O Jeep Compass têm muitas características em comum com o Renegade, maior o Compass se destaca não só pelas dimensões internas e externas maiores, mas também pelo padrão de construção; versão Longitude 4×4 a diesel, avaliada, deveria trazer mais equipamentos de série

Por Alexandre Soares

O que é, o que é? Ostenta a mesma marca que o Renegade no capô, utiliza a plataforma do Renegade, é um SUV produzido em Goiana (PE) tal qual o Renegade e, no caso das versões a diesel,  compartilha a mecânica com o Renegade? A resposta, óbvia, é de que o veículo em questão é o Compass. Porém, apesar das várias semelhanças, há também diferenças significativas entre os dois utilitários. E, felizmente, os pontos divergentes  ocorrem em função de o Compass superar o irmão menor em alguns aspectos – inclusive no preço, vale lembrar: a versão avaliada pelo Autos Segredos, a Longitude 4×4, custa R$ 132.990.

Apesar de compartilhar a plataforma e, no caso da versão avaliada, também a mecânica com o Renegade, em design o Compass se afasta dele para se assemelhar ao maior SUV da marca, o Grand Cherokee, que é importado. É verdade que o estilo não é tão ousado e original quanto o do irmão menor, mas, ainda assim, o resultado é muito harmonioso. E, se por um lado as linhas da carroceria não têm tanta personalidade, por outro elas tendem a agradar maior número de pessoas, o que parece se comprovar pela curiosidade que o veículo causou pelas ruas: durante todo o período em que ele esteve com o Autos Segredos, foi cena comum pessoas olhando fixamente de dentro de outros carros. Por duas vezes, fui abordado por desconhecidos que queriam saber mais sobre o modelo.

Boas soluções no interior

Não é só por fora que os dois modelos nacionais das Jeep são diferentes. Por dentro, eles também apresentam grandes distinções. Sabe aquela história de o Renegade ter espaço interno razoável e porta-malas pequeno? Pois no Compass, o espaço interno é amplo, e o porta-malas, razoável para o porte do veículo: no banco traseiro, mesmo pessoas altas conseguem se sentar com as pernas quase esticadas e sem correr o risco de dar cabeçadas no teto. Ali, além de encostos de cabeça e cintos de três pontos para todos, há dois difusores de ar dedicados. Além disso, existem muitos porta-objetos a bordo, inclusive o útil compartimento sob o banco do passageiro da frente; para ficar perfeito, falta só incluir um porta-óculos no teto. Já o compartimento de bagagens, que acomoda 410 litros, também traz algumas comodidades, como o assoalho que pode ser posicionado em duas alturas diferentes e uma tomada 12V.

Em acabamento, item no qual o SUV compacto da Jeep agrada bastante, o modelo médio da marca vai além, com material emborrachado não apenas no painel, como também nas forrações das portas, que contam ainda com estofamento. A montagem segue o bom padrão que a fábrica de Goiana (PE) tem mostrado em seus outros modelos, com componentes bem-encaixados e sem rebarbas, além de carroceria sem desalinhamentos entre os componentes. E, para descontrair o ambiente a bordo, há os chamados “easter eggs”, imagens em relevo gravadas em alguns locais, como a dianteira estilizada de um Jeep antigo na face interna da tampa do porta-malas, um calango abaixo do limpador de para-brisa e a silhueta do Monstro do Lago Ness no vidro traseiro.

É verdade que alguns componentes internos, como comandos do ar-condicionado, leiaute dos instrumentos, manopla do câmbio, alavancas de seta e do limpador de para-brisa e volante são compartilhados pelos três modelos fabricados por lá, mas isso não chega a comprometer o resultado final. Até porque, além de bom aspecto, eles são corretos em termos de ergonomia. O cluster, além de completo, com termômetro do fluido de arrefecimento e tela central de 3,5 polegadas que mostra, entre outras informações, as funções de computador de bordo – proporciona leitura simples e direta, ao passo que o volante tem empunhadura muito boa, além de ser regulável em altura e em profundidade. Como o banco – que apoia muito bem as pernas e a coluna, diga-se de passagem – também tem ajuste de altura, é fácil encontrar uma posição confortável para dirigir. A visibilidade é muito boa, devido ao para-brisa amplo, a posição elevada de dirigir e os retrovisores bem-dimensionados, menos para trás, em função das colunas posteriores muito largas e do vidro pequeno na tampa do porta-malas. Felizmente, câmera e sensores de ré são de série.

Equipamentos de série não impressionam

Apesar do interior mais amplo e sofisticado, em equipamentos o Compass não mostra grande vantagem em relação ao Renegade. Ao menos na versão Longitude, avaliada, cujos itens de série não se sobressaem na faixa de preço do veículo – R$ 132.990, lembra? Há ar-condicionado digital com duas zonas de temperatura, chave presencial com botão de partida, alarme,  monitoramento da pressão dos pneus, vidros, travas e retrovisores elétricos, rodas de liga de 18 polegadas, cruise-control, limitador de velocidade, luzes de rodagem diurna (sem LEDs, entretanto), faróis de neblina, volante multifuncional, assistente de partida em rampa, central multimídia com tela tátil de 8,4 polegadas, com navegador GPS, rádio, duas entradas USB, Bluetooth e comandos de voz, freio de estacionamento elétrico, controles eletrônicos de tração, estabilidade e anticapotamento e ganchos Isofix para fixação de cadeirinhas. Porém, o modelo vem apenas com os obrigatórios por lei airbags frontais de série. Os laterais e os de cortina, além de uma bolsa para os joelhos do motorista, são oferecidos juntos em um pacote opcional, chamado Kit Segurança, por R$ 3.200. Também são vendidos à parte o retrovisor interno eletrocrômico, os sensores de chuva, os faróis com acendimento automático e até o revestimento interno em couro: esses quatro equipamentos vêm agrupados no que a Jeep intitula de Pacote Premium, por R$ 3.700. O teto solar panorâmico também é disponibilizado opcionalmente, por R$ 7.100. Assim, com tudo a que se tem direito, inclusive a pintura metálica, o valor de compra sobe para expressivos R$ 148.590.

Se em design e em habitabilidade o Compass mostra características bem diferentes das do Renegade, em dirigibilidade os dois são muito parecidos, ao menos quando equipados com o motor 2.0 Multijet (na verdade, são 1.956 cm³), movido a diesel. Equipado com injeção direta de combustível e turbocompressor de geometria variável, ele entrega 170cv de potência a 3.750 rpm e 35,7 kgfm de torque a 1.750 rpm. Apesar do peso muito elevado do veículo, que tem nada menos que 1.717 kg, o desempenho é bom, com acelerações capazes de deixar o SUV à frente de muito sedã médio. É verdade que falta ânimo abaixo de 1.500 rpm, mas esse inconveniente é bem-disfarçado pelo câmbio automático, que mostra programação eletrônica correta e faz o propulsor trabalhar quase sempre acima dessa faixa.  Além disso, como há nove velocidades, as relações entre elas são curtas, o que favorece as retomadas de velocidade. De quebra, as três últimas marchas funcionam como overdrive (a velocidade máxima é atingida em sexta), o que reduz bastante o nível de ruído em viagens: a 120 km/h, em nona, o tacômetro marca apenas 1.900 rpm. A operação é suave, mas há um ponto criticável no comportamento da transmissão: a tendência a “segurar” um pouco as marchas quando se dirige com o pé leve no acelerador. Ao menos isso é atenuado pela presença de paddle-shifts no volante, que permitem ao motorista fazer a troca em modo sequencial.

As semelhanças entre os dois modelos nacionais da Jeep continuam nas demais características técnicas.  A direção com assistência elétrica é bastante progressiva, leve em manobras e firme em alta velocidade, enquanto os freios, a disco nas quatro rodas, mostram-se adequados ao elevado peso do SUV. A suspensão, com conjuntos independentes do tipo McPherson nos dois eixos, é semelhante à do Renegade não só na arquitetura, mas também na calibragem: situado em um patamar intermediário, o acerto absorve bem as irregularidades do piso sem deixar a carroceria rolar demais em curvas. Em estradas pavimentadas, o Compass encara curvas de diferentes raios com boa estabilidade para um SUV. Vale lembrar que as versões a diesel vêm sempre equipadas com tração 4×4 do tipo permanente (enquanto nas flex, invariavelmente, as rodas motrizes são só as dianteiras), que, além de permitir aventuras na terra, também ajuda a manter o veículo sob controle em asfalto molhado ou escorregadio.

Tração total com altura do solo limitada

Por falar em aventuras na terra, o Compass enfrentou muitos percursos off-road durante a avaliação. O sistema de tração, assim como havia ocorrido com o Renegade testado anteriormente, mereceu elogios. Ele superou sem qualquer dificuldade um trecho alagado, com muita lama, além de subidas com erosões e pedras soltas. Bastou acionar o botão 4WD Low (há ainda o 4WD Lock e os programas Auto, Snow, Sand e Mud) e acelerar. Porém, o SUV não conseguiu superar todos os obstáculos aos quais foi submetido: acabou ficando preso, pela parte central (bem no meio dos dois eixos) em uma lombada elevada, em uma trilha. Sem contato com o solo, as rodas começaram a girar em falso, anulando o sistema 4×4. Culpa da altura em relação ao solo, de 21,1 cm, que é apenas razoável dentro da categoria: não vai muito além de veículos com capacidade bem menor para rodar fora do asfalto (para efeito de comparação, em  uma Fiat Strada Adventure, esse vão é de 19,4 cm, e em um  Nissan Kicks, de 20 cm). A associação desse fator ao entre-eixos longo, de 2,636 m, limita significativamente os ângulos centrais (a Jeep não informa as medidas exatas no material técnico do modelo). Assim, se a ideia for se embrenhar por trilhas mais difíceis, é melhor ficar com a versão Trailhawk, que traz maior preparação para enfrenta-las (inclusive um vão livre de 22,9 cm).

Em consumo, assim como em desempenho, o Compass obteve bons resultados, com médias de 9,3 km/l em vias urbanas e de 13,7 km/l em rodovias.  Nossos índices foram parecidos com os registrados no Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular, que indicam marcas de 9,8 km/l na cidade e de 11,4 km/l na estrada para a versão Trailhawk (a Longitude a diesel não consta na tabela da entidade). Vale destacar que a nota foi dada com base nos números obtidos pelo Autos Segredos;  os do Inmetro foram citados como informação complementar.  O tanque tem 60 litros de capacidade, o que assegura uma autonomia aproximada de até 800 km.

Não restam dúvidas de que o Compass Longitude 4×4 é uma ótima opção dentro de seu segmento.  Apesar dos vários pontos em comum com o Renegade, ele justifica perfeitamente seu posicionamento superior no mercado não apenas pelo porte maior, mas também pelo acabamento mais sofisticado. Além disso, dentro de sua categoria, os preços são convidativos, principalmente nas versões a diesel: não há outro SUV médio movido por esse combustível com preços no mesmo patamar. Talvez isso explique, ao menos em parte, a grande procura pelo modelo na rede autorizada: algumas têm pedido até dois meses para entregar determinadas unidades. Esse é, sem dúvida, um  forte ponto negativo para quem pretende adquirir o modelo.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 8 9
Consumo (cidade e estrada) 8 7
Estabilidade 8 8
Freios 8 8
Posição de dirigir/ergonomia 8 9
Espaço interno 9 9
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 7 8
Acabamento 9 9
Itens de segurança (de série e opcionais) 7 8
Itens de conveniência (de série e opcionais) 7 8
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 10 10
Relação custo/benefício 8 8

FICHA TÉCNICA

»MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, a diesel, sobrealimentado com turbocompressor, 1.956 cm³ de cilindrada, 170cv de potência máxima a 3.750 rpm, 35,7 kgfm de torque máximo a 1.750 rpm

»TRANSMISSÃO
Tração integral e câmbio automático de nove marchas.

»ACELERAÇÃO ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
10 segundos

»VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
194 km/h

»DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

»FREIOS
Discos ventilados na dianteira e discos sólidos na traseira, com ABS

»SUSPENSÃO
Independente do tipo McPherson na dianteira e na traseira

»RODAS E PNEUS
Rodas em liga leve 18x 7, pneus 225/55 R18

»DIMENSÕES 
Comprimento, 4,416 m; largura, 1,819 m; altura, 1,645 m; distância entre-eixos, 2,636 m; altura em relação ao solo: 21,1 cm; peso, 1.717 quilos

»CAPACIDADES
Tanque de combustível: 60 litros; porta-malas: 410 litros; carga útil (passageiros e bagagem), 400 quilos

Fotos | Gladyston Rodrigues