O quão agradável é o novo compacto da Fiat, especialista nos pequenos sobre quatro rodas?

fiat_mobi_way_21O clichê é dos mais antigos, de origem desconhecida, mas extremamente rememorado: “Os melhores perfumes estão nos menores frascos”. Será que estamos diante de uma verdade absoluta quando transportamos tal afirmação para o campo dos automóveis? Embora com veículos cada vez maiores com o passar do tempo, a complexa trama urbana das grandes cidades demanda veículos cada vez mais fáceis de manejo, com agilidade e economia bem equalizados. E é nesse filão que o recém-lançado Mobi procura se encaixar, concorrendo com nomes já estabelecidos no disputado mercado do nicho, como Volkswagen Up e Nissan March.

fiat_mobi_way_23Quão adequado o pequeno ítalo-brasileiro está para essa guerra de pequenos frascos – e o quanto agradável é o seu conteúdo?  A linha Mobi começa em R$ 31.900 – preço da versão básica Easy – embora chegue aos R$ 43.800 no Way On, que por sua vez não oferece opcionais: o sufixo “On” indica um pacote de acessórios acrescentado ao Way, comum, ao preço de R$ 39.300, como se fosse um pacote.

Tiro pela culatra, literalmente

Visto por fora, o pequeno Fiat é inédito sem ser revolucionário. A despeito de correntes afirmarem ser um Uno encurtado em 24,5 centímetros, o Mobi é um novo carro em quase toda a estrutura conforme alegado pelo fabricante. As formas são robustas: na porção frontal, grandes faróis fazem par com uma avantajada grade em preto laqueado. Essa, por sua vez, é complementada por abertura inferior da mesma cor, ladeada por faróis de neblina com molduras em plástico negro, em uma composição exclusiva da versão.

fiat_mobi_way_29Com capô horizontal e volumoso, além dos vincos marcantes, o Mobi foge da impressão de carro frágil, adquirindo um visual invocado – acentuado, nessa versão, pela roupagem de fora-de-estrada típica das versões “Way” da Fiat, com arcos de rodas que acentuam os para-lamas volumosos. Nas laterais, mais linhas fortes, principalmente no para-lama traseiro que é acentuado pelo formato abaulado escolhido pelos designers. A embalagem, portanto, parece agradável aos olhos. Mesmo sendo pequena.

Atrás, saltam aos olhos a tampa traseira toda de vidro, solução técnica que foi sumariamente abortada pelo Volkswagen up! no seu processo de tropicalização. Embora uma sábia solução técnica pelo prisma de ganho volumétrico do bagageiro (o acesso de vidro é vários centímetros mais estreito que uma porta de aço), a base de acesso ao compartimento se mostra excessivamente alta – possivelmente para aumentar a resistência estrutural do local e mitigar eventuais danos em pequenos impactos, majorados pelo material escolhido. Assim, o atraente efeito visual que a porta de vidro poderia proporcionar é reduzido pelas dimensões diminutas do componente. O tiro, nesse caso, saiu pela culatra. Talvez, literalmente.

Não obstante existe uma dificuldade de acesso ao compartimento, com limitados 215 litros de capacidade e menor que todos os concorrentes diretos. Apresentando 70l a menos do que o Up, o porta-malas é dotado de caixa organizadora no fundo compartimento e apresenta duas funções: guardar objetos com uma divisão fechada e personalizável em termos de layout; e tornar mais alta e acessível a base do local. Sem tal equipamento, a despeito dos 20 litros extras obtidos, o assoalho fica muito fundo — e nem luz existe para ajudar a procurar objetos perdidos. A acomodação do estepe é interna e o componente segue a medida dos outros pneus, com roda de aço.

fiat_mobi_way_11Por dentro, uma caixinha de surpresas

Por dentro, o ambiente conferido remete ao Uno – embora painel e bancos sejam outros. Boas surpresas nos esperam aí: além de uma boa ergonomia para os diversos comandos, o acabamento é uma nítida evolução frente a produtos anteriores da marca de Turim, com texturas diversas e bem acabadas nos insertos plásticos. Como no seu maior rival, os bancos dianteiros usam encostos inteiriços, o que não chega a incomodar. No entanto, por serem curtos para as coxas e de largura reduzida no assento e no encosto, oferecem menos conforto que os do irmão (Uno) e chegam a incomodar em trajetos longos. Ajustes de altura do volante e do banco do motorista ajudam a reduzir tal desconforto.

fiat_mobi_way_9Ainda no campo das acomodações, um pungente ponto negativo do compacto se mostra no espaço disponível no banco traseiro. Ruim em termos de largura e no vão para pernas, levar três adultos é extremamente complicado – diria Galvão Bueno que a física não permite, a despeito da altura disponível no habitáculo ser adequada. Desta forma, um passageiro de estatura padrão encosta seus joelhos no encosto dos bancos dianteiros, com estes regulados para condutor e passageiro de mesmo tamanho. O encosto dos bancos traseiros, mesmo com duas posições de regulagem disponíveis, é mais vertical que o usual, bem como o assento mais curto.

Analisando o quadro de instrumentos, o Mobi Way On oferece um pequeno conta-giros à esquerda do grande velocímetro. Este, por sua vez, abriga em seu interior um mostrador digital. Dispostos neste estão o completo computador de bordo, ícone sugestivo para trocas de marcha e indicador de temperatura externa. O simples sistema de áudio, com o rádio/MP3 e que dispensa o toca-CDs como tem sido de praxe, é conhecido da linha Fiat. Ele traz interface Bluetooth para telefone celular e conexões USB e auxiliar via cabo P2. A qualidade sonora está no patamar esperado da categoria, sem grande brilho.

Na versão mais completa do Mobi, os equipamentos de série abrangem: ajuste elétrico dos retrovisores e de vidros dianteiros, com função um-toque, temporizador e comando a distância de abertura e fechamento; alarme antifurto volumétrico, ar-condicionado, banco do motorista com regulagem de altura, banco traseiro bipartido com ajuste de inclinação, cintos laterais traseiros retráteis, computador de bordo, direção com assistência hidráulica, faróis de neblina, limpador e desembaçador do vidro traseiro, rádio/MP3 com comandos no volante, rodas de alumínio de 14 polegadas, sensores de estacionamento traseiros, além de volante com regulagem de altura.

fiat_mobi_way_15Outros bons detalhes são o aviso para porta mal fechada, bolsas nos encostos dianteiros, comando interno para tampa traseira e portinhola do tanque (habitual nos Fiat há muitos anos), espelhos nos para-sóis , repetidores laterais das luzes de direção, retrovisores externos convexos e bem amplos, temporizador de faróis e da luz interna e vidros traseiros que descem por inteiro. Entretanto, merecem cartão amarelo a tampa traseira que não tem maçaneta  e exige uso da alavanca ou da chave, além de sua abertura pela chave com o carro travado faz o alarme disparar. Também falta cinto de três pontos e encosto de cabeça para o passageiro central no banco de trás.

Tanque de guerra de brinquedo

É hora de andar no Mobi Way On. Com o mesmo motor idêntico e aproveitamento de parte da plataforma, o novo compacto não se comporta de forma muito diferente do Uno para quem dirige. A despeito da grande redução de comprimento, o ganho em alívio de massa não é tão proporcional ao encolhimento: com 966kg, o Mobi Way é apenas 14kg mais leve que o Uno Way de mesmo motor.

fiat_mobi_way_20O veterano motor Fire desenvolve potência máxima de 73/75 cv e torque máximo de 9,5/9,9 kgfm quando abastecido com gasolina e etanol, respectivamente. Se, por um lado, os valores apresentados estão apropriados à categoria e ao peso do Fiat, novamente a concorrência eleva a disputa a patamares mais altos: também 1.0 o motor tricilíndrico do Ford Ka entrega mais 13cv no seu propulsor de 1,0 litro, além da maior elasticidade sentida nesse último. Ainda assim, o motor Fiat de característica superquadrada gira além das 6.000rpm.

Se, por um lado, números de torque e potência são entregues em regimes elevados, a forma que tal propulsor sobe de rotação é interessante, ainda mais levando em conta a tecnologia do propulsor em uso atualmente, sem grandes artifícios técnicos que aumentariam a eficiência global do componente – obtendo maior potência e melhor consumo. Com quatro cilindros e duas válvulas por cilindro, ele será substituído em breve pela linha de motores GSE. Como já revelado pelo Autos Segredos, o 1.0 GSE de três cilindros deve estrear ainda este ano no Uno, mas em seguida também chega ao Mobi em novas versões.

Apenar da idade, o Fire apresenta funcionamento macio frente aos concorrentes tricilindricos – mérito da baixa relação r/l de 0,21 – com subidas de rotação e nível de ruídos interessantes para a média do segmento. Desta forma, mantêm-se velocidade de cruzeiro a 120 km/h sem grande desconforto acústico ou de vibrações que possam ser transmitidas para o habitáculo do veículo.

Como tem sido de praxe em modelos recentes disponíveis no mercado – de fabricantes diversos, frise-se – o funcionamento do acelerador é não linear de forma que beira o desagradável, com uma abertura da borboleta do acelerador demasiadamente rápida no início de seu curso de acionamento – que por sua vez trás uma sensação de vigor – com posterior lerdeza pela falta da razão de abertura adotada anteriormente do componente.

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Comprovando a inutilidade de tal ação Mandrake, os números de consumo e desempenho: Aceleração de 0 a 100 km/h acima dos 16 segundos, e consumo urbano de 11,0 km/l de acordo com o Computador de Bordo e abastecido com gasolina. Novamente, o up! se sai melhor em ambos os índices, comprovando que o pequeno Fiat urge pela adoção do propulsor mais moderno, já em fase final de desenvolvimento.

O comando da transmissão é apenas razoável, com dificuldade eminente de engate da marcha-a-ré na unidade avaliada. Os freios, de acionamento talvez um pouco brusco, possuem discos sólidos e não ventilados na dianteira. Dado o baixo peso do Mobi, atuam bem para a imobilização do compacto e não apresentam perda de eficácia por superaquecimento com o tempo.

A maior virtude o Mobi Way é, sem dúvida, é o acerto de suspensão. Com altura de rodagem elevada em 15 mm obtidos através de calibração específica do componente – a despeito dos pneus 175/65 R14 de asfalto – e com bom vão livre do solo (são 171 mm), o Mobi Way On é um tanque de guerra de brinquedo: ele não tem força para nada demais, mas o visual (a velha história da embalagem…) e o rodar em estradas de terra leva a imaginações férteis com carros de rally e maior potência no pequeno Fiat.

Com ajuste macio e longo curso de amortecedores, a suspensão garante um rodar confortável na maltratada malha rodoviária brasileira. Competente na absorção de grandes irregularidades, o pequeno Fiat supera de forma melhor que seus concorrentes obstáculos como buracos mais fundos em estradas de terra e lombadas de qualquer tipo, com aptidão inesperada para rodar em terrenos mais complicados.

Tivemos a certeza da robustez de sua suspensão quando, no intercurso da avaliação, em viagem pela BR 040, o Mobi foi atingido por um rejeito de demolição recém-caído no meio da faixa da esquerda, atingindo o Fiat que trafegava em velocidade superior aos 100 km/h. Apesar da violência do impacto, o compacto saiu do local do ocorrido valentemente rodando, percorrendo mais 50 quilômetros após o ocorrido sem grandes dificuldades.

O Way On é, novamente, apenas razoável no quesito estabilidade. Alto e com suspensão macia, com bitolas estreitas, ele se inclina em apoio lateral mais que seus concorrentes. Entretanto, nada que traga sensação de insegurança ao condutor. A direção é ligeiramente pesada em manobras, mas cumpre bem seu papel tanto nas baixas quanto nas altas velocidades.

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Vale a pena comprar um Mobi? Se você busca um hatch realmente pequeno por fora – sabendo que os menores frascos possam apresentar perfumes apenas razoáveis – e que tenha aptidão para terrenos de má qualidade, um rodar suave e mecânica sem grandes complicações, o Mobi Way On pode ser boa opção. Fora isso, as vantagens nos campos de desempenho, modernidade, vida a bordo e economia fazem do up! uma melhor escolha que somente pode ser anulada – pelo lado emocional – ao se reprovar o visual polêmico do pequeno VW.

Não obstante, concorrentes como Ford Ka e Nissan March reúnem bons argumentos sem se afastar da faixa de preço do novo Fiat, sendo apenas um pouco maiores. Infelizmente, a despeito dos acertos, seus concorrentes são produtos melhores, mais modernos e mais atraentes em um âmbito global aos olhos dos consumidores, o que pode mudar razoavelmente com o novo motor 1.0 GSE e políticas de preços mais agressivas eventualmente adotadas pelo fabricante italiano. Se a essência não é ruim, o perfume que essa pequena embalagem oferece poderia ser ainda melhor.

AVALIAÇÃO Renato Marlos
Desempenho(acelerações e retomadas) 5 6
Consumo(cidade e estrada) 6 7
Estabilidade 6 8
Freios 7 8
Posição de dirigir/ergonomia 7 8
Espaço interno 4 5
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 2 4
Acabamento 7 8
Itens de segurança(de série e opcionais) 6 7
Itens de conveniência(de série e opcionais) 8 7
Conjunto mecânico(acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7 7
Relação custo/benefício 5 6

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8 válvulas, com injeção indireta no coletor de admissão, bicombustível, 999 cm³ de cilindrada (diâmetro de 70,0mm, curso de 64,9mm), 73/75 cv (gasolina/etanol) de potência máxima a 6.250 rpm, 9,5/9,9 (g/e) kgfm de torque máximo a 3.850 rpm, taxa de compressão de 12,15:1

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, com câmbio manual de 5 velocidades à frente

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
N/A

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
N/A

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráuloca variável

FREIOS
Discos sólidos na dianteira e tambores atrás, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira por eixo de torção, com barra estabilizadora

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 5,5×15 polegadas, pneus 175/65 R14

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,596; largura, 1,685; altura, 1,55; distância entre-eixos, 2,305; peso: 966 quilos

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 47 litros; porta malas: 215 litros; carga útil (passageiros e bagagem): N/A.

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Mobi Like On – Se não tem tu, vai tu mesmo

Lembram-se do incidente relatado com o Mobi Way On e a pedra assassina no meio da rodovia? Enquanto esperávamos a pronta restituição do automóvel para prosseguirmos com a avaliação, gentilmente nos foi cedido um Mobi Like On para avaliação. Basicamente, é o mesmo produto que o Way On, apenas despido da roupa aventureira – além da subtração da barra estabilizadora da suspensão dianteira.

fiat_mobi_like_3Se o Way se destaca pela robustez, o Like passa uma sensação de ser muito bom de chão. Ágil no trânsito urbano, o Mobi mais baixo contorna as curvas de forma festiva, graças à suspensão mais baixa e a calibração distinta. A despeito de ser lépido nesse campo ele não é desconfortável, uma vez que buracos e outros “presentes” do asfalto de nossas cidades são sumariamente enganados tal qual seus concorrentes. No mais, tudo igual ao Mobi Way On: pontos positivos permanecem, bem como os negativos.

fiat_mobi_like_12Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos