Sobre uma nova plataforma, a M0, o hatch médio com preço de compacto está muito à frente de seu antecessor, mas mantém algumas coisas não tão boas e escorrega em outras que já havia arrumado. Nada que te impeça de olhar pra ele com muito carinho.

Novo Sandero 2015 - Dynamique 1.6 - Foto: Luiz Costa / Agência La Imagem.Por Gustavo Henrique Ruffo
Especial para o Autos Segredos

De Florianópolis (SC) – Se o Renault Sandero de primeira geração era um carro inconfundível, não se pode dizer o mesmo do que chega em julho às lojas. Com exatamente a mesma dianteira que o Novo Logan apresentou ao mercado em novembro do ano passado, será preciso esperar a traseira passar para saber se você está de olho no hatch ou no sedã. A personalidade é basicamente a única coisa que o modelo campeão de vendas da marca francesa perdeu. No restante, só se pode dizer que a evolução foi grande.

Novo Sandero 2015 - Espression 1.0 - Foto: Luiz Costa / Agência La Imagem.O que primeiro se nota é o estilo. Pode não ser original como o do antecessor, mas é bem feito, proporcional e dá ao carro um ar de maior solidez. Parece até mais compacto que o modelo anterior, mas conserva o bom entre-eixos de 2,59 m, medida de carro médio até a chegada da nova geração do Corolla ao mercado. Hoje, é medida de compacto premium, como o Nissan Versa.

Apesar de o entre-eixos ser o mesmo, o Sandero traz uma nova plataforma, a M0. É uma evolução da B0, que servia tanto a ele quanto ao Logan e que ainda está presente no Duster. Isso, segundo a Renault, representaria uma renovação total de freios, suspensão e sistema elétrico, mas, na prática, o carro parece mais do mesmo em comportamento dinâmico. Tanto com o motor 1.0 quanto com o 1.6, mas a gente chega lá.

Outra evolução notável foi no acabamento e na ergonomia. Enquanto o Sandero antigo tinha a regulagem do retrovisor elétrico embaixo da alavanca de freio de mão e um navegador ficava na frente da alavanca de câmbio, baixo demais para ser visualizado pelo motorista, o atual corrigiu essas falhas. Agora, a regulagem dos espelhos fica do lado esquerdo do painel, sob a saída de ar. O navegador subiu na vida: também está logo abaixo das saídas centrais de ar, que não são mais arredondadas, mas sim retangulares.

Novo Sandero 2015 - Espression 1.0 - Foto: Luiz Costa / Agência La Imagem.Ainda que os plásticos sempre tenham tido bons encaixes, mostrando boa construção, havia espaços grandes entre eles. O novo modelo traz folgas menores e os plásticos usa texturas mais sofisticadas, sem aquela aparência de Velotrol.

Além do navegador, o Sandero também traz mais equipamentos de série, como câmera de ré, shift-light econômico no conta-giros, para avisar o momento de troca de marchas que poupa mais combustível, sensor de estacionamento, controlador e limitador de velocidade e ar-condicionado automático, com a marcação analógica de temperaturas (por isso não é chamado de digital), mas manutenção da temperatura determinada por computador.

Em suma, o Sandero está muito mais refinado e interessante. Pelo menos na aparência.

O 1.0

Rodamos com o Sandero por estradas e ruas de Florianópolis em suas duas versões de motorização, já conhecidas dos clientes: 1.0 e 1.6. O carro será vendido em quatro versões: 1.0 Authentique, 1.0 Expression, 1.6 Expression e 1.6 Dynamique, que aposenta a Privilège como topo de linha. Curiosamente, a versão Expression terá o mesmo conteúdo, seja com motor 1.0 ou 1.6.

Andamos no Expression, mas tivemos a chance de ver um Authentique de perto. Há um aro prateado em torno da parte superior do console central, um nicho para a instalação de um rádio e um pequeno porta-objetos, abaixo dele. Todo o restante do interior é de plástico preto. A partir da versão Expression, os aros das saídas de ar e dos três relógios do painel de instrumentos são cromados. Eles fazem uma tremenda diferença e tão um toque mais sofisticado ao hatch. Todas as versões têm direção hidráulica e, portanto, volante com regulagem de altura. A regulagem de distância, especialmente para motoristas mais altos, faz uma falta danada. E não está disponível nem nas versões mais caras.

A Authentique não tem vidros nem travas elétricas. Também tem bancos dianteiros com encostos de cabeça fixos, um contrassenso, já que os encostos do banco traseiro são reguláveis. Dá uma certa tristeza ver todas as tampas plásticas que cobrem o que seriam os comandos elétricos que o carro não oferece.

Novo Sandero 2015 - Dynamique 1.6 - Foto: Luiz Costa / Agência La Imagem.Na Expression isso melhora bem. O ar-condicionado e os vidros elétricos dianteiros são de série, há iluminação no porta-luvas e no porta-malas, regulagem de altura do banco do motorista, computador de bordo, travamento automático das portas e os apoios de cabeça dos bancos dianteiros são reguláveis. Mais conteúdo, sem dúvida, mas não se nota os aperfeiçoamentos dinâmicos que a Renault diz que a plataforma M0 trouxe.

A direção ainda é algo anestesiada. Em manobras, ela mostra uma certa lentidão de resposta, mesmo com apenas 3 voltas de batente a batente. A suspensão é firme, mas não chega a dar o batente que alguns carros japoneses e coreanos apresentam e a rolagem da carroceria é mais alta do que a regulagem dos amortecedores permite supor. Nada que comprometa a rodagem, de todo modo, inclusive por conta do motor 1.0 16V.

Ele mostra boa elasticidade, ainda que, como seus companheiros de cilindrada, não tenha vigor, especialmente em subidas. Com 320 litros de porta-malas e amplo espaço interno, o Sandero 1.0 exigirá paciência de seus motoristas, mas ela será compensada por bons números de consumo. Em nossa avaliação, de cerca de 50 km, ele fez 15,3 km/l em circuito misto. Com gasolina.

Novo Sandero 2015 - Dynamique 1.6 - Foto: Luiz Costa / Agência La Imagem.

Veja também: Renault Sandero 2015 chega com preços entre R$ 29.890 (1.0 Autenthique) a R$ 42.390 (1.6 Dynamique)

O 1.6

Se a média de 11,8 km/l não é problema para seu orçamento, prefira o motor 1.6, seja na versão Expression ou na Dynamique. Nas duas o navegador e a câmera de ré são opcionais, assim como o sensor de estacionamento traseiro. Andamos em um Dynamique com os dois equipamentos. Redundantes, em nossa modesta opinião: ou compra o sensor ou compra a câmera.

Em subidas, o motor mais forte mostra que seria o ideal para equipar o Sandero. E dizemos seria porque ele é áspero, o que denuncia a idade de seu projeto. O ideal para o Sandero talvez fosse o motor 1.2 16V de três cilindros que equipa sua versão europeia, que usa o emblema Dacia. Tanto em economia quanto em suavidade de funcionamento. Ou o motor turbo TCe, também de três cilindros, mas com 90 cv, pouca coisa a menos do que o 1.6 brasileiro, que é flex.

Outra coisa que o modelo europeu tem e que poderia estar também no nacional é o sistema de fixação de cadeirinhas Isofix. Aqui, inexplicavelmente, ele não é oferecido, mas esse é um mal da maioria dos carros pequenos brasileiros, com exceção do Hyundai HB20 e do Volkswagen up!. Seria uma boa oportunidade de a Renault fortalecer sua estratégia de atenção à segurança, ainda que já tenha perdido a chance de ser pioneira nisso.

Novo Sandero 2015 - Dynamique 1.6 - Foto: Luiz Costa / Agência La Imagem.Se melhorou em muita coisa, o Sandero mantém algumas falhas do modelo anterior. Acima de 100 km/h, o barulho do ar incomoda. Dá a impressão de que há alguma falha de vedação fazendo o vento assobiar na orelha do motorista. A carroceria, que parece mais coesa, ainda traz as dobradiças do capô aparentes. Os comandos dos vidros elétricos traseiros ficam no console central, algo que o Sandero anterior já havia eliminado. Pra que regredir, não é mesmo? É uma falha menor considerando os benefícios que a mudança trouxe ao carro. E o Sandero já era um dos poucos que mereciam ser chamados de honestos pelo que custas e pelo que oferecem. Se você ainda é daqueles preconceituosos que torcem o nariz só porque o carro é “francês”, saia dessa vida. Primeiro, porque ele é romeno. Segundo, porque o prejuízo é apenas seu. Tanto na defasagem de ideias quanto na chance de pagar menos por mais.

Novo Sandero 2015 - Espression 1.0 - Foto: Luiz Costa / Agência La Imagem.(*) O jornalista viajou a convite da Renault do Brasil.

Fotos | Renault/Divulgação