Sedã aposta em equipamentos e em desempenho para tentar fazer frente a concorrentes de marcas premium; comportamento une conforto e esportividade de modo exemplar

volkswagencc40Nilo Soares
Especial para o Autos Segredos

Carros com motor de seis cilindros são vez mais raros, não só no Brasil. A onda de downsizing que já é realidade no exterior e que começa a chegar ao país, associada à predominância dos compactos no mercado nacional, faz com que os propulsores de grandes cilindradas vão ficando restritos apenas a modelos realmente esportivos ou luxuosos. O CC (anteriormente denominado de Passat CC) é um dos sedãs que ainda não se renderam ao turbocompressor, ao menos na versão top (na Europa, existe a configuração 2.0 TSI),  exibindo um V6 aspirado sob o capô. Não por acaso, entre os automóveis, é o mais caro da linha Volkswagen no Brasil, com preço sugerido de R$ 184,9 mil. O valor é superado apenas pelo Touareg, que a rigor, é um utilitário.

volkswagencc38Muitos podem torcer o nariz para o CC. Afinal, ele custa caro e não goza do status de uma marca premium. Mas acredite, o sedã tem encantos. O maior deles, sem dúvida, é o conjunto mecânico afiadíssimo, capitaneado pelo motorzão V6 3.6 com bloco e cabeçote confeccionados em alumínio, equipado com injeção direta e 24 válvulas, recursos que, juntos, são capazes de render nada menos que 300 cv de potência a 6.600 rpm e 35,6 kgfm de torque a 2.400 rpm. Completando o time, há o câmbio automatizado de dupla embreagem e seis marchas e, por fim, o sistema de tração integral,  que em modo normal atua com 90% de força na dianteira e 10% na traseira, mas deixa a distribuição mais equilibrada se houver perda de aderência, que conta ainda com o auxílio do bloqueio do diferencial. A suspensão é independente nas quatro rodas, do tipo McPherson na frente e multilink atrás, enquanto a direção tem assistência elétrica.

volkswagencc2Ao volante, as características técnicas se traduzem em uma condução irretocável. Um leve toque no acelerador faz com que os 1.637 kg de massa corporal do veículo ganhem velocidade instantaneamente. As acelerações são rápidas, mas lineares e progressivas, sem a entrada abrupta de torque que caracteriza os carros turboalimentados; coisa típica de motor de alta cilindrada com aspiração natural. O câmbio DSG, já conhecido de outros veículos Volkswagen, apresentou o mesmo bom comportamento de sempre, trabalhando com suavidade e “entendendo” com precisão as vontades do condutor. Em viagens, para fazer uma ultrapassagem, bastar pisar fundo (manobra conhecida como kick-down), ver o câmbio reduzir uma ou duas marchas e o velocímetro subir rapidamente. Fileiras de caminhões e outros veículos são deixadas para trás em poucos segundos e rapidamente é preciso afofar o pé para não alcançar velocidades insanamente elevadas para as rodovias brasileiras. Se o motorista preferir, pode comandar as trocas por borboletas no volante ou posicionar a alavanca em modo Sport, para privilegiar ainda mais o desempenho. Isso, claro, acompanhado pelo ronco inconfundível de um propulsor com os cilindros dispostos em V.

volkswagencc22Se a estrada tiver curvas, melhor ainda. O CC encara trechos sinuosos com muita disposição e, durante o teste, só demonstrou tendência ao subesterçamento após muita, mas muita provocação mesmo. Em condições climáticas mais desfavoráveis, como em pista molhada, a tração integral mostra ainda mais a que veio e permite manter um ritmo de viagem mais rápido que em carros com apenas um eixo motriz. Mas o que mais impressiona é o modo como o CC conjuga o desempenho ao conforto. Se a ideia for viajar tranquilo, tudo bem: a 120 km/h, em sexta marcha, o V6 sussurra a 2.200 rpm. Ao passar por ondulações, buracos ou passagens de nível, ele se comporta como um sedã de luxo careta. Nada de sacolejos ou de ruídos vindos da suspensão, como costuma acontecer em esportivos. A direção, que tem peso na medida em alta velocidade, também mostra-se bastante suave em manobras. O comportamento dinâmico, realmente, está no nível dos rivais premium.

Apesar de performático, o CC não se mostrou beberrão: cravou em média 6,5 km/l na cidade e 9,4 km/l na estrada. Boas marcas para um carro de mais de 1,6 tonelada de peso, equipado com motor de grande cilindrada. Os números foram obtidos com gasolina, até porque o sedã não tem sistema flex. Vale lembrar que o consumo de combustível é influenciado por uma série de fatores, como relevo, estilo de condução do motorista e condições das vias.

volkswagencc27PERSONALIDADE O design, mesmo sem o frescor da novidade, ainda é muitíssimo bem resolvido (e tem a personalidade, algo digno de nota dentro da linha atual Vokswagen). O estilo é de cupê, com linhas muito fluidas, porém com quatro portas, seguindo uma tendência que foi adotada por vários fabricantes nos últimos anos. O nome CC, aliás, é a sigla para Comfort Coupé, evidenciando a intenção do fabricante. Enquanto esteve nas mãos do Autos Segredos, o sedã chamou muita atenção por onde passou; chegou a ser rodeado por um grupo de curiosos, formado por frentistas e motoristas de outros veículos, durante uma parada para uma ducha em um posto de combustíveis. Cheguei a ficar até constrangido quando dois homens se aproximaram olhando fixamente para o carro…

