kombi 2012Sendo bem sincero, não levei fé na notícia do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que sinalizou sobre uma medida provisória que será divulgada nos próximos dias prorrogando para 2016 a obrigatoriedade de ABS e airbags em automóveis e comerciais leves, sob a alegação de que isso acarretaria no fim de alguns modelos e, consequentemente, na demissão do excedente de colaboradores das fábricas. A notícia pegou todos, inclusive alguns fabricantes, de surpresa. Mas não o Ministro da Fazenda, Guido Mantega. Parece até que a notícia foi um vazamento…  Nós criamos uma petição para tentar barrar isso, veja aqui.

Mantega confirmou hoje a possibilidade desta obrigatoriedade ser adiada para 2016, e afirmou que “possivelmente o governo vai adiar a medida”. Agora está nas mãos da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), com quem  o governo se reunirá mais uma vez antes de dar uma posição oficial sobre o assunto, o que deverá acontecer na próxima semana, a última antes do recesso parlamentar.

kombi-traseiraO sindicato fala na demissão de 4.050 funcionários que participam direta e indiretamente da produção de Gol G4 e Kombi na fábrica de São Bernardo do Campo (SP), que, até a segunda ordem, saem de linha no final deste mês.

Interessante observar que as resoluções 311 e 312 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que determinam os ítens de segurança, estão em vigor desde abril de 2009. Por quê só lembraram destas demissões agora, aos 45 min do segundo tempo e sem direito a acréscimos?

Em 2010, 8% dos carros novos deveriam contar com airbags e ABS. A partir de 1° de janeiro de 2011 o percentual subiu para 15% e passou a 30% da produção e de projetos novos no início de 2012. Este ano 60% da produção e 100% dos projetos novos contam com eles, e por enquanto, a implementação deveria passar a ser total a partir do próximo mês.  O sindicato propõe que a obrigatoriedade na produção total passe para 70% em 2014, passando a um índice maior em 2015 e a 100% apenas em 2016.

A preocupação de Mantega, no entanto, não diz respeito a demissões. Com o ano fechando com o Brasil crescendo muito menos que o esperado, o Ministro teme pelo impacto nas vendas que o aumento de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil nos preços de carros populares, referentes aos equipamentos de segurança, podem implicar. Isso poderia ser contornado reduzindo novamente  o IPI para veículos 1.0, que, em suma, são os únicos que ainda não tem airbags e ABS de série. Mas a estratégia de baixar impostos para estimular a economia, por causa de dificuldades fiscais, foi suspensa. O máximo que poderá acontecer é o governo adiar novamente o fim do IPI reduzido, que deveria acontecer no próximo dia 31. Se adiarem, isso também acontecerá na próxima semana.

Tudo muito estranho…

Quem também se pronunciou foi o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Rafael Marques, que, em entrevista ao Uol, afirmou que Fiat e Volkswagen também queriam adiar a obrigatoriedade dos dispositivos de segurança. Justamente são as duas fabricantes que prepararam séries de despedida para seus modelos mais icônicos que estão saindo de lihha, Kombi Last Edition e Fiat Grazie Mille, que por sua vez ainda não foi lançado oficialmente, mas já é produzido.

Como pode nem o sindicato, nem a Fiat e nem a Volkswagen terem se mobilizado antes? Há meses as duas fabricantes vem anunciando airbags e freios ABS de série em versões de seus modelos, numa forma de “aumentar ainda mais  a competitividade do modelos e deixando-os ainda mais seguros”.

Após 1.200 Kombi Last Edition produzidas, cada uma tabelada em R$ 85 mil, e uma grande campanha de deslançamento, será mesmo que a Volks daria continuidada à produção dela? Ou ela oferece recompra, ou devolve uns R$ 35 mil a quem comprou, ou encara umas centenas de processos… Sem contar que não é fácil desligar uma linha de montagem, e há toda uma preparação junto aos fornecedores. Acredito que já era para Uno Mille e Kombi, e também acredito que isso não partiu das fabricantes.

A ANFAVEA não aprovou nem se opôs à possível medida provisória defendida pelo Ministro, mas garante que a iniciativa partiu do sindicato.

Também é difícil acreditar que o maior medo de Guido Mantega seja um aumento no preço dos carros. A maioria dos modelos vendidos no Brasil tem as bolsas de ar e o sistema de freios que impede o travamento das rodas entre os equipamentos de série, com alguns casos raros de versões que ainda não contam com eles, ou apenas um deles. Dos que não sairão de linha, o Renault Clio é o único sem qualquer um dos dois equipamentos, nem mesmo entre os opcionais. Parece mais um delírio que soma a outros vistos nessa desastrosa atuação no Ministério da Fazenda.

Outro ponto a ser observado é que, no cenário atual, o consumidor nem sempre tem o preço como fator decisivo de compra. Basta observar como carros baratos vem perdendo vendas com o lançamento de outros mais modernos e equipados, porém mais caros. Um bom exemplo é  o Celta, que perdeu clientes para o Onix. R$ 1 mil ou R$ 1,5 mil não é nada diante dos R$ 3,5 mil que chegava a custar a inclusão de airbags e ABS em 2009. A economia em escala veio! Os carros mais baratos, os chamados populares, são os que mais estão perdendo espaço.

A medida provisória só beneficiaria mesmo automóveis desenvolvidos na era paleozóica, como o velho Uno, a Kombi e o Gol G4 que, vale lembrar, tem muito da plataforma do Santana em seu projeto, e está fadado a ser substituído pelo up! no início de 2014. Isso sem contar que ninguém mais quer um G4, nem mesmo os concessionários, que tem medo de ficar meses com um no estoque. O pior é que o Effa M100 poderia continuar sendo vendido, assim como todos os pequenos utilitários chineses que, em sua maioria, não tem mais que o cinto de segurança.

É justo?

O que revolta em meio a tudo isso é ver que interesses cruzados valem mais do que sua segurança e sua vida. Pontos percentuais também valem mais do que empregos. Na prática, pouquíssimos não se importariam com a ausência de airbags e freios ABS em seus carros, ítens que estavam fadados a serem mais importantes que direção assistida e ar-condicionado – porque realmente são! – a partir de janeiro. Frustra ver esta possibilidade de retrocesso a dias da obrigatoriedade destes equipamentos.

E só quem um dia já foi salvo por um deles sabe que estes R$ 1 mil ou R$ 1.5 mil, que seja, valem cada centavo.

“Isso é uma vergonha” Boris Casoy

Por via das dúvidas, uma petição: http://www.avaaz.org/po/petition/Ministro_Guido_MantegaMinisterio_da_Fazenda_Nao_adie_a_obrigatoriedade_de_freios_ABS_e_airbags/?copy

Fotos | Volkswagen/Divulgação