Motor eficiente e bom padrão de acabamento são outros pontos altos do Peugeot 3008; modelo entrou de vez na onda dos SUVs, mas suspensão é voltada para o asfalto 

Por Alexandre Soares

Na geração anterior, o 3008 misturava algumas características de monovolume e outras de SUV. Era, portanto, um legítimo crossover, conceito que consiste em mesclar propriedades de veículos de categorias distintas. O problema é que mercados do mundo inteiro estão consumindo cada vez menos representantes do primeiro segmento citado, ao passo que os do segundo estão em alta. Por isso, a atual geração ficou mais utilitária, com direito a suspensão elevada e carroceria com dois volumes bem-definidos. Inicialmente, isso me deixou desconfiado, afinal, poderia ter arruinado uma das características mais agradáveis do modelo francês: a habitabilidade. Felizmente, tal temor não se confirmou, pois o interior permanece bastante agradável.

Geração antiga

Na geração anterior, o interior do 3008 já tinha um aspecto interno meio futurista, com direito a um head-up display que remetia a uma mira de avião de caça e a uma botoeira no console central também inspirada em comandos aeronáuticos. O primeiro elemento foi suprimido, mas o segundo se manteve. O acabamento é um dos destaques a bordo. Além de superfícies emborrachadas, o painel e as forrações das portas contam com apliques de tecido, iluminados por LEDs à noite, ao passo que os bancos e os apoios de braço são todos em couro.

Instrumentos digitais

O painel, por sua vez, ganhou vincos e curvas, além de um cluster posicionado acima do volante, e não dentro do aro do componente, como já ocorre nos modelos 208 e 2008. A diferença é que, aqui, não há mostradores analógicos, e sim uma tela inteiramente digital, de 12,3 polegadas, que oferece três tipos de visualização: pode mostrar todos os instrumentos, na opção “clássico”, apenas o velocímetro, na “mínimo”, ou ainda “pessoal”, que pé configurável. O sistema é intuitivo e fácil de ler; nossa única crítica vai para o fato de o velocímetro e o conta-giros girarem em sentidos opostos na configuração clássica, o que dificulta a leitura.

A posição elevada dos instrumentos, assim como em outros modelos da Peugeot, força a utilização de um volante bastante pequeno. Essa solução não traz prejuízo à ergonomia, mas faz com que pequenos movimentos provoquem um esterçamento maior, característica para a qual também colabora a relação direta da caixa de direção. Isso não chega a ser um defeito, mas requer alguma adaptação por parte do condutor. A visibilidade é boa e, para trás, onde o campo visual é mais restrito, uma câmera de ré faz a diferença em manobras.

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Conforto em viagens

A coluna de direção ajustável em altura e em profundidade e o banco com regulagem de altura ajudam a encontrar a posição ideal para dirigir. Só o motorista conta com ajustes elétricos e memória, mas os dois ocupantes da frente gozam de massageadores, instalados no encosto das poltronas, que funcionam por meio da insuflação de pequenas bolsas de ar, com cinco diferentes programas de atuação. Nós fizemos uma viagem de aproximadamente 1.000 km, considerando ida e volta, a bordo do 3008, e pudemos, literalmente, sentir na pele que uma massagem na coluna faz toda a diferença quando se passa longos períodos dentro do veículo.

Multimídia

Nesse percurso, anda foi possível conhecer a fundo o sistema multimídia de entretenimento, com tela de oito polegadas sensível ao toque, que se conecta ao celular por meio das plataformas Android Auto, Apple Car Play e Mirror Link. Os menus são intuitivos e de fácil de operação, mas há apenas uma entrada USB. Também aprovamos os faróis, que são do tipo Full-LED, com luzes diurnas integradas e regulagem automática de altura de facho, e proporcionam excelente iluminação. O conjunto óptico fica devendo somente o facho direcional em curvas. A viagem foi feita apenas com duas pessoas a bordo, mas havia lugar para outros três ocupantes com conforto, pois o banco traseiro é largo e tem bons vãos para pernas e cabeças. Ali, ainda há difusores de ar-condicionado dedicados. O porta-malas, de 520 litros, também é bastante amplo.

Mecânica sem ousadias, mas eficiente

Se por dentro o 3008 exibe muitas soluções originais, embaixo do capô ele traz um conjunto já bastante conhecido. Isso não é ruim, pois o motor 1.6 THP (Turbo High Pressure), com turbocompressor e injeção direta de combustível, ainda é bastante atual. Bloco e cabeçote são confeccionados em alumínio, e o acionamento das válvulas se dá por meio de corrente metálica. Ao contrário dos modelos Peugeot fabricados no Brasil e na Argentina, no SUV esse propulsor não tem sistema flex. Assim, são 165 cv de potência a 6.000 rpm e 24,5 kgfm de torque entre 1.400 e 4.000 rpm, sempre com gasolina. Já o câmbio é automático de seis velocidades, fornecido pela Aisin, mas a Peugeot informa que ele está uma geração à frente do que equipa os “irmãos” feitos na América do Sul.

Nos dias atuais, 165 cv já não parecem muito, principalmente em um SUV médio. Porém, não se engane: o conjunto mecânico proporciona um desempenho muito interessante. Na cidade, sobra agilidade para transpor ladeiras ou para arrancar à frente de outros veículos no sinal, para mudar de faixa, por exemplo. Na estrada, o modelo têm fôlego de sobra em ultrapassagens e em subidas de serra. Isso ocorre devido a dois fatores: primeiro, porque ao contrário do que seu visual sugere, o 3008 não é tão pesado assim, considerando seu porte: são 1.567 kg, cerca de 100 kg a menos que a geração anterior, graças à utilização da plataforma EMP2 (Efficient Modular Plattform 2), que usa aços leves e de ultra-resistência. Segundo, porque o torque máximo chega cedo e se mantém constante durante uma ampla faixa de rotações. Os freios, com discos nas quatro rodas, entregam resultados à altura da performance do motor.

Consumo

No 3008, o bom desempenho não implica em consumo elevado. Em nossas aferições, o modelo cravou exatos 9,5 km/l no ciclo urbano e 12 km/l no rodoviário. São bons números para um SUV médio. Como o tanque tem 53 litros de capacidade, a autonomia chega a 636 km.

Direção e suspensão

A central eletrônica do câmbio também colabora tanto para o desempenho quanto para a eficiência energética: esperta, ela faz mudanças de marchas nos momentos certos. Se o motorista quiser, pode operar a caixa sequencialmente, por meio de paddle-shifts no volante. Em qualquer modo de utilização, as trocas são suaves. Por sua vez, a direção elétrica revela acerto igualmente bem-feito, e apresenta grande progressividade, de modo a deixar o volante leve em manobras e firme em alta-velocidade. O bom isolamento acústico mantém o nível de ruído baixo a bordo. Todas essas características, somadas à suavidade do propulsor THP, fazem do 3008 um carro bastante agradável de dirigir.

A arquitetura da suspensão, também tradicional, com sistemas independente McPherson na dianteira e semi-independente por eixo de torção na traseira, é o único item que merece algumas ressalvas. A calibragem é voltada para a utilização em asfalto, no qual o veículo agrada principalmente no quesito estabilidade: apesar da carroceria de altura elevada, ele transmite muita segurança em curvas de diferentes raios. Por outro lado, em vias de pavimentação irregular, os ocupantes são submetidos a alguns solavancos. Essa situação se agrava em estradas de terra, nas quais o conjunto suspensivo mostra-se barulhento e incapaz de absorver as imperfeições do solo. Os pneus de perfil baixo (235/50 R19) também não encorajam incursões off-road.

Conteúdo de série é ponto alto

O 3008 é vendido no Brasil apenas na versão Griffe, com pacote único de equipamentos. De série, além dos itens já citados ao longo do texto, há ar-condicionado automático com duas zonas de temperatura, carregador sem fio para celulares, teto solar panorâmico elétrico, chave presencial com botão de partida, controlador e limitador de velocidade, alarme, rodas de liga leve de 19 polegadas, faróis e limpadores com acionamento automático e sensores de estacionamento dianteiros e traseiros. O pacote de segurança é formado por seis airbags (frontais, laterais dianteiras e de cortina), controles eletrônicos de estabilidade e tração, assistente de partida em rampas, faróis de neblina em LED com função cornering, ganchos Isofix para fixação de cadeirinhas infantis, freios ABS com EBD e REF.

Preço

O 3008 tem preço sugerido de R$ 135.990 e oferece três anos de garantia. Dentro da categoria na qual está inserido, trata-se de um valor competitivo, considerando o nível de equipamentos, o acabamento e o conjunto mecânico. Ainda assim, suas vendas devem permanecer discretas: ele sequer figura no ranking dos 50 veículos mais vendidos no país divulgado pela Fenabrave. Isso se deve, em parte, ao fato de o modelo ser fabricado França e trazido em quantidades reduzidas, mas também à rejeição que os consumidores brasileiros têm aos veículos franceses, principalmente nos segmentos mais sofisticados.  Porém, analisando-o como produto, trata-se de uma opção muito interessante. Como a desvalorização é maior nos primeiros anos, o SUV da Peugeot pode ser uma opção válida para consumidores que permanecem por mais tempo com seus carros.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 8 9
Consumo (cidade e estrada) 8 8
Estabilidade 8 8
Freios 8 9
Posição de dirigir/ergonomia 9 9
Espaço interno 9 9
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 10 10
Acabamento 10 10
Itens de segurança (de série e opcionais) 8 9
Itens de conveniência(de série e opcionais) 9 9
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 8 9
Relação custo/benefício 7 8

 

Ficha técnica

» MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina, 1.598 cm³ de cilindrada, sobrealimentado com turbocompressor, 165 cv a 6.000 rpm de potência máxima, 24,5 kgfm de torque máximo de 1.400 a 4.000 rpm.

» TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio automático sequencial de seis marchas

» ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h 
Não informada pelo fabricante.

» VELOCIDADE MÁXIMA 
Não informada pelo fabricante.

» DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica.

» FREIOS
Discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira, com ABS.

» SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira, semi-independente, eixo de torção, com barra estabilizadora.

» RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio de 19 polegadas, pneus 235/50 R19.

» DIMENSÕES 
Comprimento, 4,447 metros; largura, 1,906 m; altura, 1,625 m; distância entre-eixos, 2,675 m; peso, 1.567 quilos.

» CAPACIDADES
Tanque de combustível: 53 litros; porta malas: 520 litros.

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos