Pode ser chamada de “A Meca do carro antigo no Brasil”, mas não deixa de ser a menina dos olhos de qualquer verdadeiro entusiasta
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Eduardo Zanetti
Especial para o Autos Segredos

A experiência vivida em um encontro de carros antigos é mais do que voltar ao passado e rememorar os carros que fizeram parte da nossa infância, que levaram nossos pais à igreja ou que conviviam harmonicamente com as cidades e as pessoas no tempo de nossos avós. É um voltar na história. Uma viagem no tempo, na tecnologia e nos recursos técnicos utilizados em cada época, dos carros mais simples, como os Volkswagen, aos “classudos” Mercedes-Benz, de rodar superior, chegando aos superlativos Cadillac LaSalle e Brougham e, tanto quanto estes, aos Lincoln Mark series.

Quando bem jovem, em minhas primeiras inserções neste mundo, me encantavam os Ford e Chevrolet dos anos 1920, com desenho que começava a definir a forma e a função dos automóveis, mas ainda diretamente ligado às carruagens. Era um tanto difícil, ao meu olhar pouco versado, separar as versões comuns das versões de maior luxo, tanto por estar pouco atento aos detalhes, quanto pela presença pouco expressiva, em número, destas outras versões, nos pequenos encontros que eu costumava ser levado pelo meu avô. Na maioria das vezes, a molecagem fazia um Buick dos anos 1930 ser menos interessante que um Ford A do final da década anterior.

Com o passar do tempo, os grandes ícones da indústria automotiva nacional dos anos 1970 foram tomando, em minha cabeça, o espaço dos pioneiros, de forma abrupta, pouco gentil, e até descortês, fazendo com que meu dia-a-dia fosse dominado pela busca, em qualquer estado de conservação, de exemplares de Ford Corcel, Maverick e Galaxie/Landau, Dodge Dart/Charger, Chevrolet Veraneio e Opala, além de partes remanescentes e peças, apenas pelo gosto de observá-los. E veja que isso foi muito antes de eu conseguir compreender o funcionamento de um motor.

Um dos mais queridos nacionais de todos os tempos – Chevrolet Opala
Um dos mais queridos nacionais de todos os tempos – Chevrolet Opala

Lá pelos idos de 1997 era possível, e até comum, me ver guiando uma caminhonete Ford série F, vazia ou em plena carga, pelas avenidas dos canaviais e cafezais do sul de Minas. Cruzar com as GM C-10 e C-14, totalmente operacionais, Toyota Bandeirante, as belas, robustas e funcionais Willys Rural e Ford F-75, uma infinidade de Fusca, Brasilia, Variant, Belina e Corcel e um único Dodge 1800 era o filme de época em que eu vivia.

Ainda um tanto neófito, porém bem mais versado, venho lhe dizer: se há, neste mundo, um lugar em simbiose com os veículos antigos, do chão que se pisa ao céu que se habita, da luz que permeia ao sol que se esconde, até a água que hidrata o corpo e reflete o céu, este lugar é a Praça Adhemar de Barros, em Águas de Lindoia, São Paulo.

Águas de São Pedro, também em São Paulo, foi o berçário do Encontro Paulista de Autos Antigos, depois transferido para Águas de Lindóia, com 17 edições posteriores, e hoje lotado em Campos do Jordão. Agora, a Praça Adhemar de Barros foi, de quinta-feira, 4 de junho, a domingo, dia 7, a casa do Encontro Brasileiro de Autos Antigos, já em sua segunda edição. A oportunidade de conferir tanta coisa bela em um mesmo lugar é única e, por mais que alguns carros sejam figurinhas repetidas de outros encontros, muitas vezes são figurões que merecem ser admirados pelo maior tempo possível.

lindoia_26O clima de Águas de Lindoia, uma estância termal, é ameno e, apesar do sol forte, as energias se mantém equilibradas durante a andança pela infinidade de antigos.

Convivem harmonicamente pequenos carros ingleses com gigantescos caminhões Peterbiult. Entre os peso-pesados nacionais, os Alfa Romeo/FMN são destaque absoluto.

O que mais espanta é a sorte de versões encontrada. Carros com tiragem limitadíssima e mais de 30 anos de fabricação são encontrados ali em estado de zero quilômetro.

Entre os mais antigos, um Ford A 1903, o primeiro carro produzido em série pela marca com motor de dois cilindros sob o assoalho, um Benz 1911, que pertenceu ao Cardeal Arcoverde, e um Le Zebre 1909 que, conta a lenda, apenas lenda, foi trazido pela família de Santos Dumont, faziam as vezes de diamantes aos meus olhos. Um pequenino Peugeot de cor verde gritante lembrava o automóvel usado pelo Pica-Pau Maluco dos desenhos. Um dos quatro Isotta-Fraschini totalmente operacionais que ainda existem também marcou presença, mas só até a tarde de sexta-feira.

Benz do Cardeal, que contam ter levado Washington Luís para o exílio
Benz do Cardeal, que contam ter levado Washington Luís para o exílio

Não sou dos mais isentos para falar. Um dos premiados na noite de sexta foi um Buick Eight de 1940. Merecido. Um Invicta 1959, diferente de tudo que você com certeza já viu, também ganhou medalha.

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Um estonteante e amarelo Maserati Merak estava lá para nos fazer sonhar com o berro gutural de sua usina de força a pleno vapor só que, mesmo calado, causava arrepios em muita gente. Um carro tão absolutamente fantástico que parece estar correndo à toda velocidade quando, na verdade, está calmamente repousando sobre um verde gramado.

Merak, obra-prima assinada pela Italdesign
Merak, obra-prima assinada pela Italdesign

Uma boa quantidade de hot-rods era o Santo Graal dos fanáticos por veículos modificados. Tinha gente fazendo planos de comprar um calhambeque nos Estados Unidos e vir rodando. Dou toda força! E espero que não deixem de passar pela Transamazônica no caminho para casa.

Sem querer ter fim, ainda havia um belo mercado de pulgas, com uma quantidade imensa de peças de reposição novas de estoque antigo e usadas nos mais diversos estados de conservação, souvenirs, antiguidades e objetos neoclássicos, tais quais videogames Atari, baralhos Super Trunfo, bonecos Topo Gigio, LP’s, telefones com dial rotativo e até canecas do Mickey Mouse, além de uma infinidade de quinquilharias e tranqueiras sem utilidade.

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Para quem não teve medo de ousar e levou um gordo maço de notas para gastar, objetos que sumiram totalmente do nosso cotidiano há menos de dez anos por pura inutilidade puderam ser arrematados como a maior novidade do século XXI.

E quanto aos carros? – me pergunto. Seriam os velhinhos de hoje a novidade de amanhã? Acho que não. O que nasceu para ser eterno, assim será. O que nasceu para ser imagem, plástico é.

Nas próximas semanas vou trazer a vocês um pouco da história de algumas dessas máquinas, que contam, além da própria história, um pedaço muito importante dos tempos modernos. Um abraço e até breve.

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Fotos | Eduardo Zanetti