Apesar do apelo off-road, perua derivada do Fox é mais competente no asfalto. Ela tem espaço interno bem aproveitado e boa dirigibilidade, mas preço de tabela é elevado demais

Até o fim da década de 1990, as peruas eram os carros preferidos das famílias brasileiras. Todos os fabricantes estabelecidos no Brasil dispunham de pelo menos uma representante da classe no mercado e, não raro, as stations vendiam mais que seus irmãos sedãs (caso da Palio Weekend com o Siena e da Parati com o Voyage). A partir da virada do século, as preferências do consumidor mudaram e as peruas começaram a sofrer sucessivas perdas de espaços para os monovolumes e sobretudo para os SUVs. Alguns nomes mais que consolidados, como Quantum e Fielder, desapareceram.  Na tentativa de reverter o jogo, surgiram os modelos aventureiros, que incorporaram elementos dos veículos fora de estrada, como suspensão elevada e molduras protetoras. A SpaceFox, da Volkswagen, foi a última a aderir à moda campestre.

Rebatizada de Space Cross, ela foi lançada tardiamente, há cerca de um ano, mas rapidamente se tornou a versão mais vendida da gama. Assim como ocorre com as rivais diretas, a versão aventureira é a mais cara e seu preço esbarra no de veículos de classe superior. Uma unidade com câmbio manual e pintura sólida, exatamente como a que avaliamos, custa R$ 54.644. Durante a estadia no Autos Segredos, o modelo demonstrou ter seus encantos, mas o valor se revelou alto demais para uma perua compacta, ainda que top de linha.

MECÂNICA O conjunto mecânico da Space Cross é formado pelo motor 1.6 conhecido como EA-111 e batizado mercadologicamente como VHT (Very High Torque). Trata-se de um bloco com fama de longevidade e baixa manutenção, mas incapaz de esconder as rugas diante da concorrência. O cabeçote tem oito válvulas, sem variação de comandos, e movimentação por correia dentada. A potência é de 101 cv com gasolina e 104 com etanol, sempre a 5.250 rpm, valores satisfatórios considerando a cilindrada e o número de válvulas. O maior destaque, contudo, é o torque de 15,4/15,6 kgfm a 2.500 rpm, que faz jus à sigla citada há pouco.

Na cidade, a perua demostra muita agilidade, mas seria injusto dar todo o mérito ao propulsor. Boa parte do crédito vai para o câmbio de cinco velocidades, que tem relações curtas, favorecendo a utilização urbana. Ademais, os engates são muito bons, macios e bastante precisos. Na estrada, contudo, o conjunto mecânico revela limitações. A quinta marcha curta eleva as rotações em velocidades mais altas, aumentando a rumorosidade dentro do habitáculo. Ao menos o propulsor não revela asperezas nos regimes mais elevados. Contudo, é nítida a queda de rendimento a partir das 3 mil rpm, quando o motor começa a perder o fôlego. Se a SpaceCross estiver carregada, tal característica fica mais evidente.

A suspensão da Space Cross é independente do tipo McPherson na frente e semi-independente atrás, com eixo rígido.  Em relação ao restante da linha, a versão aventureira foi levantada em 33 mm no eixo dianteiro e em 35 mm no traseiro. Apesar da diferença relativamente pequena, a altura em relação ao solo se mostrou bastante adequada para transpor obstáculos urbanos, como quebra-molas e rampas de garagem inclinadas. A perua também encarou estradas de terra sem raspões na parte inferior, embora o acerto tenha se mostrado duro nesse tipo de situação, transferindo parte das imperfeições do solo para os ocupantes.   Ocorre que o fabricante optou por manter uma calibragem mais firme, com molas e amortecedores menos elásticos. Embora tenha deixado um pouco a desejar em vias rurais, o ajuste agradou no asfalto,  proporcionando rodar confortável e estável: o controle direcional em curvas é muito bom para um veículo elevado. A direção hidráulica também joga no time da dirigibilidade, entregando peso correto em alta velocidade, embora pudesse ser um pouco mais leve em manobras. Os pneus convencionais, e não de uso misto, são o indício definitivo de que a Volkswagen priorizou o comportamento em vias pavimentadas.

BOA DE GUIAR A condução da Space Cross se revela agradável, com boa acomodação frente aos pedais e ao volante, que tem boa pega. A direção ajustável em altura e profundidade, contudo, é vendida como opcional. Ao menos a regulagem de altura do banco do motorista é de série. A posição ao dirigir, herdada do irmão Fox, é um pouco mais elevada que a dos veículos convencionais. Aliás, todos os ocupantes se sentam em posição mais vertical, como no hatch, o que colabora para aproveitar melhor o espaço interno. Embora a station tenha dimensões externas contidas, há espaço suficiente para as cabeças e as pernas de quatro adultos. Há muitos nichos para acomodação de objetos a bordo, inclusive porta-garrafas e mesinhas do tipo avião para os passageiros de trás. O acesso aos comandos e a visualização do painel é satisfatória, assim como a iluminação. A área envidraçada é grande e os retrovisores são bem dimensionados, proporcionando ótima visibilidade para todos os lados. Os bancos se mostraram confortáveis durante o teste, sendo que o revestimento em couro, que equipa a unidade avaliada, também é vendido como opcional.

O acabamento interno, relatado com detalhes em outro post (veja aqui), revela discrepância. No habitáculo, o resultado é satisfatório: os plásticos do painel e das forrações das portas, embora rígidos, são bem arrematados e apresentam texturas agradáveis. Mas no porta-malas, o modelo deixa a desejar, com lataria exposta tanto na tampa do porta-malas quanto na parte posterior dos encostos dos bancos traseiros. Com o tempo, o transporte de malas e outros objetos fatalmente resultará em marcas nas peças sem proteção. O mesmo tende a ocorrer com as laterais do compartimento, que são revestidas em plástico, ao invés de carpete. Contudo, quando o assunto é versatilidade, o bagageiro agrada. A capacidade é de 430 litros, mas graças ao sistema de deslizamento do banco traseiro, o número pode ser ampliado para 527 litros. Pena que esse item também seja opcional… Se os assentos forem rebatidos e a cobertura retirada, chega-se ao máximo de 1.385 litros. O vão de abertura é enorme e permite a entrada de objetos grandes.

Um dos pontos mais criticáveis da Space Cross durante o teste foi o consumo de combustível elevado. Nas várias medições, a perua não passou de 7,0 km/l na cidade e 10 km/l na estrada, sempre abastecida com gasolina. São marcas incompatíveis para um motor 1.6 sem toques de esportividade. E olha que a perua nem é pesada a ponto de justificar a gastança, registrando contidos  1.184 kg na balança.

A lista de equipamentos de conveniência da Space Cross inclui de série ar-condicionado, quatro vidros elétricos, chave com telecomando para abertura das portas e do porta-malas, alarme com imobilizador e direção hidráulica, entre outros pormenores.  O rádio CD Player com leitor MP3, vinculado a comandos no volante, bluetooth e entradas USB e para I-Pod, é um item vendido à parte, assim como as já citadas regulagens da direção e de deslizamento longitudinal do banco traseiro, vinculadas a um pacote batizado de “Módulo Funcional III”  e do revestimento interno em couro. É pouco considerando o preço do modelo.

No que diz respeito aos itens de segurança, a situação da perua melhora, mas ainda existe margem para ressalvas. Há encostos de cabeça para todos os ocupantes, porém o cinto de segurança central-traseiro é abdominal, e não de três pontos. Também fazem falta em um veículo com proposta familiar os ganchos para fixação de cadeirinhas (Isofix). Os airbags frontais são de série, assim como os freios ABS, que atuam em conjunto com discos na dianteira e tambores na traseira. O sistema, apesar de não impressionar do ponto de vista técnico, se revela bem dimensionado e imobiliza o veículo com eficiência. Quanto à iluminação externa, nada a reclamar: há repetidores de seta laterais, luzes de neblina na frente e atrás e faróis de longo alcance. O conjunto óptico dianteiro possui parábolas duplas para os fachos baixo e alto e também demostrou bom resultado.

SALGADA Após o teste, ficam duas certezas. A primeira, que a Space Cross é um automóvel interessante e agrada principalmente pela versatilidade. A segunda, que a Volkswagen cobra muito caro por ela, conforme já havia sido mencionado. O valor de R$ 54.644, que sobe para R$ 57.178 se o comprador quiser o câmbio automatizado i-motion, não se justifica no conjunto mecânico ou na lista de itens de série. Ao menos uma das questões não tardará a ser solucionada: os motores EA 211, com cabeçote 16V e outras melhorias em relação ao EA 111, já estão sendo testados pelo fabricante no Brasil (veja aqui).  A atualização no propulsor será muito bem vinda, mas deverá vir acompanhada de uma ampliação do pacote de equipamentos para manter a perua competitiva frente aos crossovers, que apesar de se mostrarem inferiores em quesitos como aerodinâmica e dirigibilidade, seguem em franco crescimento no mercado nacional.

Avaliação Alexandre Marlos
Desempenho 

(acelerações e retomadas)

7 8
Consumo 

(cidade e estrada)

5 6
Estabilidade 

 

7 7
Freios 

 

8 7
Posição de dirigir/ergonomia 

 

8 9
Espaço interno 

 

8 7
Porta-malas 

(espaço, acessibilidade e versatilidade)

9 9
Acabamento 

 

7 6
Itens de segurança 

(de série e opcionais)

8 7
Itens de conveniência 

(de série e opcionais)

6 6
Conjunto mecânico 

(acerto de motor, câmbio, suspensão e direção)

7 8
Relação custo/benefício 

 

5

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, gasolina/etanol, 1.598cm³ cm³ de cilindrada, 101cv (g)/104cv (e) de potência máxima a 5,250, 15,4 kgfm (g)/ 15,6 mkgf (e) de torque máximo a 2.500 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
11,8 segundos com gasolina e 11,5 segundos com etanol

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
175 km/h com gasolina e 177 km/h com etanol

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 6 x 15 polegadas, pneus 205/55 R15

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,187; largura, 1,680; altura, 1,591; distância entre-eixos, 2,469

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 50 litros; porta malas: 430 a 527 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 446 quilos; peso: 1.184quilos

 

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

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