Outro ponto positivo é o acabamento. Mesmo procurando à exaustão, é impossível encontrar falhas de arremate. As superfícies emborrachadas estão presentes não só no painel, mas também nas portas, que ainda contam com largas porções de couro. Isso soa até redundante em um automóvel da categoria do CC, mas é bom saber que ele não decepciona. A única questão criticável é o compartilhamento de alguns componentes com outros veículos da marca: o volante é utilizado até na linha nacional, enquanto o painel foi herdado do Passat e traz apenas alterações pontuais, evidenciando as origens do projeto: em 2008, quando foi lançado, o CC fazia parte da linha Passat, mas junto com  a reestilização de 2011, se tornou independente em termos mercadológicos. Além do mais, verdade seja dita, o compartilhamento de peças é uma prática tão comum na indústria automobilística que o CC nem chega a destoar muito nesse aspecto.

volkswagencc19Devido à caída da capota atrás, um dos elementos responsáveis por dar o aspecto de cupê à carroceria (e que atualmente está presente em vários outros veículos), é de se imaginar que o espaço para a cabeça no banco traseiro seja ruim. A dúvida foi tirada quando um amigo de 1,90 m se acomodou no banco sem esbarrar a cabeça no teto. Ponto para o CC! Para as pernas o vão é bem grande. Quem não conta com acomodações muito confortáveis é o passageiro central, pois o assoalho tem um túnel central muito elevado, devido ao sistema de tração integral. Por outro lado, há saídas de ar exclusivas para os passageiros de trás. Na frente, não há do que reclamar. O motorista dirige em posição perfeita, acomodado poltronas ergonomicamente perfeitas. A única ausência, até curiosa, é a das alças no teto, conhecidas popularmente por um nome impublicável… Para quem tem o hábito de viajar segurando ali, as mesmas fazem falta. Outro detalhe que foi negligenciado pelo fabricante são as dobradiças pantográficas no porta-malas: o sedã usa um conjunto convencional, do tipo “pescoço de ganso”, que rouba espaço. Ademais, o volume do compartimento, de 452 litros, é apenas razoável, assim como o vão de entrada.

volkswagencc12ITENS E MAIS ITENS A lista de equipamentos de série do CC, como convém a um carro de sua faixa de preço, é pra lá de extensa. Os principais itens são ar-condicionado com duas zonas de temperatura, bancos revestidos em couro, sendo os dianteiros com regulagens elétricas, memória, massageador e aquecimento/ventilação, central multimídia com tela sensível ao toque, controle de velocidade de cruzeiro, câmera de ré, navegador GPS e sistema de som com oito alto-falantes, retrovisores rebatíveis eletricamente, sistema de estacionamento automático (park assist), freio de estacionamento com função auto-hold, computador de bordo com funções de monitoramento do motor e da pressão dos pneus, assistente de partida em rampa e sistema de partida sem chave. Há ainda alguns opcionais, como o sistema de som de 600 Watts, com amplificador digital de 10 canais e 10 alto-falantes, controle de velocidade de cruzeiro adaptativo (que acelera e freia o veículo automaticamente de acordo com a velocidade do fluxo de trânsito) e teto de vidro, com a seção dianteira basculante (não é possível movimentar a lâmina longitudinalmente); outra falha do dispositivo é a persiana com tecido que permite incidência exagerada de luz, inconveniente notado também no Fusca (veja o teste aqui).

volkswagencc16Entre os itens de segurança, outra lista enorme de itens. Há airbags frontais, laterais e do tipo cortina, controles eletrônicos de tração e estabilidade, faróis bi-xenon direcionais com luzes diurnas de LEDs (com excelente resultado prático), detector de fadiga e ganchos Isofix para fixação de cadeirinhas. Os freios, com enormes discos nas quatro rodas e auxiliados eletronicamente pelo sistema ABS com EBD e BAS mostrou eficiência total durante a avaliação. Há ainda encostos de cabeça (ajustáveis verticalmente e horizontalmente) e cintos de três pontos para todos os passageiros. Soa redundante destacar esses equipamentos em um carro do nível do CC, mas é válido fazê-lo para chamar a atenção de sua ausência em veículos mais baratos.

FIEL DA BALANÇA É difícil dizer que um automóvel que custe mais de R$ 100 mil reais seja uma compra racional. O Volkswagen CC, como já foi dito no início do texto, supera a marca por larga margem: sem opcionais, custa 189,9 mil. Nessa faixa de preço há diversas opções, entre esportivos, SUVs e sedans. Muitos dos rivais são de marcas premium e, portanto, mais prestigiadas que a Volkswagen. Contudo, não há nenhum com as características conceituais do CC: um sedã confortável com desempenho realmente elevado, graças ao motor de 300 cv. Com muitos concorrentes indiretos e nenhum direto (cupê de quatro portas) em sua faixa de valor, o Comfort Coupé é sim uma opção a ser levada a sério.

AVALIAÇÃO Nilo Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 10 10
Consumo (cidade e estrada) 7 6
Estabilidade 10 10
Freios 10 10
Posição de dirigir/ergonomia 10 9
Espaço interno 9 8
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 9 8
Acabamento 10 10
Itens de segurança (de série e opcionais) 9 9
Itens de conveniência (de série e opcionais) 9 9
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 10 10
Relação custo/benefício 7 8

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FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, seis cilindros em V, 24 válvulas, injeção direta, a gasolina, 3.597 cm³ de cilindrada, 300 cv de potência a 6.600 rpm e 35,6 kgfm de torque a 2.400 rpm.

TRANSMISSÃO
Tração integral, câmbio automatizado de dupla embreagem e seis marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
5s5

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
250 km/h

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira e na traseira, com ABS, EBD e BAS

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira, independente, multilink, com barra estabilizadora

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 18 polegadas, pneus 235/40 R18

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4.801; largura, 1,855; altura, 1,426; distância entre-eixos, 2,712

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 68 litros; porta malas: 452 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 509 quilos; peso: 1.637 quilos

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos