Hatch médio de origem francesa tem carroceria atual e muitos equipamentos de série por preço competitivo na categoria, mas conjunto mecânico não mostra sintonia. Chegada do motor THP e do câmbio de seis marchas deverá dar novo ânimo ao modelo

Quando um fabricante opta por renovar determinado automóvel, há dois caminhos que podem ser seguidos: o primeiro é manter algumas das características do antecessor, desenvolvendo um projeto que, apesar de inédito, gera rápido reconhecimento do consumidor. A segunda opção é partir para uma alteração radical, sem vínculos com o modelo que veio antes. Nesses casos, até o nome comercial costuma ser alterado. Após o convívio com o 308, ficou muitíssimo claro que a estratégia da Peugeot ao concebê-lo foi evoluir, e não revolucionar, em relação ao 307. A decisão da marca francesa resulta em vantagens, mas também acarreta alguns revezes.

O design é um dos elementos que explicita o parentesco com o antecessor. Vários elementos de estilo, como os faróis alongados e o bocão formado pela tomada de ar do para-choque dianteiro, estão lá. O 308, contudo, parece mais dinâmico, graças às linhas musculosas e às proporções ajustadas: em relação ao 307, o modelo atual é mais baixo e largo . O interior segue pelo mesmo caminho, com um painel mais ousado, porém com algumas soluções comuns ao antecessor, entre as quais o quadro de instrumentos com quatro mostradores circulares. Visualmente, parece que a Peugeot acertou em cheio ao desenvolver seu novo hatch médio.

HERANÇA DE FAMÍLIA As semelhanças com o 307, contudo, mostram-se indesejáveis quanto ao conjunto mecânico. Está lá o mesmo propulsor 2.016V flex de 151/143 cv e 22/20 mkgf, com etanol e gasolina, na ordem, com bloco de ferro fundido e cabeçote de alumínio, acionado por correia dentada, com comandos de válvulas fixos,enquanto o de admissão é variável. Poderiam ter sido adotados  alguns dos aperfeiçoamentos presentes nas versões 1.6, como o sistema de partida a frio sem tanquinho, mas seria injusto classificar o motor como ruim: embora não tenha recebido aprimoramentos, ele continua funcionando de modo suave e apresentando bons números de potência e torque para a cilindrada.  O problema maior está no câmbio automático, que também foi herdado do antecessor e é o único oferecido na versão Feline.

A transmissão, além de dispor apenas quatro velocidades, não tem programação capaz de “entender” com clareza as vontades do motorista, hesitando em realizar as trocas nos momentos desejáveis. Quando se dirige o 308, é bastante perceptível a falta de sintonia entre motor e câmbio. O propulsor mostra competência para empurrar o hatch, com bom rendimento, melhor em alta rotação, mas satisfatório em baixa.  Porém, como a caixa tem número de marchas limitado, a potência e o torque não são bem aproveitados, pois as relações longas fazem o giro cair excessivamente nas trocas. A favor, destacam-se a operação sem trancos, as funções Sport (que prioriza a performance) e inverno (que faz o veículo sair em segunda marcha, para evitar perda de aderência) e a possibilidade de manuseio sequencial, porém apenas com toques na alavanca, pois não existem borboletas no volante.

NO POSTO As rugas do conjunto mecânico fazem-se mais perceptíveis na hora de abastecer. Na estrada, com gasolina no tanque, o 308 não chegou a fazer feio, com médias de 10,5 km/l. Porém, na cidade, as marcas foram ruins, sempre em torno dos 6,5 km/l. Curiosamente, os números obtidos com etanol foram apenas um pouco mais baixos: 9,5 km/l e 6,0 km/l, respectivamente. O rendimento proporcionalmente melhor pode evidenciar ênfase da engenharia da Peugeot na utilização do combustível vegetal, mas também é possível se tratar de uma coincidência, pois vários fatores influem no consumo de um veículo, como a topografia e o traçado das vias, o tipo de condução, etc.

O sistema de suspensões é outro item compartilhado com o finado 307, com conjuntos McPherson na frente e eixo rígido atrás. A calibragem é rígida, com nítido privilégio do comportamento dinâmico em relação ao conforto. Em pisos desnivelados, sente-se bastante a transferência  das imperfeições para o habitáculo, característica para a qual contribuem os pneus de perfil baixo, nas medidas 225/45 R17. Por outro lado, o hatch demonstra ótima estabilidade, encarando curvas com segurança mesmo quando há algum abuso. A calibragem da direção também contribui para o equilíbrio. A assistência, do tipo eletro-hidráulica, consegue proporcionar boa progressividade, deixando o volante leve em manobras e firme em alta velocidade.

NA MÃO O 308 é um hatch gostoso de dirigir. O motorista logo encontra uma boa posição, pois o banco acomoda bem o corpo e tem regulagem de altura, assim como a direção, ajustável ainda em profundidade. Os pedais estão bem posicionados, assim como o volante, que peca apenas em relação ao diâmetro, grande demais. A visibilidade é ótima tanto para frente quanto para os lados, mas deixa a desejar para trás, pois o vidro posterior é estreito e as colunas laterais, largas. Ao menos os retrovisores são bem dimensionados e há sensores de ré. Os faróis são eficientes e têm acionamento automático, assim como os limpadores, que se mostraram silenciosos e capazes de varrer uma grande área, mas o mecanismo desagradou ao permitir acúmulo de água no para-brisa quando as palhetas trabalhavam em velocidade máxima.

O interior do modelo de origem francesa é muito agradável. O acabamento é bom, com material emborrachado no painel e sem rebarbas aparentes, embora tenhamos encontrado alguns encaixes desnivelados nas peças que emolduram o aparelho de som e os comandos do ar-condicionado. Também notamos um ruído proveniente da porta do motorista. Na frente, mesmo pessoas bem altas desfrutam de acomodações adequadas. Atrás, não há tanta folga, mas dois adultos de estatura mediana conseguem encontrar espaço suficiente para a cabeça e as pernas, sem raspões. O porta-malas tem a maior capacidade declarada da categoria: segundo a Peugeot, o compartimento acomoda 430 litros de bagagem, volume comparável ao de alguns sedãs. O vão de entrada é largo, mas a base é mais alta que o desejável, atrapalhando um pouco o acesso. Característica comum entre os hatches é a possibilidade de rebatimento total do banco traseiro, ampliando ainda mais a área destinada à carga.

GENEROSO Ao contrário do que costuma acontecer no mercado, o 308  foi lançado por valores semelhantes àqueles que eram cobrados pelo antecessor 307. Isso dá ao hatch francês um bom argumento para conquistar o consumidor. A versão  top Feline, testada pelo Autos Segredos, é tabelada em R$ 65.990 e inclui entre os itens de comodidade, ar-condicionado automático digital com duas zonas de temperatura e difusores traseiros, computador de bordo, para-brisa acústico, cruise control, travas e vidros elétricos com sistema um toque e sistema antiesmagamento, retrovisores externos com ajuste e rebatimento elétricos, alarme, cruise-control, rádio/CD Player com conexão USB para iPod/MP3 player e bluetooth e revestimento em couro nos bancos e no volante. Há ainda o teto panorâmico Cielo: confeccionado em vidro, ele não abre, mas ocupa toda a parte superior da capota, proporcionando ambiente agradável tanto para os ocupantes da frente quanto para os de trás. Uma persiana enrolável, com acionamento elétrico, ameniza o clima se a incidência de raios solares incomodar. O único opcional é o GPS com tela retrátil integrada ao painel, ao custo de R$ 2 mil.

O pacote de segurança também é amplo. O 308 vem de série com airbags frontais, laterais e de cortina, controles eletrônicos de tração e estabilidade, luzes diurnas de LEDs e faróis e lanterna de neblina, além de freios a disco nas quatro rodas com ABS, AFU e REF, que demonstraram grande eficiência durante a avaliação. No banco traseiro, os três passageiros contam com cintos de três pontos e encostos de cabeça, mas faltou o sistema Isofix para fixação de cadeirinhas.

TROCANDO EM MIÚDOS Em um segmento dominado por concorrentes consolidados, como Hyundai i30 e Ford Focus, o hatch médio da Peugeot aparece como uma opção consistente. Ele derrapa em alguns aspectos, como o câmbio, mas procura compensar os pontos fracos com a extensa lista de equipamentos de série, associada a um preço bastante competitivo em relação aos rivais. A estratégia de oferecer mais por menos não é nova, mas continua sendo bastante vantajosa para o consumidor. Contudo, se a ideia for adquirir a versão top, é melhor esperar antes de fechar o negócio: no Salão do Automóvel de São Paulo, marcado para o próximo dia 24, a Peugeot apresentará o Feline equipado com o motor THP (Turbo High Pressure) de 165 cv de potência e 24,5 mkgf de torque, associado ao câmbio automático de seis marchas. Os preços da novidade ainda não foram anunciados, mas deverão sofrer aumento pequeno. A julgar pelo bom resultado que o bloco sobrealimentado alcança sob o capô do sedã 408 (que também está sendo testado pelo Autos Segredos), o 308 ficará imensamente melhor.

Avaliação Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 8  7
Consumo (cidade e estrada) 6  6
Estabilidade 8  8
Freios 8  8
Posição de dirigir / Ergonomia 8  9
Espaço interno 7  7
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 9  9
Acabamento 9  9
Itens de segurança (de série e opcionais) 8  8
Itens de conveniência (de série e opcionais) 9  8
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7  6
Relação custo/benefício 7  7

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1997 cm³ de cilindrada, 143cv (g) a 6.250 rpm / 151cv (e) a 6.000 rpm de potência máxima, 20,0 kgfm (g)/ 22,0 kgfm (e) de torque máximo a 4.000 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio automático sequencial de quatro marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
10,5 segundos com gasolina e 9,9 segundos com etanol

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
199 km/h com gasolina e 206 km/h com etanol

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência eletro-hidráulica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira, com ABS, AFU e REF

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio 6 x 17, pneus 225/45 R17

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,276; largura, 1,815; altura, 1,498; distância entre-eixos, 2,608

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 60 litros; porta malas: 430 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 368 quilos; peso: 1.387 quilos

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

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