Híbrido está de malas prontas para o Brasil, mas ainda não foi lançado. Muito econômico e pouco poluente, modelo é gostoso de dirigir, mas dependerá de incentivos fiscais para ser competitivo

Assim como as pessoas, os automóveis também têm personalidades distintas. Alguns são pacatos demais, outros são extremamente racionais. Há aqueles que ostentam, os que chamam a atenção e os divertidos. O Prius é um modelo que sofre de dupla-personalidade: por um lado, é engajado na sustentabilidade e na utilização responsável dos recursos naturais, com baixos índices de consumo e emissões de poluentes. Por outro, sabe como se comportar quando o motorista pede um pouco mais de emoção, com respostas ágeis do acelerador e direção firme.  Está longe de ser um esportivo, tampouco tem tal pretensão. Mas engana-se quem pensa que ele não sabe empolgar.

Um dos maiores diferenciais do Prius é a mecânica, composta por um motor a gasolina, com quatro cilindros,  1.8 litro e 16 válvulas. Os pistões trabalham de acordo com o ciclo Atkinson, enquanto nos automóveis convencionais os propulsores giram segundo o ciclo Otto. O segundo proporciona maiores potência e torque, mas o primeiro obtém vantagem substancial em economia de combustível, motivo pelo qual foi escolhido para equipar o híbrido. O bloco entrega 98 cv de potência a 5.200 rpm e 14,5 kgfm de torque a 4.000 rpm . Esses valores seriam insuficientes para empurrar os 1.805 quilos de massa do modelo, mas o propulsor a combustão não está sozinho: há também um motor elétrico de 650 Volts e corrente trifásica, capaz de gerar 40 cv e 21,1 kgfm de torque, ambos contínuos e disponíveis já a 1 rpm. A Toyota ainda não informa a potência e o torque máximos combinados, que são sempre um pouco inferiores à soma total dos números. As baterias que alimentam o bloco elétrico são carregadas automaticamente durante as frenagens e o sistema start-stop faz com que ele funcione sozinho em situações onde o motorista aciona de leve no acelerador, como em manobras ou quando se trafega por declives. Quando se pisa um pouco mais fundo, o propulsor a gasolina entra em ação de forma automática e quase imperceptível, sem trancos. O Autos Segredos já descreveu com mais detalhes o sistema híbrido; veja aqui.

O desempenho do Prius é bastante satisfatório. Lembra o de um sedã médio tradicional com motor 1.8 ou 2.0, mas tem a vantagem de entregar muita força em qualquer rotação, mérito que vai para o motor elétrico, mas também para o câmbio CVT, continuamente variável e muito confortável. Não há as chamadas marchas virtuais, como em algumas transmissões de concepção semelhante, de modo que também não é possível fazer trocas manualmente. Mas o comportamento do modelo pode ser alterado por meio de duas teclas no painel: Power, que prioriza o desempenho, tornando as respostas mais ágeis, e Eco, que dá ainda mais ênfase à economia de combustível, em detrimento da performance. Há ainda a função EV, que deixa apenas o motor elétrico em movimento. Contudo, o recurso pode ser acionado apenas em baixas velocidades e por no máximo 1 km.

PÃO DURO A essa altura, você deve estar se perguntando se na prática o Prius é realmente econômico. A resposta é sim. O modelo da Toyota mostra a que veio quando se avalia o consumo. Nossa pior marca foi de 18 km/l e a melhor chegou aos 23 km/l. Curiosamente, o veículo costuma obter melhores marcas no trânsito urbano, onde o motor elétrico pode trabalhar sozinho por mais tempo. Mas ele bebe pouco em qualquer situação. Alguns instrumentos do painel, que mostram o consumo e a carga da bateria, também colaboram para a obtenção dos bons números, orientando o motorista a conduzir de modo a evitar despedício de combustível.

A suspensão do Prius, do tipo McPherson na frente e eixo de torção atrás, tem concepção tradicional, sem arroubos de tecnologia. O híbrido ainda está passando por ajustes antes de ser lançado, de modo que a unidade avaliada repete o mesmo acerto empregado nos países do primeiro mundo, e não aquele que será aplicado aos veículos que chegarão às lojas brasileiras. Como está, o conjunto transmite bastante estabilidade nas curvas: a carroceria inclina pouco e os pneus só começam a desgarrar quando há bastante abuso. Contudo, o motorista paga o preço quando passa por pavimentação irregular (bastante comum por aqui) , com transferência das imperfeições para os ocupantes e ruídos. Além do mais, a altura do solo mais baixa que a dos modelos já tropicalizados faz com que a dianteira toque o chão com facilidade em entradas de garagens e desníveis. Tais inconvenientes, contudo, deverão ser sanados antes do lançamento. Também contribui para o equilíbrio do modelo a boa calibragem da direção elétrica. Com grande progressividade, transmite firmeza em alta velocidade e maciez em baixa.

O Prius é um carro diferente também em relação à estética. A carroceria transmite certo futurismo, com uma silhueta fluida, sem volumes definidos. Pode não agradar a todos, mas não se discute que o resultando é um veículo com bastante personalidade.  O habitáculo repete a fórmula da carroceria, com linhas pouco convencionais. O acabamento não chega a ser luxuoso, mas é bem cuidado e superior ao da maioria dos automóveis nacionais, com peças caprichosamente encaixadas e texturas agradáveis mesmo nos componentes confeccionados em plástico rígido. Há couro nos bancos e em porções das portas. Chamam a atenção o console central flutuante e a manopla de câmbio de cor azul, com um ar de nave espacial, que divide opiniões.

