Versão top de gama une mecânica convencional a visual que mistura elementos esportivos e aventureiros; no mais, modelo traz poucas diferenças em relação ao restante da linha

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Nilo Soares
Especial para o Autos Segredos

O cuidado com a aparência e com os trajes não é exclusividade das pessoas. Os carros também são “vestidos” de acordo com determinadas tendências. Alguns optam por um visual mais esportivo, outros seguem uma moda mais recente e se usam um look mais rural, que remete ao off-road.  Talvez por ter ficado na dúvida entre fazer uma versão com roupagem esportiva ou aventureira, a Volkswagen tenha decidido oferecer uma espécie de mistura das duas para o Gol. A configuração Rallye, top de linha para o modelo atualmente, mescla suspensão elevada e molduras pretas nos para-lamas (típicos dos aventureiros) com rodas aro 16” calçadas com pneus para asfalto, de perfil baixo, e spoiler traseiro (típicos de esportivos).  A ideia, como costuma acontecer nesse tipo de veículo, é conquistar o consumidor mais pela aparência que pelas características técnicas.

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No caso do Gol, o apelo é realmente visual, pois com exceção da suspensão elevada em 28 mm, não há quaisquer alterações mecânicas. O motor é o conhecido EA-111 1.6 de quatro cilindros, que na configuração atual adota o nome comercial de VHT (Very High Torque). A construção com cabeçote de alumínio, bloco de ferro fundido  e oito válvulas, com comando fixo e movimentação por correia dentada já está datada frente à maioria dos concorrentes, mas oferece algumas vantagens como fama de facilidade de manutenção e boas respostas em baixa rotação. O torque máximo de 15,4/15,6 kgfm que chega já à 2.500 rpm, associado ao baixo peso total, de apenas 1.018 kg, dá ao Rallye agilidade em arrancadas e retomadas de velocidade em baixa rotação. Em altos regimes, o propulsor perde o brilho e apresenta fôlego bem mais limitado, mas ao menos o funcionamento é sempre suave. A unidade avaliada estava equipada com câmbio manual de cinco velocidades, da família conhecida como MQ200. Presente em carros da Volkswagen no Brasil há muitos anos, essa unidade é reconhecida pelos excelentes engates, muito macios a precisos. O escalonamento é correto, sem buracos entre as marchas. A 120 km/h, o conta-giros marca cerca de 3.200 rpm, valor coerente.

SALTO ALTO A suspensão elevada cumpriu bem o papel de deixar a parte de baixo do hatch longe do chão em lombadas e entradas de garagem, em ambiente urbano, e livre de esbarrões contra o piso em vias sem pavimentação. Se a altura extra  credencia o Rallye a passar mais rápido que as outras versões em quebra-molas e imperfeições, o acerto rígido do conjunto e os pneus de perfil baixo (presentes na unidade avaliada) estimulam a transpor os obstáculos com calma. Passar por cima de ondulações em com mais pressa irá resultar em sacolejos no habitáculo. A contra-partida vem na hora de enfrentar curvas, nas quais o Gol aventureiro se comporta muitíssimo bem. A impressão é de se estar dirigindo uma versão convencional, sem aumento de distância em relação ao solo, para a qual também colabora o ajuste da direção hidráulica, que dá ao volante peso ideal em alta velocidade. Porém, como o modelo se propõe a transpor caminhos em piores condições que as demais configurações da linha, a absorção de impactos deveria ser maior.

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Quando o assunto é consumo, o Rallye faz mais bonito na cidade que na estrada. Em ciclo urbano, ele cravou médias de 9,6 km/l, que podem ser consideradas boas. Na estrada, contudo, as marcas do hatch ficaram em torno de 12,6 km/l, valor no máximo razoável considerando a cilindrada e o peso do veículo. Como é de praxe nas avaliações do Autos Segredos, o Gol foi sempre abastecido com gasolina e circulou com o ar-condicionado ligado durante a maior parte do tempo. É sempre válido lembrar que muitas variáveis interferem no consumo de um carro, tais como as condições do tráfego, as condições da via e do relevo predominante, além do estilo de condução do motorista.

NA INTIMIDADE Se por fora o traje do Gol Rallye tem estilo, ele não escapa de usar uma roupa íntima basicona. Por dentro, a versão mal se diferencia do restante da linha.  As maiores diferenças são o painel bicolor, o forro do teto negro e os bancos com tecido exclusivo e bordado alusivo à versão. O painel é inteiramente confeccionado em plástico rígido, que também está presente nas portas, porém conjugado a uma faixa de tecido. Só o aparelho de som e os comandos à sua volta exibem plástico brilhante preto. O aspecto geral é de simplicidade, mas não de desleixo, pois a unidade avaliada apresentou encaixes corretos e não revelou rebarbas entre as peças.

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A posição de dirigir é baixa, mas correta, ajudada pela coluna de direção regulável em altura e profundidade. O volante, por sua vez, tem boa pega. O banco do motorista também conta com ajuste de altura, mas a acomodação para o corpo é ruim, com assento muito curto, que deixa as coxas sem apoio, e encosto sem curvatura na região lombar. O painel com instrumentos analógicos de leitura fácil, a visibilidade é boa para frente e para os lados. As colunas traseiras largar reduzem o campo de visão para trás, mas os retrovisores bem-dimensionados amenizam esse problema. O conjunto óptico formado por faróis de parábolas duplas, faróis de milha e neblina conjugados, luz de neblina traseira e repetidores de seta nos retrovisores é eficiente, assim como os limpadores, que funcionam em silêncio e varrem boa área.

O espaço interno, razoável para um hatch compacto, é suficiente para quatro adultos de estatura média. Passageiros mais altos, contudo, não escaparão de esbarrar os joelhos nos bancos dianteiros, se esses estiverem mais recuados. Transportar três ocupantes adultos atrás também resultará em aperto.  Com 285 litros, o porta-malas tem capacidade satisfatória, mas o vão de entrada é alto, dificultando a colocação e a retirada de objetos. Além do mais, o batente, a tampa e a superfície posterior dos encostos traseiros não são forrados, deixando a lataria exposta a danos causados pela movimentação da carga.

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SÓ MODA NÃO BASTA Para fazer jus ao status de top de linha e mostrar que o visual não dispensa conteúdo, o Rallye vem razoavelmente bem equipado de série, mas não chega a impressionar ­. O hatch traz vidros, travas e espelhos retrovisores elétricos, direção hidráulica, ar-condicionado, alarme, retrovisor externo direito com efeito tilt-down e abertura elétrica do porta-malas, entre outros.  Opcionalmente, há o aparelho de som com bluetooth, CD player, MP3 player e entrada USB, associado ao volante multifuncional. Também são vendidas à parte as belas rodas de liga leve aro 16” e o revestimento em couro dos bancos, além de luz traseira de neblina e faróis com timer para desligamento.

Entre os itens de segurança, além dos obrigatórios airbags frontais e frios ABS, há apenas o encosto de cabeça central traseiro (item básico, mas ausente em muitos veículos). Não há ganchos do tipo Isofix para fixação de cadeirinhas e o cinto para o quinto ocupante é subabdominal. Tampouco são oferecidos outros equipamentos, como mais airbags ou controles eletrônicos de velocidade, sequer como opcionais. Durante a avaliação, o Gol Rallye apresentou frenagens satisfatórias, em espaços razoáveis e sem desvio de trajetória.

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ROUPA CARA A mistura de estilos faz com que o Gol Rallye seja atraente? Bem, a versão com visual chamativo tem preço sugerido de  R$ 48.350. Se o veículo for equipado com todos os opcionais, o valor sobe para R$ 52.193. Com ou sem o recheio extra, o hatch custa caro. Porém, a verdade é que as variantes aventureiras de carros compactos sempre são consideravelmente mais caras que as demais configurações, o que acaba deixando o modelo da Volkswagen dentro do contexto do mercado. Se você não resiste a um look aventureiro ou precisa de um carro mais alto para enfrentar caminhos um pouco piores, talvez o Rallye seja seu número. Se, contudo, a roupinha da moda não for prioridade em um carro, dispense os adereços off-road e pegue uma versão mais discreta, porém mais amistosa com seu dinheiro.

AVALIAÇÃO Nilo Marlos
Desempenho(acelerações e retomadas) 8 7
Consumo(cidade e estrada) 7 6
Estabilidade 8 8
Freios 8 8
Posição de dirigir/ergonomia 8 6
Espaço interno 7 6
Porta-malas(espaço, acessibilidade e versatilidade) 6 7
Acabamento 7 6
Itens de segurança(de série e opcionais) 7 8
Itens de conveniência(de série e opcionais) 7 6
Conjunto mecânico(acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 8 7
Relação custo/benefício 6 5

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, gasolina/etanol, 1.598cm³ cm³ de cilindrada, 101cv (g)/104cv (e) de potência máxima a 5,250, 15,4 kgfm (g)/ 15,6 mkgf (e) de torque máximo a 2.500 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
10,6 segundos com gasolina e 10,3 segundos com etanol

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
179 km/h com gasolina e 181 km/h com etanol

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 6 x 16 polegadas, pneus 195/50 R16 (opcionais)

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,924; largura, 1,898; altura, 1,491; distância entre-eixos, 2,467

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 55 litros; porta malas: 285 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 432 quilos; peso: 1.018 quilos

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos