Linha 2015 do hatch ficou melhor principalmente no interior, mas tropeça na mecânica desatualizada; versão Attractive 1.0 tem custo/benefício mediano

teste_novo_fiat_uno_attractive_31

Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

O novo Uno já não estava assim tão novo. Lançado em 2010, o hatch da Fiat já começava a perder parte de sua jovialidade, em especial diante na nova leva de populares que chegou ao país no ano passado, entre os quais o Ka e o up! Em termos mecânicos, o modelo praticamente não rejuvenesceu; isso ainda deverá demorar um pouco para acontecer, enquanto a marca italiana desenvolve um novo motor 1.0 de três cilindros, de concepção semelhante à dos concorrentes citados. Até lá, o fabricante alterou o exterior, com uma reestilização que modificou para-choques, faróis, lanternas e capô, e, principalmente, no interior, com a troca de painel, volante e forrações das portas. Em outras palavras, mexeu na parte mais fácil, enquanto a mais difícil segue em andamento. Mesmo assim, sem avanços em termos de engenharia, é possível dizer que o carrinho evoluiu.

teste_novo_fiat_uno_attractive_37Quem já andou no Uno antes da reestilização e entra na linha 2015 tem uma agradável surpresa. O painel, além de ter ganhado um design mais elaborado, exibe materiais de melhor qualidade. Não espere por requinte: na versão Attractive 1.0, avaliada, os plásticos são rígidos. A evolução é notada no tato dos materiais, que ficaram menos ásperos, e ainda exibem uma variação maior de texturas e cores. Porém, ainda é possível notar alguns deslizes, principalmente nos encaixes das peças, que ainda não ficaram perfeitos. Como as mudanças foram cosméticas, o espaço interno não mudou. É satisfatório na frente, mas um tanto limitado atrás, principalmente para as pernas. Mas a capota alta permite que mesmo passageiros de estatura elevada não esbarrem a cabeça no forro. Destaque para a adoção de cintos de três pontos para todos os ocupantes, que somam-se aos encostos de cabeça, já existentes antes das mudanças. Há a ressalva de o item em questão ser opcional, opcional, mas ainda assim, é válida a iniciativa de oferecê-lo. Afinal, trata-se de um equipamento de suma importância para preservar a integridade física em caso de acidente, mas ainda está ausente do centro do banco traseiro de muitos veículos. Já o porta-malas comporta 280 litros, valor coerente dentro da categoria.

teste_novo_fiat_uno_attractive_27A posição de dirigir também não mudou. Continua boa, com o motorista sentado em posição levemente elevada e centralizado em relação ao volante. A ressalva vai para os pedais, muito próximos e um pouco deslocados para a direita. Os bancos são ergonômicos, embora o assento seja um tanto curto. O do motorista conta com regulagem de altura, assim como a coluna de direção. Esta, porém, fica devendo o ajuste também em profundidade. A visibilidade é ótima para a frente e para os lados. Para trás, como já acontecia, as colunas largas limitam um pouco o campo de visão, problema que é atenuado graças aos retrovisores bem-dimensionados. Apesar da reformulação do painel, a posição dos comandos não mudou muito, com exceção dos botões dos vidros elétricos, que agora estão na porta, mais ao alcance das mãos. No mais, a acessibilidade é satisfatória. O cluster, reformulado, ganhou uma grande tela no centro do velocímetro, que exibe as informações do computador de bordo, mas perdeu o útil termômetro de água. Ademais, o conta-giros é muito pequeno, o que prejudica a leitura. Os faróis, mesmo com parábola única, mostraram resultados satisfatórios, e os limpadores varrem boa área.

Maquinário

É pena que, depois que passa o impacto inicial e o motorista coloca o Uno em movimento, nada tenha mudado. Mesmo para um hatch 1.0, o desempenho deixa a desejar. É preciso acelerar fundo sempre para extrair alguma agilidade, inclusive na cidade. Na estrada, resta ter paciência em subidas e atenção redobrada em ultrapassagens. Ao menos, o funcionamento não é áspero, o que ajuda a explorar as rotações mais elevadas. Mas o caso é que, até em alta, a performance deixa a desejar. A culpa dessa morosidade é do motor 1.0, da família Fire, que rende potências de 73 cv com gasolina e 75 com etanol, sempre a 6.250 rpm, além de 9,5 kgfm e 9,9 kgfm de torque com ambos os combustíveis. São números modestos mesmo para a cilindrada, reflexo da falta de tecnologia aplicada ao propulsor, que tem quatro cilindros, oito válvulas e nenhum dispositivo de variação. O bloco é confeccionado em ferro fundido, e o cabeçote, em alumínio. Vale lembrar que o peso da carroceria, de 955 kg, está na média do segmento e não chega a ser exagerado, o que indica que o Uno realmente precisa é de uma atualização mecânica, que ocorrerá quando o motor Fiat de três cilindros chegar ao mercado.