BEM APROVEITADO Tanto na frente quanto atrás, os vãos para a cabeça e as pernas abrigam com conforto até os passageiros mais altos. O espaço é superior ao da maioria dos sedã médios e os ocupantes têm a impressão de que o Prius é ainda mais amplo, graças ao para-brisa muito recuado e ao emprego de revestimentos de cores claras. O carro transmite a sensação de ser maior do que realmente é, pois as dimensões externas não são exageradas: a carroceria mede 4,46 metros de comprimento, 1,74 m de largura e  1,51 m de altura. A distância entre-eixos é ampla, com 2,70 m. A ergonomia é satisfatória; os instrumentos digitais em posição central causam estranhamento à primeira vista, mas os dígitos são grandes e em pouco tempo o motorista se familiariza com eles. A posição de dirigir é convencional e correta, sem desconfortos. A visibilidade também agrada, no que diz respeito ao para-brisa e aos espelhos retrovisores. O vidro traseiro bipartido às vezes  atrapalha, mas há veículos que tem carrocerias tradicionais, com apenas um vidro traseiro, e obtém resultados piores. Vale destacar o auxílio dos sensores de estacionamento.

O porta-malas tem razoáveis 445 litros de capacidade. O compartimento é um tanto raso, devido à acomodação das baterias sob o carpete, mas as medidas longitudinal e transversal são amplas. A bagagem fica escondida por uma espécie de lona, que pode ser enrolada em um rolete logo atrás do encosto do banco, liberando espaço vertical. O sistema sugere certa fragilidade, mas a verdade é que não apresentou qualquer tipo de problema durante o teste e se mostrou muito prático. A tampa traseira é enorme e abre um grande vão de acesso, facilitando a retirada e a colocação de objetos.

Como o Prius ainda não foi oficialmente lançado no Brasil, não há divulgação de listas de equipamentos de série e opcionais. Porém, as unidades destinadas à venda não deverão sofrer grandes mudanças em relação àquelas importadas para testes da marca e avaliações da imprensa.  A unidade cedida pela Toyota ao Autos Segredos dispunha de pacote de segurança completo, com airbags frontais, laterais e do tipo cortina, além de freios ABS, que transmitiram confiança, imobilizando o veículo com muita eficiência.

NÃO TEM PREÇO É difícil falar em custo benefício a respeito de um produto que ainda não tem preço. Afinal, para definir até que ponto um carro é bom, é preciso saber quanto ele custa. Por esse motivo, deixamos o item em questão sem nota em nosso quadro. Contudo, é possível antever que, em termos de negócio, o Prius não se destacará. Ainda que a Toyota consiga incentivos fiscais junto ao governo federal, o preço de tabela deverá beirar os R$ 100 mil. E a manutenção promete ser um capítulo à parte, pois o sistema híbrido é uma incógnita até para os mecânicos acostumados a lidar com veículos sofisticados. Sob tais ângulos, o modelo parece ser um enorme desafio comercial para o fabricante, principalmente após a alta do IPI para importados. Mas é verdade que ele demonstrou ser um ótimo companheiro no dia-a-dia. Consumidores que conseguirem unir consciência ecológica a um salário mais gordo terão no Prius uma opção de compra válida. Com a vantagem da amortização de parte do desembolso na hora de abastecer.

Avaliação Alexandre Marlos
Desempenho(acelerações e retomadas) 

 

8 8
Consumo(cidade e estrada) 

 

10 10
Estabilidade 

 

9 8
Freios 

 

9 9
Posição de dirigir / Ergonomia 

 

8 7
Espaço interno 

 

9 10
Porta-malas(espaço, acessibilidade e versatilidade) 

 

8 8
Acabamento 

 

9 7
Itens de segurança(de série e opcionais) 

 

8 9
Itens de conveniência(de série e opcionais) 

 

7 8
Conjunto mecânico(acerto de motor, câmbio, 

suspensão e direção)

9 8
Relação custo/benefício 

 

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FICHA TÉCNICA

Motores: Gasolina, dianteiro, transversal, 4 cilindros em linha, 4 válvulas por cilindro, 1.798 cm³, potência máxima de 98 cv a 4.000 rpm e torque máximo de 14,5 kgfm (gasolina) a 4.000 rpm.
Elétrico, dianteiro, transversal, 650V e corrente trifásica, potência máxima de 40 cv a 1 rpm e torque máximo de 21,1 kgfm a 1 rpm.

Transmissão: Câmbio automático CVT, tração dianteira

Aceleração  até 100 km/h (dado de fábrica): 10,4 segundos

Velocidade máxima (dado de fábrica): 180 km/h

Direção: Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica. Freios: Discos na dianteira e na traseira, com ABS e EBD e sistema de frenagem regenerativa

Pneus: 195/60 R15

Carroceria: Hatch, cinco portas, cinco ocupantes

Dimensões (metros): Comprimento: 4,46; largura: 1,74; altura: 1,51; entre-eixos: 2,70; peso: 1.805 kg

Capacidades (litros): tanque de combustível: 45; porta-malas: 445

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

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