbolo de uma nova fase para a empresa. Pois além de ser um modelo totalmente novo trazia uma série de inovações nunca antes vistas em um carro da marca, como o novo e moderno motor de quatro cilindros e uma carroceria monobloco.

Você deve estar se perguntando como e porque os automóveis da Alfa Romeo vieram a ser fabricados no Brasil. Inicialmente, com controle estatal a FNM (Fabrica Nacional de Motores) que já produzia sob licença da Alfa Romeo seus caminhões, que a garantiam no top do ranking de veículos utilitários. Mas seus administradores optaram por entrar no seguimento de automóveis de luxo com um veiculo que traria o mais refinado acabamento, design alinhado com o modelo europeu e um motor de “cuore” esportivo que levaria o nome da empresa associado ao automóvel mais moderno fabricado no Brasil na época.

Mas a questão estava exatamente em como fabricar, já que a FNM não tinha nenhuma experiência em automóveis de passeio e muito menos o maquinário para produzir um modelo de luxo com toda a sofisticação de design de um Alfa Romeo. O automóvel escolhido deveria ser o que havia de melhor dentro da gama da marca italiana, para isso foi escolhido seu mais recente lançamento o Alfa Romeo 2000 apresentado em 1957 no salão de Turim como uma revolução em termos mecânicos, pois era equipado com o propulsor mais refinado entre a gama.

O motor de quatro cilindros de 1.975cc era uma versão atualizada do propulsor que equipará a série 1900. O motor era fruto de um projeto bastante moderno com características que elevaram a técnica da marca em produzir propulsores de excelente desempenho, como por exemplo, o motor 2000 que tinha eixos de comando de válvulas no cabeçote, câmaras de combustão hemisféricas, câmbio de cinco velocidades além de freios à tambores de alumínio, com aletas para melhor dissipação de calor.

Já a carroceria, exibia uma nova identidade visual da marca encomendada ao Studio Bertone que viria a se tornar a clássica dianteira de um Alfa Romeo, com faróis ovais nas extremidades, uma bela grade dianteira que era praticamente divida pelo “cuore” da Alfa Romeo outra inovação, estava nos para-lamas destacados em relação ao e o vidro traseiro envolvente que ajudava na visibilidade ao manobrar o sedan.

O interior, bastante refinado mostrava um conforto nunca antes visto em um automóvel produzido no Brasil e muito menos em seus concorrentes. O banco dianteiro inteiriço permitia ajustes de encosto independentes para motorista e passageiro, já o traseiro tinha um apoio de braço central, inovação na época.

O volante de grandes proporções trazia soluções diferentes, um aro para acionar a buzina e, no centro, o botão do relampejador de farol alto. A alavanca de câmbio de cinco velocidades na coluna de direção trazia um costume americano de guiar automóveis, mas, também estava presente em carros europeus, como os da Fiat.

O painel, bastante completo abrigava manômetro de óleo e numerosas luzes-piloto. Entre os itens de conveniência estavam luzes de leitura e cinzeiros à frente e atrás, alças de teto para os passageiros, ventilação forçada e um completo jogo de ferramentas, incluindo calibrador de pneus. O clássico velocímetro em escala horizontal, dava brilho ao painel bastante completo. Outra inovação estava na presença do conta-giros circular, primeiro automóvel nacional a ter esse instrumento que chegava ao limite de graduado até 7.000rpm.

A fabricação do FNM 2000 JK, que homenageava o então presidente da república Juscelino Kubitschek passou por uma série de problemas, pois as instalações da FNM não eram suficientes para a produção do modelo, fruto de uma decisão imposta politicamente pela fabricação de um automóvel de luxo e não uma decisão tomada por incrementar a linha da marca. A princípio, o FNM 2000 JK era montado através do sistema CDK onde todas as peças vinham importadas da Itália e eram apenas montados na fabrica da FNM em Xérem no estado do Rio de Janeiro. Mas como todos sabem, o Geia (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) propunha um índice de nacionalização progressiva ao se fabricar um automóvel no Brasil. A FNM apresentou seu luxuoso sedan em 21 de abril de 1960 na inauguração da nova capital do país. Brasília foi o palco escolhido para apresentar um automóvel que contava com o que havia de mais moderno no velho mundo para se tornar o carro mais moderno do Brasil.
A fabricação, só foi estabilizada a partir de 1962 quando a produção na Europa foi descontinuada e parte do ferramental disponibilizado foi trazido para a fabrica da FNM que permitiu refinar a linha de montagem do 2000 JK, mas mesmo assim, os índices de nacionalidade ainda eram baixos.

Com a estabilização da produção, vieram às primeiras alterações estéticas, mas o que poucos sabem é da existência delas. Com a ajuda do site alfafnm.com pude acrescentar as informações que faltavam para informá-los melhor.

Estas primeiras alterações estéticas e mecânicas, vieram em um novo modelo que como o 2000 JK adotou o nome do presidente em vigência “JANGO”, apresentado em 1962 este novo modelo veio para acrescentar ao JK uma versão top de linha.
As alterações foram concentradas na dianteira, no capô foi suprimido o ressalto central que acomodava parte do tradicional “cuore” da Alfa Romeo, ficando com o aspecto de ter sido “alisado”.

O mesmo “cuore” foi mantido, apenas teve sua posição reposicionada mais para baixo para manter o um design clean foram adotado um novo para-choques desta vez bipartido.
Mecanicamente, segundo as peças publicitárias da época foi adotada para o motor, uma carburação diferente, que seria de fabricação “WEBER”, com uma taxa de compressão aumentada gerando assustadores 160 HP.

Internamente, para acompanhar a esportividade que a FNM queria passar a seus clientes, foram utilizados detalhes de acabamento mais requintados, mas sem perder a esportividade que vinha através do volante esportivo, bancos dianteiros individuais e a alavanca do câmbio reposicionada no assoalho.

Os rumos políticos que o país tomou em 1964, com o golpe militar onde o presidente João Goulart foi deposto pelos militares afetou também o FNM 2000 JK, que teve o sobrenome JK retirado junto aos logotipos estilizados do Palácio da Alvorada.

O mercado reagiu positivamente as modificações feitas no sedan, mostrando o potencial que a marca tinha em produzir o carro mais sofisticado produzido no país, mesmo com o preço exorbitante, chegando a casa de 1,54 milhão de cruzeiros, abaixo apenas do Simca Présidence que custava 1,57 milhão e era o automóvel mais caro produzido no pais.

Essas modificações foram às únicas até 1968, pois a marca não sabia como atualizar tanto esteticamente como mecanicamente um automóvel que era tido como o suprassumo dos modelos de luxo por aqui, no mesmo ano a FNM foi comprada pela própria Alfa Romeo mostrando o interessa da marca em apostar em nosso mercado e assim alcançar uma fatia maior.

A partir da aquisição da FNM pela marca italiana, as modificações foram mais profundas a fim de manter o 2000 como o automóvel mais sofisticado e potente disponibilizado em nosso mercado. Pelo contrario, a Alfa Romeo não excluiu a FNM do mercado e sim a apresentou como sua representante oficial no Brasil elevando o nível de sofisticação e o prestígio em ter um modelo da marca.

Apostando nisso, as peças publicitárias tomaram um rumo mais glamoroso exibindo o status que era ter um veiculo com o “cuore” da Alfa Romeo, muito bem utilizado com texto publicitário que não só apresentava os dados técnicos do sedan, mas sim a tradição em produzir automóveis. Um bom exemplo disto são as primeiras campanhas de 1968.
No salão do automóvel do mesmo ano, a FNM apresentou seu novo modelo o 2150 que veio para ampliar a gama da marca e introduzir um novo padrão de design e sofisticação.
Começando pela motorização que teve sua cilindrada aumentada de 1975cc para 2132cc, com um carburador de corpo duplo dando origem ao  nome “2150” que rendia exatos 125hp.
Mas a maior novidade estava na profunda reestilização que a carroceria sofreu, com um design mais limpo, obtido pelo novo capo, o mesmo utilizado na versão esportiva TIMB passou a incorporar essa nova versão e pela ausência das luzes auxiliares arredondadas. O novo para-choque dianteiro se manteve bipartido, mas suas seções quase se encontravam no centro, sendo “cortadas” pelo “cuore” da marca. A traseira perdeu o charmoso escape embutido nas lanternas do para-choque e voltou ao lugar tradicional.
Além da nova motorização, a nova versão passa a oferecer servo-freio a vácuo e mais tarde freios a disco na dianteira melhorando a distancia de frenagem, além de alavanca de câmbio instalada no assoalho, com bancos dianteiros individuais. Os opcionais incluem rodas cromadas, vidro traseiro “ray-ban” e rádio.·.

Em 1970, o 2150 ficou alinhado a nova identidade da Alfa Romeo no exterior com um “cuore” de novo desenho que deixava mais evidente o símbolo da marca além de novos frisos na grade de ventilação, para completar o para-choque ganhou novo desenho agora contínuo e não mais bipartido e equipado com duas garras de borracha.

O interior abandonou o velocímetro linear e ganhou três mostradores circulares que deixaram o FNM mais requintado, o volante ainda permaneceu o mesmo por mais dois anos, com a concorrência chegando com Chevrolet Opala e Dodge Dart, o 2150 mostrava uma concepção já ultrapassada. No mesmo ano teve seu maior número de vendas comercializando cerca de 1.200 unidades mesmo com o alto preço de 23,9 mil cruzeiros novos mas, que eram valores abaixo de boa parte da concorrência.

Para superar os novos projetos, a Alfa Romeo trabalhava em um projeto exclusivo para nosso mercado que iria substituir o 2000 e o 2150 com um novo sedan de luxo que iria trazer inovações mecânicas, estéticas e superar o glamour da concorrência.

Mas, isso é assunto para a próxima coluna, até lá, nos veremos a bordo do novíssimo Alfa Romeo 2300.

Galeria


Fotos | Arquivo pessoal

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