teste_novo_fiat_uno_attractive_14Quando isso acontecer, bem que a Fiat poderia adotar também um câmbio melhor de manusear. O do Uno é macio, mas o curso da alavanca é longo, e ainda falta precisão nos engates. A direção com assistência hidráulica deveria entregar maior progressividade. Ela é leve em manobras, mas poderia ser mais firme em alta velocidade. Já quanto à suspensão, independente do tipo McPherson na dianteira e por barra de torção atrás, não há do que reclamar. O Uno tem um acerto mais voltado para o conforto, e consegue absorver bem os desníveis das vias. A vantagem é que, em curvas ela não chega a deixar o comportamento instável. Naturalmente, a carroceria rola um pouco, mas, quando há subesterçamento, é fácil fazer correções. O resultado geral é bastante superior ao do Palio Fire, que também adota calibragem mais macia. Os freios, que utilizam discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, mostraram bom-dimensionamento e são capazes de estancar o compacto em espaços curtos, embora o pedal pudesse oferecer maior progressividade.

Consumo

Embora o Autos Segredos costume avaliar o consumo com gasolina, no caso do Uno, as médias foram aferidas com etanol. É que o modelo veio com o tanque cheio do combustível vegetal, e após o esgotamento, não houve tempo suficiente para fazer todas as medições necessárias com o derivado do petróleo. De qualquer modo, o resultado foi bom: o hacth cravou 9,0 km/l em ciclo urbano e 10,9 km/l em rodovias. Como sempre, ressaltamos que o gasto de combustível é influenciado por vários fatores, entre os quais o relevo, o estilo de condução do motorista e as condições das vias, entre outros.

teste_novo_fiat_uno_attractive_4A versão Attractive, avaliada, é a segunda mais barata da linha Uno. Está acima apenas da Vivace, a única que que não adotou a reestilização. A lista de itens de conforto de série é pequena: traz apenas direção hidráulica, limpador e desembaçador do vidro traseiro e para-choques na cor do veículo. Ar-condicionado, vidros e travas elétricas, sistema de som com entradas USB/AUX, viva-voz e conexão Bluetooth, rodas de liga leve aro 14 e sensores de estacionamento são vendidos como opcionais. Até dispositivos mais simples, como abertura interna do tanque de combustível e do porta malas e banco traseiro bi-partido são cobrados à parte. O pacote de equipamentos de segurança é composto somente por dispositivo de sinalização de frenagem de emergência (que aciona o pista-alerta automaticamente em frenagens bruscas), além dos obrigatórios por lei freios ABS e airbags frontais. Básica, essa configuração custa R$32.980. Porém, uma unidade completa, como a avaliada, chega a R$ 42.795.

Sentença

Sobre o Uno Attractive 2015, duas coisas ficaram bem claras durante a avaliação: a primeira é que o banho de loja realmente fez bem, principalmente ao interior. A segunda é que a mecânica continua apresentando rugas, que ficam ainda mais evidentes com a chegada do up! e do Ka, ambos equipados com modernos motores de três cilindros. Até que a Fiat conclua o desenvolvimento de seu próprio propulsor com arquitetura semelhante, poderia ter argumentos de venda melhores se recheasse seu hatch de entrada com mais equipamentos. Porém, como a maior parte dos itens é opcional, o apelo para o bolso também não é tão grande. É verdade que o hatch é competente e tem ótimo renome no mercado, com boa liquidez e fama de robustez e manutenção barata. Somadas todas essas questões, ele é uma opção válida dentro de sua categoria. Mas não chega a ser referência.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 5 6
Consumo (cidade e estrada) 8 8
Estabilidade 7 8
Freios 7 8
Posição de dirigir/ergonomia 8 8
Espaço interno 7 7
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 6 7
Acabamento 7 8
Itens de segurança (de série e opcionais) 7 7
Itens de conveniência (de série e opcionais) 6 7
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 6 6
Relação custo/benefício 7 7

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, gasolina/etanol, 999 cm³ de cilindrada, 73 cv (g)/75 cv (e) de potência máxima a 6.250, 9,5 kgfm (g)/9,9mkgf (e) de torque máximo a 3.850 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio manual de cinco marchas

ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
14,7 segundos com gasolina e 13,8 segundos com etanol

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
151 km/h com gasolina e 153 km/h com etanol

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e tambores na traseira, com ABS

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira,  traseira, semi-independente, barra de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em aço, 5 x 13 polegadas, pneus 165/70 R13

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,811; largura, 1,636; altura, 1,480; distância entre-eixos, 2,376

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 48 litros; porta-malas: 280 litros; carga útil (passageiros e carga): 400 quilos; peso: 955 quilos

[photomosaic]
Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos