Alterações do hatch para economizar combustível, embora pequenas, surtem efeito. O problema é a escassez de equipamentos de série em relação ao preço de tabela

Na Europa, sempre vanguardista em termos de sustentabilidade ambiental, versões ecológicas de automóveis estão longe de constituir novidade. Por lá, várias marcas oferecem veículos verdes, unindo índices baixos de consumo e de emissões de poluentes. Se considerarmos também os híbridos e os elétricos, o menu aumenta ainda mais. No contexto brasileiro, apenas três fabricantes nacionalizaram produtos mais eficientes energeticamente: a Fiat lançou Mille e Uno Economy, a Peugeot atacou com o 207 Blue Lion e a Volkswagen disponibilizou Gol, Voyage, Fox e Polo Bluemotion, além do Gol Ecomotion. A fórmula das três marcas é semelhante e consiste na adoção de uma série de pequenas mudanças mecânicas, mas sem grandes doses de tecnologia, que somadas acabam beneficiando a economia de combustível.

No Brasil, o desafio para desenvolver as chamadas linhas ecológicas é grande. A começar pela fonte energética: enquanto em outros países esses veículos são geralmente movidos a diesel, por aqui eles têm necessariamente que consumir gasolina ou etanol, os únicos combustíveis liberados por lei para mover os carros de passeio. Além do mais, o projeto não pode acarretar muitos custos, pois não há incentivos fiscais para a comercialização dos veículos verdes e o preço para o consumidor não pode elevar-se demais. Assim, tecnologias como injeção direta e sistema start-stop acabam ficando de fora. Nesse contexto contraditório e conturbado, o Fox Bluemotion mostrou resultados coerentes, com preço viável e consumo acima da média, embora ainda muito distante dos primos europeus.

ALTERAÇÕES PONTUAIS, EFEITO GENERALIZADO Para obter melhores índices de consumo, a Volkswagen manteve o foco em três questões básicas (para saber mais detalhes, leia o post específico sobre o assunto aqui). Primeiro, melhorou a aerodinâmica, por meio da redução do coeficiente de arrasto e da área frontal, graças ao desenvolvimento de novas tomadas de ar e calotas. Depois, alongou gradativamente as relações de cada marcha do câmbio: a quinta das versões 1.6 tradicionais é 29% mais curta e, com a marcha em questão engatada, a 120 km/h, o Bluemotion registra apenas 2.500 rpm no conta-giros, o que acaba beneficiando também o silêncio a bordo. Por fim, o modelo adotou pneus de baixa resistência à rodagem, com medidas distintas do restante da linha Fox (175/70 R14), que reduziram em 23% o atrito contra o solo.

Como os pneus verdes são mais duros e ainda são calibrados com maior pressão, a versão ganhou amortecedores levemente mais macios, para que o conforto ao rodar não fosse prejudicado. Porém, mesmo assim há transmissão de imperfeições do solo para o habitáculo, quando se trafega em piso irregular. No mais o conjunto de suspensão é exatamente o mesmo encontrado nos outros membros da família Fox, com sistema independente do tipo McPherson na frente e semi-independente atrás, por eixo de torção.  O conhecido motor 1.6 não sofreu quaisquer alterações. Tem cabeçote de oito válvulas sem variação de comandos e movimentação por correia dentada, com potência de 101 /104 cv a 5.250 rpm e torque de 15,4/15,6 kgfm a  2.500 rpm, com gasolina e etanol, na ordem. A direção também não foi alterada e curiosamente continua contando com assistência hidráulica, quando o sistema elétrico seria mais indicado para a proposta de baixo consumo do modelo.

Mas e então, as modificações surtiram efeito? Bem, o consumo do Bluemotion ficou em torno de 15,5 km/l na estrada e 12 km/l na cidade, sempre com gasolina. São números bem superiores em relação aos que costumamos obter em nossas avaliações, mas há de se salientar que a unidade cedida pela Volkswagen não dispunha de ar-condicionado, o que acabou gerando alguma distorção nos resultados. É que o padrão adotado pelo Autos Segredos consiste em realizar a maioria das medições com o aparelho de refrigeração ligado, o que certamente teria feito com que os índices piorassem.  Como o acionamento do ar-condicionado geralmente implica no gasto de 10% a mais de combustível, é possível estimar que a versão verde do Fox provavelmente teria obtido boas marcas mesmo se dispusesse do equipamento, embora só um teste possa eliminar totalmente as dúvidas nesse sentido.

TROCA DE PRIORIDADES Conforme já explicamos em outro post específico (veja aqui), ao priorizar a economia de combustível, o fabricante acabou alterando alguns aspectos comportamentais do Fox. Uma das mudanças mais perceptíveis é a piora na dirigibilidade. Afinal, a redução de atrito dos pneus verdes é notada não apenas no momento de abastecer o veículo, mas também durante a condução. Nas curvas, a versão ecologicamente correta não demora a perder aderência. Ele não chega a ser instável e se mostrou sob controle durante todo o período de convivência conosco, graças em parte ao acerto da suspensão, que se manteve firme, mas é bom saber que há menos tolerância a abusos que nos irmãos convencionais.

Nas frenagens, os pneus voltam a lembrar ao motorista a respeito do grip reduzido e há ocorrência de algum arrasto mesmo com a atuação do ABS, com resultados que não conseguem ir além do razoável. É aceitável, considerando a proposta da linha Bluemotion, que sejam feitas algumas concessões em prol da eficiência energética. Contudo, a segurança dos ocupantes não pode ficar em segundo plano; fica a dica para que a Volkswagen estenda as alterações da linha ecológica também ao sistema de freios, adotando, por exemplo, discos e tambores mais parrudos. Afinal, tais mudanças seriam simples e baratas, mas podem fazer a diferença em situações de emergência.

Em termos de desempenho, o Bluemotion assemelha-se aos irmãos nas boas respostas em baixa rotação, com muita disposição para encarar o trânsito urbano. Porém, na estrada, nota-se perda de ânimo com as relações alongadas da transmissão, prejudicando as retomadas de velocidade. Por outro lado, os engates do câmbio são tão macios quanto precisos, fazendo com que a tarefa de reduzir as marchas não seja nenhum martírio. Também agrada a posição de dirigir, centralizada e ergonômica. O volante tem boa pega, mas peca ao não dispor de regulagens de altura e profundidade. A calibragem do sistema hidráulico é precisa: oferece boa progressividade, com firmeza em alta velocidade e leveza em manobras.

HABITÁCULO CONHECIDO O interior do Fox Bluemotion é agradável e apresenta poucas alterações em relação ao restante da linha. As únicas diferenças são formadas pela troca dos tecidos e a introdução de um econômetro à tela de cristal líquido entre o velocímetro e o conta-giros, que ajuda o motorista a dirigir poupando combustível. O quadro de instrumentos proporciona boa leitura e é completo. A visibilidade é muito boa para frente, mas as colunas frontais de base alargada atrapalham um pouco o campo lateral. Para trás, a visão não chega a ser ótima, mas é boa, ajudada pelos espelhos retrovisores corretamente dimensionados. Os bancos oferecem acomodação satisfatória para as pernas e seguram bem o corpo em curvas, mas poderiam ter apoio mais pronunciado na região da lombar. Vale destacar que o do motorista tem regulagem de altura Os faróis de dupla parábola iluminam muito bem e os limpadores atuaram corretamente, varrendo boa área e em silêncio.

O acabamento do habitáculo é satisfatório para a categoria, com bons arremates e sem rebarbas aparentes. Os plásticos que revestem todo o interior são rígidos, como é comum no segmento, mas os tecidos dos bancos e das forrações laterais, apesar de sintéticos, são agradáveis ao toque. No porta-malas, o modelo deixa a desejar, com lataria aparente em quase toda a face interna da tampa e no batente da mesma. O compartimento, porém, é prático, pois conta com grande vão de abertura e ainda tem o auxílio do deslizamento do banco traseiro. O recurso, que é vendido como opcional, pode fazer com que o volume de carga chegue aos 353 litros, sendo que em posição normal, o valor é de 260 litros. Se ainda assim o espaço não for suficiente, é possível ampliar o bagageiro por meio do rebatimento dos bancos.

Por falar em espaço, o habitáculo é bem aproveitado, com muitos porta-objetos e boas acomodações para motorista e passageiro frontal. Atrás, ninguém raspará a cabeça no teto, graças às acomodações mais verticais para os ocupantes, porém o vão para as pernas não é tão amplo e pode incomodar as pessoas mais altas. Porém, quem tem estatura mediana não se sentirá apertado.  Para o quinto ocupante, a acomodação não é confortável, já que o Fox tem largura contida e há um ressalto na região central do assoalho.

POUCOS ITENS DE SÉRIE A versão Bluemotion vem de série com pouquíssimos equipamentos. Os únicos itens relevantes que vêm incluídos na versão são a assistência hidráulica da direção e o computador de bordo. Ar-condicionado, vidros, travas e retrovisores com comandos elétricos, rádio CD Player com comandos no volante, entrada USB e para i-pod, alarme e chave com telecomando são oferecidos apenas como opcionais. Até pequenos mimos, como iluminação nos para-sóis e no porta-malas, para-brisa degradê e rede para prender objetos no bagageiro são inacreditavelmente vendidos à parte…

Recentemente, a Volkswagen estendeu a oferta de airbags frontais e freios ABS para todas as versões 1.6 de Fox, Gol e Voyage. Assim, o Bluemotion vem de série com os dois importantes equipamentos de segurança e não chega a fazer feio em tal quesito. Contudo, ainda assim há ausências relevantes, em especial para os passageiros de trás, onde não há cinto de três pontos na região central. O terceiro encosto de cabeça é opcional, vinculado ao já citado sistema de deslizamento do banco. Deveria ser de série, mas ao menos o item é disponibilizado, enquanto alguns rivais não o oferecem sequer para compra à parte. Repetidores de seta laterais nos retrovisores, assim como luzes de neblina na dianteira e na traseira, também são opcionais, enquanto o sistema Isofix para fixação de cadeirinhas e os airbags laterais não estão disponíveis no hatch.

JUÍZO FINAL: Chegamos a duas conclusões principais após a avaliação. A primeira é que as alterações cumpriram com o objetivo de economizar combustível e, como a versão não é muito mais cara que as demais, pode amortizar o investimento extra, mas apenas para aqueles que rodam muito. Para efeito de comparação, um modelo 1.6 básico, vendido unicamente com carroceria quatro portas, tem preço de tabela fixado em R$ 34.466, enquanto e Bluemotion duas portas custa R$ 35.572 e o quatro portas, R$ 37.050. A segunda é que, pelo valor pedido, o Fox é caro demais pelos equipamentos que oferece, embora tal crítica não fique restrita apenas ao Bluemotion: vale também para a já citada configuração 1.6 básica, que tem pacote semelhante. É pena, pois se houvesse uma política mais agressiva, com redução de preço ou uma ampliação de conteúdo sem aumento, o hatch se tornaria bastante interessante dentro do segmento, principalmente o Bluemotion, que mostrou comportamento adequado à proposta e por enquanto é uma das poucas opções acessíveis no mercado para aqueles que têm a consciência ecológica mais desenvolvida.

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, gasolina/etanol, 1.598cm³ cm³ de cilindrada, 101cv (g)/104cv (e) de potência máxima a 5,250, 15,4 kgfm (g)/ 15,6 mkgf (e) de torque máximo a 2.500 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
10,6 segundos com gasolina e 10,3 segundos com etanol

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
183 km/h com gasolina e 185 km/h com etanol

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 5 x 14 polegadas, pneus 175/70 R14

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,823; largura, 1,657; altura, 1,545; distância entre-eixos, 2,465

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 50 litros; porta malas: 260 a 353 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 440 quilos; peso: 1.009 quilos

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 7 8
Consumo (cidade e estrada) 9 8
Estabilidade 7 6
Freios 6 6
Posição de dirigir/ergonomia 8 9
Espaço interno 8 8
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 7 7
Acabamento 7 6
Itens de segurança (de série e opcionais) 7 6
Itens de conveniência (de série e opcionais) 6 5
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 8 8
Relação custo/benefício 6 6

Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos