Hatch compacto traz boas soluções de projeto e pacote de equipamentos coerente; câmbio automático com apenas quatro marchas prejudica tanto o consumo quanto o desempenho

teste_citroen_c3_22Alexandre Soares
Especial para o Autos Segredos

 Há uma certa tradição que liga os carros franceses a inovações e ousadias no campo da habitualidade. Enquanto os italianos são especialistas em design e os alemães em engenharia, os fabricantes do país mais a oeste costumam valorizar elementos mais subjetivos, ligados ao convívio com o veículo. O aromatizador de ambiente do antigo Citroën C4 e os instrumentos posicionados acima do aro do volante do Peugeot 208 são alguns exemplos mais recentes do Grupo PSA. São detalhes, é verdade, mas que acabam agradando, e que para uma parcela de compradores menos ligada a questões técnicas, podem acabar se tornando decisivas. No caso do Citroën C3, o maior destaque fica por conta do parabrisa panorâmico Zenith. Esse item não é novidade (está presente no hatch desde 2012, quando a atual geração foi lançada no Brasil), mas ainda constitui um dos aspectos mais agradáveis do carrinho, ao ampliar o campo de visão para cima, algo ao mesmo tempo útil e agradável.

teste_citroen_c3_3O para-brisa Zenith é um dos itens de série da versão Tendance equipada com câmbio automático, a última a integrar a linha C3 (anteriormente, essa transmissão estava restrita à top Exclusive). Além dos dois itens citados, essa configuração traz ainda rodas em liga leve aro 15, vidros, travas e retrovisores elétricos, computador de bordo, direção com assistência elétrica, CD Player com leitor MP3, entradas USB e auxiliar e Bluetooth, além dos obrigatórios freios ABS e dos airbags frontais.  Por esse conjunto, a Citroën cobra  R$ 53.990, valor competitivo diante dos concorrentes.

teste_citroen_c3_9Mecânica e dinâmica

O câmbio automático do C3 Tendance é o mesmo de sempre, com apenas quatro velocidades. A ele, está associado o também conhecido motor 1.6 (1.587 cm³), com 16 válvulas, capaz de gerar 115 cv de potência com gasolina e 122 cv de potência com etanol, a 5.800 rpm. O torque é de 15,5 kgfm com o primeiro combustível e de 16,4 kgfm com o segundo, sempre a 4.000 rpm. O propulsor tem bloco confeccionado em ferro, cabeçote em alumínio e comando de admissão variável, além de sistema de partida a frio com aquecimento dos bicos injetores, que dispensa o famigerado tanquinho. Trata-se, portanto, de uma concepção que não chega a ser simplória, mas que tampouco traz grandes doses de tecnologia. No mais, a suspensão segue o tradicional esquema independente do tipo McPherson no eixo dianteiro e semi-independente por barra de torção no traseiro.

Em funcionamento, o que se vê é um descompasso entre o motor e o câmbio. O primeiro mostra bastante competência: entrega boas respostas em todas as faixas de rotação e funciona de modo suave, mesmo perto do limite de corte. Já o segundo revela limitações: ele até atua com suavidade, e a programação eletrônica mostra-se competente, fazendo trocas nos momentos certos, mas deixa as rotações do propulsor caírem demais durante as mudanças, em virtude da pouca quantidade de marchas, prejudicando o desempenho. Desse modo, há prejuízo principalmente às retomadas de velocidade, que poderiam ser mais ágeis.        O escalonamento longo, por outro lado, reduz o nível de ruído em viagens: a 120 km/h, em quarta, o tacômetro registra 3.200 rpm. E há aletas no volante para trocas de marchas em modo sequencial, algo até surpreendente em uma versão intermediária. Por fim, a suspensão tem acerto mais rígido, típico da Citroën, para privilegiar a esportividade, mas não a ponto de prejudicar a absorção de impactos do solo. Por fim, a direção também agrada, com boa progressividade, que proporciona leveza em manobras e firmeza em alta velocidade.

teste_citroen_c3_13Além de prejudicar o desempenho, o câmbio de quatro marchas também pode ser responsabilizado pelo alto consumo que o C3 apresentou. Com gasolina no tanque, o hatch não passou dos 8,7 km/l na cidade e dos 11,3 km/l na estrada. As aferições foram feitas com ar-condicionado ligado, como é de praxe no Autos Segredos. Porém, nesse caso, a transmissão não é a única vilã: o peso de 1.182 kg, elevado para um compacto, é outro culpado. É sempre válido destacar que o gasto de combustível de um automóvel está relacionado a vários fatores, entre os quais as características das vias, o relevo e o estilo de condução do motorista.

teste_citroen_c3_18Interior

Por dentro, o C3 demonstra boa habitualidade. O espaço é generoso para um compacto, graças ao teto elevado, que faz todos se sentarem em posição mais vertical. Quatro adultos de estatura mediana viajam confortavelmente, sem ter as pernas ou a cabeça espremidos. Com lotação máxima, a situação não é tão favorável, mas ninguém chega a ser martirizado. Outra vantagem é que todos contam com a proteção do encosto de cabeça e do cinto de três pontos. O porta-malas, com 300 l de capacidade, está pouco acima da média da categoria e também agrada. Já o acabamento interno não chega a se destacar, nem para menos nem para mais: os arremates são corretos, sem rebarbas, e há muitas texturas diferentes, mas o material predominante é o plástico sem emborrachamento. O tecido dos bancos, com aspecto sintético, é que agrada, com padronagem que imita as calçadas de Copacabana.

O motorista goza de boa posição para dirigir, com ergonomia correta. Só o volante é um tanto grande; poderia ser melhor, para proporcionar melhor pegada, mas, por outro lado, a coluna de direção é ajustável em altura e profundidade. O banco também pode ser regulado em altura e proporciona boa acomodação para o corpo, tanto para a coluna quanto para as pernas. Ademais, as abas laterais generosas ajudam a firmar o corpo em curvas. Os instrumentos têm boa visualização, embora não exista termômetro do fluido de arrefecimento do motor, ausência sempre criticada pelo Autos Segredos. Os comandos também têm boa acessibilidade, com exceção dos interruptores dos vidros elétricos, que ficam parcialmente bloqueados pelo puxador da porta. No mais, os faróis bi-parabólicos iluminam bem e ainda contam com luzes diurnas de LEDs, ao passo que os limpadores varrem boa área.

teste_citroen_c3_1Palavra final

O Citroën C3 Tendance automático é uma boa opção dentro do seu segmento. O preço, como já foi dito, de R$ 53.990, está no mesmo patamar da concorrência.  É fato que o hatch ficaria bem melhor com uma transmissão tecnologicamente mais avançada, mas graças a seu pacote de equipamentos e sua habitualidade, consegue minimizar essa deficiência com outras vantagens.

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 7  7
Consumo (cidade e estrada) 6  5
Estabilidade 8  8
Freios 7  8
Posição de dirigir/ergonomia 9  7
Espaço interno 8  8
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 7  7
Acabamento 7  7
Itens de segurança (de série e opcionais) 7  7
Itens de conveniência (de série e opcionais) 8  8
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7  7
Relação custo/benefício 8  8

teste_citroen_c3_10FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, gasolina/etanol, 1.587 cm³ de cilindrada, 115 cv (g)/122 cv (e) de potência máxima a 5.800  rpm, 15,5 kgfm (g)/ 16,4  mkgf (e) de torque máximo a 4.000  rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio automático de quatro marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h 
Não informada pelo fabricante

VELOCIDADE MÁXIMA 
Não informada pelo fabricante

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
Discos ventilados na dianteira, tambores na traseira, com ABS e EBD

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson, com barra estabilizadora; traseira, semi-independente, eixo de torção, com barra estabilizadora

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio 5,5 x  15, pneus 195/60 R15

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 3,944; largura, 1,708; altura, 1,521; distância entre-eixos, 2,460

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 55 litros; porta malas: 300 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 406 quilos; peso: 1.182 quilos

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Foto | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos