Top de linha da marca italiana no Brasil tem comportamento típico de carro familiar norte-americano; espaço e equipamentos de segurança de destacam, mas desempenho e consumo poderiam ser melhores

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Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

O Freemont é uma espécie de filho adotivo quando comparado aos demais membros da família Fiat. Grandalhão e espaçoso, ele é um típico modelo familiar ao estilo norte-americano, enquanto os “irmãos” – mesmo os desenvolvidos no Brasil, como Uno e Palio – exibem com orgulho certas referências da escola italiana. Isso não acontece por acaso: é que o Freemont é de fato um carro de origem estadunidense, basicamente um Dodge Journey com emblemas da marca italiana. Por aqui, os dois se diferenciam também pela mecânica: enquanto o primeiro é oferecido apenas de um 2.4 16V de quatro cilindros, o segundo é equipado unicamente com um 3.6 V6. Os dois propulsores, inclusive, são oferecidos no Journey vendido nos EUA. O objetivo de oferecer o mesmo produto com motorizações e denominações distintas faz parte da estratégia comercial para diferenciá-los por aqui, pois na maioria dos outros mercados, eles não convivem mutuamente. Feitas essas considerações, é hora de começar a conhecer a fundo o filho adotivo da Fiat.

teste_fiat_freemont_20O motor 2.4 que equipa o Freemont, maior diferencial em relação ao irmão Journey, tem características atuais, como bloco e cabeçote confeccionados em alumínio, 16 válvulas com acionamento por corrente e comandos  de admissão e de escape com geometria variável. A potência  é de 172 cv a 6.000 rpm, e o torque, de 22,4 kgfm a 4.500, mas a Fiat informa que 75% desse total estão disponíveis já a 1.300 rpm. Os números, portanto, são um tanto discretos para a cilindrada, mas desde o ano passado, o câmbio automático tem seis velocidades, o que ajuda a explorar melhor  o propulsor. Essa caixa opera com suavidade e mostra escalonamento longo, mas correto: a 120 km/h, o tacômetro marca 1.800 rpm. Ainda assim, não espere bom desempenho do modelo: o conjunto mecânico não consegue fazer milagre e mostra-se no limite para empurrar  os elevados 1849 kg de peso do crossover. A calibração eletrônica faz o que pode e, a qualquer pisada um pouco mais funda no acelerador, a central já reduz uma ou até duas marchas, para dar alguma agilidade ao veículo. Ainda assim, acelerações e retomadas são um tanto lentas, e em rotações mais elevadas, o propulsor revela algumas asperezas.

GRANDALHÃO PACATO Os demais componentes do Freemont reforçam esse comportamento pacato, que aliás, é coerente em um carro com proposta familiar. A suspensão, composta por conjuntos independentes do tipo McPherson na frente e multilink atrás, têm ajuste mais macio, voltado para o conforto. Assim, o crossover filtra com eficiência as imperfeições do solo. Só não isola melhor o habitáculo dos solavancos porque os pneus de perfil baixo (225/65 R17) copiam as emendas na pista. A direção, com assistência hidráulica, também é bastante leve, mas mostra boa progressividade e apresenta firmeza em alta. A estabilidade é boa, em especial para um veículo de altura elevada, mas convém não abusar: em algumas situações, o modelo apresentou comportamento subesterçante, e em outras, mostrou-se sobreesterçante, o que pode surpreender o motorista.

teste_fiat_freemont_12O consumo mostrou-se elevado: na cidade, o Freemont cravou médias em torno de 5,9 km/l. Na estrada, a marca geral foi de 8,1 km/l. Um dos vilões, sem dúvida, é o elevado peso do modelo. Esses números foram obtidos com gasolina no tanque, até porque esse é o único combustível que o crossover aceita, pois não há sistema flex. Uma ressalva: o computador de bordo informa o gasto de combustível em litros a cada 100 km, e não em km por litro, como é padrão no Brasil. Como sempre, lembramos que o consumo de um automóvel está subordinado a vários fatores, como as características das vias, o relevo e o estilo de condução do motorista.

teste_fiat_freemont_4Por dentro, o Freemont também é tipicamente norte-americano. A posição de dirigir é relaxada e elevada, mas ergonômica, ajudada pelo volante – que por sinal tem boa empunhadura – regulável em altura e profundidade e pelo banco, também ajustável em altura. Mas há dois deslizes: o primeiro fica por conta do freio de mão, que na verdade é acionado com o pé, por meio de uma alavanca instalada à esquerda dos pedais (recurso comum em veículos provenientes dos EUA). Essa peça fica muito perto do mecanismo de abertura do capô, e assim, é preciso intimidade para não abrir acidentalmente o cofre dianteiro após estacionar o veículo, algo que, inclusive, aconteceu durante o teste. O segundo é a ausência de um mecanismo interno para abrir a portinhola do tanque de combustível: a tampa do reservatório é trancada com chave, e como o crossover dispõe de sistema de partida por botão, é preciso tirar a lâmina da chave presencial e entregá-la ao frentista na hora de abastecer. A visibilidade é boa para a frente e para os lados, mas bastante ruim para trás; felizmente, os espelhos retrovisores são bem-dimensionados e ainda há uma câmera de ré. Os faróis, embora sejam halógenos, de dupla parábola, iluminam bem, e os limpadores varrem boa área.

SETE A BORDO O espaço interno, sem dúvida, é um dos maiores atributos do Freemont. Cinco ocupantes adultos sentam-se com conforto, e, se for preciso transportar mais gente, há ainda dois assentos extras. Eles não são tão confortáveis quanto os demais, mas conseguem acomodar duas pessoas de média estatura sem aperto em excesso. A capacidade do porta malas, com a terceira fileira rebatida, é de ótimos 580 litros. Mas há um porém: o compartimento não tem cobertura, deixando os objetos visíveis e vulneráveis à ação de ladrões. Seria interessante adotar um anteparo retrátil, como o da Trailblazer, por exemplo. Há uma infinidade de porta-copos e outros objetos espalhados pelo habitáculo. Porém, aí surge um outro problema: os nichos localizados no console central deixam chaves e outros objetos muito quentes, o que indica isolamento térmico deficiente sobre o túnel central. Por outro lado, o isolamento acústico agradou, pois o habitáculo é silencioso. No mais, o acabamento está no nível que se espera para um automóvel da categoria, com materiais emborrachados no painel e nas portas, que ainda contam com fartas porções de couro. Os encaixes também são caprichados.

teste_fiat_freemont_6O pacote de itens de conforto do Freemont é bastante completo. A versão top de linha Precision, avaliada, vem de série com ar-condicionado digital com três zonas de temperatura, computador de bordo, alarme, banco do motorista com ajustes elétricos, revestimento interno em couro, cruise-control, central multimídia com rádio CD/MP3/USB/AUX/DVD, navegador GPS, câmera de ré, viva-voz Bluetooth e tela de 8.4 polegadas sensível ao toque, retrovisor interno eletrocrômico e externos rebatíveis eletricamente, sistema de monitoramento da pressão dos pneus e teto solar, entre outros. Entre os itens de segurança, há airbags frontais, laterais e do tipo cortina, ganchos Isofix para fixação de cadeirinhas, encostos de cabeça ativos e controles eletrônicos de tração, estabilidade, anti-capotamento e de reboque,  além do obrigatório sistema ABS de freios, com EBD e BAS.

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BEM-INSERIDO A versão Precision tem preço sugerido de R$ 103.950. Além dela, há também a básica Emotion, tabelada em R$ 96.530. As duas se diferenciam, principalmente, pelo número de assentos (sete na primeira e cinco na segunda, além da presença de alguns equipamentos. Os valores de ambas não são exatamente baixos, mas são bastante competitivos dentro do segmento de crossovers: modelos menores, como CR-V, RAV-4 e Ix35 estão na mesma faixa. E, no caso específico da configuração top de linha, o modelo da Fiat se diferencia pela capacidade de transportar maior número de pessoas. Ele também é mais potente, mas isso acaba não se traduzindo em desempenho superior, em virtude do peso mais elevado. De qualquer modo, trata-se de de um filho que pode até ser adotivo, mas que complementou muito bem a família da marca italiana no Brasil, atuando com competência em um segmento que, até pouco tempo atrás, era ocupado só pela concorrência.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho(acelerações e retomadas)  6 7
Consumo(cidade e estrada)  5 6
Estabilidade  7 8
Freios  8 8
Posição de dirigir/ergonomia  8 8
Espaço interno  10 9
Porta-malas(espaço, acessibilidade e versatilidade)  9 9
Acabamento  8 8
Itens de segurança(de série e opcionais)  9 8
Itens de conveniência(de série e opcionais)  8 8
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção)  7 7
Relação custo/benefício  7 7

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FICHA TÉCNICA
MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 2.360m³ de cilindrada, 16 válvulas, gasolina, 172 cv de potência a 6.000 rpm e 22,4 kgfm de torque a 4.500 rpm.

TRANSMISSÃO
Tração dianteira e câmbio automático de seis marchas.

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h 
12,9 segundos (dado de fábrica).

VELOCIDADE MÁXIMA 
190 km/h (dado de fábrica).

DIREÇÃO
Tipo pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica.

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e sólidos na traseira, com ABS, EBD e BAS.

SUSPENSÃO
Dianteira independente, McPherson, com braços oscilantes inferiores transversais e barra estabilizadora; traseira, independente, multilink, com barra estabilizadora.

RODAS E PNEUS
Rodas em liga leve 7 x 19 polegadas; pneus 225/55 R19.

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,888; largura, 1,878; altura, 1,750; distância entre-eixos, 2,890.

CAPACIDADES
Tanque, 77,6 litros; porta-malas, 580 litros, carga útil (passageiros e bagagem), 531 kg; peso, 1849 kg.

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Fotos | Leonardo Silva/Especial para o Autos Segredos