Dirigibilidade do hatch ainda agrada, mas, pelo preço cobrado, configuração deveria trazer maior quantidade de itens de série: todos os equipamentos mais interessantes são vendidos à parte, como opcionais 

teste_fiat_punto_blackmotion_12Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

As versões Blackmotion são cartas que a Fiat guarda na manga para lançar quando determinados produtos já passaram da metade do ciclo de vida. Elas sempre trazem visual com um toque de esportividade e, às vezes, conteúdo mais amplo, para manter o produto combativo frente a concorrentes mais jovens. Essa fórmula, que surgiu com o finado Stilo, atualmente é aplicada ao Bravo, ao Linea e também ao Punto, alvo de nossa avaliação.

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teste_fiat_punto_blackmotion_10Para cumprir com esse objetivo, o Punto Blackmotion traz uma decoração externa semelhante à da versão T-Jet, com direito aos para-choques com tomadas de ar falsas, às molduras plásticas nos paralamas, e aos spoilers laterais e traseiro. Já a lista de equipamentos de série é completa, mas não chega a impressionar: inclui ar-condicionado, direção hidráulica, vidros elétricos nas quatro portas com sistemas one-touch e antiesmagamento, travas elétricas com acionamento automático, retrovisores elétricos, volante multifuncional revestido em couro, cruise-control, sensores de ré com visualizador gráfico, rádio CD/MP3 com entradas USB e para iPod computador de bordo, alarme e faróis de neblina. Entre os equipamentos de série, há apenas airbags frontais e freios ABS, mas airbags laterais e do tipo cortina podem ser adquiridos opcionalmente, em um pacote que custa R$ 3.530. Também são vendidos à parte itens como bancos revestidos em couro, sensores de chuva e crepuscular, ar-condicionado digital, central multimídia com tela sensível ao toque, câmera de ré, rodas aro 17” e teto solar elétrico. O preço parte de R$ 59.700, mas, com todo o recheio extra, pode chegar a exorbitantes R$ 76.973. Há também o câmbio automatizado de uma embreagem e cinco marchas Dualogic, que custa R$ 3.632 e não equipava o veículo avaliado.

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Monocromia

A decoração interna faz jus ao nome da versão e traz forrações pretas nos bancos, no painel, nas portas e até no forro do teto. Para dar um contraste, há alguns apliques metálicos e pedaleira em alumínio. Mas as diferenciações param por aí: não estão disponíveis, por exemplo, os bancos esportivos do T-Jet, com abas laterais mais largas. O padrão de acabamento é o mesmo que se vê em qualquer Punto, e isso é bom, pois o modelo tem componentes bem-encaixados e sem rebarbas. O material predominante é o plástico rígido, mas há uma faixa emborrachada no painel, e, ainda, grandes porções acolchoadas nas portas. Os pontos de luz no painel e nas maçanetas das portas, além de ajudar na localização à noite, ainda transmitem sofisticação.

Também é comum às demais versões do Punto a ótima posição de dirigir, com o volante de empunhadura perfeita e a alavanca de marchas bem próxima das mãos. A coluna de direção é ajustável em altura e profundidade, e o banco do motorista também tem regulagem de altura. A única falha fica por conta do assento curto, que não apoia completamente as coxas. O acesso aos comandos do painel é sempre fácil, e o painel, completo, com direito a termômetro de água (item que vem, aos poucos, sendo engolido pela economia de escala); mas o conta-giros e o velocímetro poderiam ser maiores, para proporcionar leitura mais clara.

teste_fiat_punto_blackmotion_19O espaço interno do hatch da Fiat, por outro lado, é limitado. Quatro ocupantes viajam sem problemas, mas, com cinco a bordo, há bastante aperto. O ponto positivo é que, mesmo com lotação máxima, todos irão contar com a proteção dos encostos de cabeça, embora haja apenas quatro cintos de segurança de três pontos. Na unidade avaliada, havia um agravante: o teto solar, que rouba espaço entre a capota e o forro, reduzindo a altura útil para as cabeças de motorista e passageiros. O porta-malas, que tem 280 litros, tampouco se destaca em capacidade. Além do mais, a tampa tem batente muito alto, o que prejudica a colocação e a retirada da bagagem, e o banco traseiro bipartido, inacreditavelmente, não é item de série, e sim opcional.

Movimento negro

A Fiat lança mão de um coringa para mover o Punto Blackmotion: o 1.8 16V da linha E-torQ (na verdade, a cilindrada é de 1747 cm³), que equipa vários outros modelos nacionais da marca. Entre as características construtivas, há um comando de válvulas único, bloco confeccionado em ferro fundido e cabeçote em alumínio. Enquanto no Jeep Renegade esse propulsor já conta com algumas atualizações (entre as quais um variador de fase), toda a linha Fiat segue sem essas benfeitorias. Nem mesmo o tanquinho de gasolina foi abolido. Todavia, há de se destacar que esse motor traz algumas soluções interessantes, como corrente de acionamento, que substitui a temida correia dentada. E os valores de potência e torque máximos são coerentes para a cilindrada: 132 cv com etanol e 130 cv com gasolina, a 5.250 rpm, e 18,9 kgfm e 18,4 kgfm a 4.500 rpm, com os dois combustíveis, respectivamente.

teste_fiat_punto_blackmotion_28Em movimento, o hatch mostra as qualidades e os defeitos já conhecidos do 1.8 16V E.torQ. Entre os pontos positivos, está a suavidade de funcionamento, mesmo em rotações elevadas. Entre os negativos, está a conhecida queda de rendimento em giros mais baixos, mais precisamente até  2.500 rpm. Todavia, há uma diferença crucial em relação a outros modelos equipados com esse propulsor: o peso. Com 1.222 kg de massa corporal, os números de potência e torque são capazes de dar ao Punto Blackmotion um desempenho interessante. A performance não chega a ser esportiva, mas é bastante consistente dentro do segmento.  Se o motorista trabalhar bem o câmbio e mantiver as rotações em regimes intermediários ou elevados, haverá sempre respostas ágeis. Por falar em câmbio, na unidade avaliada, ele era manual de cinco velocidades, com características de manuseio já conhecidas de outros modelos da marca italiana: os engates são macios, porém um tanto imprecisos, devido ao curso longo demais da alavanca. O escalonamento também deixa um pouco a desejar, devido à presença de um “buraco” entre a segunda e a terceira. As demais marchas têm relações longas, mas corretas, e, a  120 km/h, o tacômetro registra 3.100 rpm. Já os freios, com discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, cumprem bem a função, mas sem brilho.

O acerto de suspensão continua constituindo a jogada mais bem-sucedida do Punto. Tudo bem que ele não é mais referência na categoria, como era em 2007, quando foi lançado: de lá pra cá, hatches mais modernos como o Ford (New) Fiesta e o Peugeot 208 ofuscaram um pouco o brilho do Fiat nesse aspecto. Contudo, se não é mais o melhor da classe, o modelo da Fiat ainda está bem acima da média. O conjunto, composto pelo tradicional esquema independente do tipo McPherson na dianteira e semi-independente por eixo de torção na traseira, tem um ótimo compromisso entre conforto e estabilidade. Nas curvas, o Blackmotion custa a desgarrar da trajetória, apresentando comportamento subesterçante só no limite da aderência. E, embora seja firme o bastante para impedir rolagem exagerada da carroceria em curvas, a suspensão não chega a ser dura a ponto de fazer os ocupantes sacolejarem. Muito pelo contrário: há absorção da maior parte das imperfeições do solo, evitando cansaço mesmo em vias malconservadas. Trata-se de um carro capaz de arrancar um sorriso do motorista naquela estradinha serrana, sem deixá-lo de mau-humor ao passar sobre uma valeta ou uma lombada. A direção também merece elogios. Embora seja hidráulica, e não elétrica, como em projetos mais recentes (da própria Fiat, inclusive), ela tem grande progressividade,  garantindo leveza em manobras e firmeza em alta velocidade.

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Se em comportamento dinâmico o Punto Blackmotion se deu bem, em consumo ele não chegou a se destacar. Abastecido com gasolina, ele obteve médias de 9,0 km/l em percursos urbanos e de 11,7 em deslocamentos rodoviários. Como de praxe, destacamos que gasto de combustível está relacionado a muitas variáveis, como o relevo, as características das vias, as condições do tráfego e o estilo de condução do motorista.

Oferta de equipamentos não justifica preço

Reveladas todas as características do hatch, é chegada a hora de saber se ele dá jogo. Apesar da idade um tanto avançada (estamos falando de um projeto que já atinge a marca de oito anos no Brasil), o Punto ainda é um competidor respeitável, com habilidades destacáveis principalmente em dirigibilidade e em acabamento interno. Todavia, a cartada da série Blackmotion não é tão certeira como a Fiat espera. Isso porque o preço de compra (que, relembrando, é tabelado em R$ 59.700) salta aos olhos, ao contrário dos equipamentos de itens de série, que não vão além do lugar comum. Afinal, todos os itens que poderiam constituir um diferencial em relação à concorrência são vendidos como opcionais. É até compreensível que recursos com custo de produção mais alto, como teto solar e airbags laterais e do tipo cortina sejam oferecidos à parte, mas cobrar adicionalmente por pormenores disponíveis, inclusive, em carros de classes inferiores, como central multimídia, ar-condicionado automático e até banco traseiro bipartido, é injustificável. Também fazem falta o controle de estabilidade e os ganchos padrão Isofix para fixação de cadeirinhas, que simplesmente não são oferecidos. Sem a juventude (mecânica e projetual) dos rivais e sem uma oferta de conteúdo capaz de destacá-lo no segmento, a versão avaliada não cumpre a função de manter o compacto de origem italiana competitivo na mesa de apostas do mercado.

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AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 8 8
Consumo (cidade e estrada) 7 7
Estabilidade 8 8
Freios 7 8
Posição de dirigir/ergonomia 9 9
Espaço interno 7 7
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 6 7
Acabamento 8 8
Itens de segurança (de série e opcionais) 7 7
Itens de conveniência (de série e opcionais) 7 7
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 8 8
Relação custo/benefício 6 7

FICHA TÉCNICA

»MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.747 cm³ de cilindrada, com diâmetro de 80,5 mm e curso de 85,8 mm, 130cv (g)/132cv (e) de potência máxima a 5.250 rpm, 18,4 kgfm (g)/ 18,9 mkgf (e) de torque máximo a 4.500 rpm

»TRANSMISSÃO
Tração dianteira e câmbio manual de cinco marchas

»ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
9,9 segundos com gasolina e 9,6 segundos com etanol

»VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
190 km/h com gasolina e 193 km/h com etanol

»DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

»FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS

»SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira semi-independente, por eixo de torção

»RODAS E PNEUS
Rodas em liga leve 6.5 x 17″, pneus 205/50 R17 (opcionais)

»DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,065; largura, 1,727; altura, 1,497; distância entre-eixos, 2,510; altura em relação ao solo, 153 mm; peso, 1.222 quilos

»CAPACIDADES
Tanque de combustível: 60 litros; porta-malas: 280 litros; carga útil (passageiros e bagagem), 400 quilos

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos