Os esportivos SP1 e SP2 marcaram época com suas linhas ousadas. Devido à produção reduzida, hoje ambos são raros objetos de coleção

Alexandre Carneiro Soares (*)
Especial para o Autos Segredos

Nos anos 60 e 70, o uso dos motores Volkswagen refrigerados a ar em carros esportivos brasileiros era comum. A marca fornecia componentes mecânicos para a Puma e, associada à empresa Karmann Ghia, também alemã, produzia os belos modelos Copê e TC. Mas, ironicamente, nenhum desses carros ostentava a logomarca circular com as iniciais VW em suas carrocerias. Mas a situação não permaneceria assim por muito tempo. Em 1969, o fabricante dava início ao projeto X. O protótipo seria mostrado em 1971, em uma feira no parque do Ibirapuera, em São Paulo, e faria grande sucesso entre os visitantes.

Em 1972, o esportivo era lançado oficialmente, batizado de SP1 ou SP2, dependendo da versão. O nome seria uma homenagem do fabricante à capital paulista, mas há outra versão que diz se tratar da sigla das palavras Sport Prototype. A grande diferença entre o SP1 e o SP2 estava embaixo do capô traseiro: enquanto o primeiro era equipado com um motor de 1.584 cm³ e 65 cavalos de potência bruta (o mesmo presente em outros veículos da linha Volkswagen, como o TL e a Variant), o segundo tinha a cilindrada ampliada para 1.678 cm³, e a potência bruta saltava para 75 cavalos. Foi o maior motor refrigerado a ar oferecido pelo fabricante em sua história no país.

O chassi era outro item compartilhado com o TL e a Variant. Os esportivos tinham apenas dois lugares, mas o espaço para bagagem era amplo, graças a um porta-malas dianteiro de 140 litros e a outro traseiro de 205 litros. A carroceria era extremamente baixa, e a altura total do veículo era de apenas 1,16m. A baixa estatura fazia com que as rodas de aro 14 parecessem maiores.

OUSADOS O design era um dos elementos mais marcantes dos esportivos, e lembrava vagamente o Lamborghini Espada e o Jaguar E-Type. A dianteira assemelhava-se a outros modelos Volkswagen, mas as laterais e a traseira eram diferentes de tudo o que havia no mercado brasileiro. A linha da capota, em estilo fastback, fazia uma curva suave e combinava com as vigias laterais. Frisos de alumínio com faixas refletivas vermelhas percorrem toda a extensão do carro e integram-se às lanternas.

Havia muitos luxos ainda raros no mercado brasileiro. O interior trazia bancos esportivos, o lavador do pára-brisa era pressurizado e os limpadores tinham temporizador, sendo que haste do lado do motorista era pantográfica, para varrer uma área maior. Os quebra-ventos eram fixos, para não prejudicar a aerodinâmica, enquanto os vidros laterais traseiros basculavam para refrigerar o interior. A instrumentação era completa, com conta-giros, amperímetro, mostrador de temperatura do óleo e relógio. Os equipamentos de segurança também eram fartos, e incluíam painel em plástico deformável, encostos de cabeça e até cintos de três pontos.

Apesar dos refinamentos técnicos, o SP1 perdia em desempenho para a maioria dos automóveis da época, inclusive para o “Puminha”, que usava o mesmo propulsor. Nem mesmo o SP2, que tinha 10 cv a mais no motor, conseguia abrir grande vantagem diante da concorrência. A carroceria de aço, exatamente um dos destaques do modelo frente aos esportivos fora-de-série, fazia a relação peso/potência ficar desfavorável.

RARIDADES O desempenho no mercado também ficou muito aquém do esperado. A Volkswagen chegou a cogitar o lançamento do SP3, cujo destaque seria a adoção do motor dianteiro do Passat TS, refrigerado a água, para resolver as limitações quanto ao desempenho. Mas o modelo não passou da fase de projeto. A concessionária Dacon, de São Paulo, é que tentou levar a idéia para frente, e chegou a montar um protótipo, mas com o propulsor mantido na traseira. Entretanto, o carro nunca foi produzido em série, e a carreira dos esportivos seria breve.

O SP1 deixou de ser fabricado já em 1975, com o número impressionante de apenas 88 unidades produzidas. No ano seguinte, era descontinuado também o SP2, após 10.117 exemplares deixarem a linha de montagem. O resultado extremamente favorável à versão mais potente é um indício de que o consumidor se ressentia da performance tímida dos esportivos.

O fato de poucas unidades terem sido fabricados acabou fazendo com que hoje ambos os modelos sejam muito disputados. Aproximadamente 700 desses veículos foram exportados para o exterior. Entre os proprietários estão colecionadores e príncipes árabes. Reza a lenda que até mesmo Michael Jackson teve um SP2. A Volkswagen é dona de dois exemplares. O museu da marca em Wolfsburg, na Alemanha, conserva um SP2 em seu acervo, enquanto a sede de São Bernardo do Campo, em São Paulo, tem um SP1.

DE SÃO PAULO PARA MINAS O carro mostrado nas fotos é um SP1 ano 1974. O raríssimo esportivo pertence a um empresário de Belo Horizonte, MG, e tem menos de 50 mil quilômetros registrados no hodômetro. O veículo está impecável, e ainda exibe as chapas originais, na cor amarela. As imagens foram feitas na Praça Israel Pinheiro, mais conhecida como “Praça do Papa”, um dos cartões postais da capital mineira. O local tem forte ligação com automóveis antigos, pois é ponto de realização de vistorias para obtenção de placa preta.

FICHA TÉCNICA

Volkswagen SP1

Motor: Traseiro, longitudinal, 4 cilindros opostos, 2 válvulas por cilindro, gasolina, 1,584 cm³, potência máxima (bruta) de 65 cv  a 4.600 rpm e torque máximo (bruto) de 12 kgfm a 3.000 rpm
Transmissão: Câmbio manual de quatro velocidades, tração traseira
Direção: Setor e rosca sem-fim, mecânica
Freios: Disco na dianteira e tambor na traseira
Pneus: 185 R 14
Carroceria: Hatch, duas portas, 2 passageiros
Dimensões (metros): Comprimento 4,212; largura 1,61; altura 1,16; entre-eixos 2,4
Peso: 890 kg
Capacidades (litros): tanque de combustível: 40; porta-malas: 345 (140 + 205)

Volkswagen SP2

Motor: Traseiro, longitudinal, 4 cilindros opostos, 2 válvulas por cilindro, gasolina, 1,678 cm³, potência máxima (bruta) de 75 cv  a 5.000 rpm e torque máximo (bruto) de 13 kgfm a 3.400 rpm
Transmissão: Câmbio manual de quatro velocidades, tração traseira
Direção: Setor e rosca sem-fim, mecânica
Freios: Disco na dianteira e tambor na traseira
Pneus: 185 R 14
Carroceria: Hatch, duas portas, 2 passageiros
Dimensões (metros): Comprimento 4,212; largura 1,61; altura 1,16; entre-eixos 2,4
Peso: 890 kg
Capacidades (litros): tanque de combustível: 40; porta-malas: 345 (140 + 205)

(*)  O autor do texto é arquiteto e jornalista

Fotos Marlos Ney Vidal/Autos Segredos