Grande, pesado, robusto, espaçoso, potente e beberrão: modelo derivado da S10 mantém todas as características, boas e ruins, dos veículos que fizeram surgir o segmento de utilitários esportivos

chevrolettrailblazer53A Trailblazer é descendente de uma verdadeira dinastia de SUVs, produzidos no Brasil pela Chevrolet desde a década de 1950. Precedida por nomes célebres, como Amazona, Veraneio e Bonanza, o modelo tem a missão de manter a marca viva em um segmento que dominou por décadas, até a antecessora direta Blazer demorar demais para ser atualizada e perder o posto. Para tornar a situação mais difícil, a categoria sofreu uma verdadeira avalanche de concorrentes, todos importados. Será que a tradição, aliada ao projeto atualizado, são capazes de trazer os bons tempos de volta?

chevrolettrailblazer49Tradição parece ser mesmo a palavra que regeu o desenvolvimento da Trailblazer. O modelo é um SUV no sentido literal da palavra, derivado de picape (a S10, no caso) e construído sobre chassi. Sob o capô, há um 3.6 V6 a gasolina, já conhecido por alguns consumidores: trata-se da mesma unidade que equipou a última geração do Omega. A Captiva também chegou a utilizá-lo, logo em seus primeiros anos no mercado nacional, mas acabou substituindo-o por um 3.0. O bloco de maior cilindrada não leva vantagem nos números absolutos: são 239 cv de potência a 6.600 rpm e 33,5 mkgf de torque a 3.200 rpm, ante 268 cv a 6.950 rpm e 30,0 mkgf a 5.100 rpm do menos. Parece que a Chevrolet recolocou o 3.6 de volta à ativa devido à sua maior oferta de força em baixa rotação, algo imprescindível em um veículo pesado como a Trailblazer, que na versão avaliada chega aos 2.087 kg. Esse motor é construído inteiramente em alumínio e dotado de coletor de admissão e comando de válvulas variáveis, mas conta com um sistema de alimentação tradicional, enquanto o 3.0 utiliza a mais eficiente injeção direta. Mas vale ressaltar que o funcionamento, além de suave, produz aquele ronco gostoso que parece borbulhar típico de cilindros dispostos em V.

APARATO OFF-ROAD O motorzão é regido por uma caixa automática de seis velocidades, semelhante à de outros veículos comercializados pela Chevrolet: não dispõe de programação Sport ou Snow, mas conta com opção de trocas sequenciais. O que muda é o modo de manuseio, que ocorre não por botões na alavanca, mas por toques na mesma. Tudo bem que o Trailblazer não tem vocação alguma para a esportividade, mas desejável mesmo seria a existência de teclas para comandar o câmbio no volante. Contudo, ainda no que diz respeito à transmissão, o diferencial é o aparato off-road completo, composto por tração 4×4 e reduzida, ambas com acionamento eletrônico. O sistema não é permanente: em uso normal as rodas motrizes são as traseiras. O conjunto mecânico ainda conta com suspensões independentes por braços sobrepostos na dianteira multibraços (fivelink) na traseira, além de direção com assistência hidráulica.

chevrolettrailblazer7Rodando no asfalto, a mecânica mescla vantagens e desvantagens. O desempenho é muito bom em todas as faixas de rotação, fruto das respostas do propulsor e do bom funcionamento do câmbio. Basta acelerar para ver a enorme massa corporal da Trailblazer deslanchar com rapidez. A direção hidráulica também cumpre bem o seu papel, com acerto que proporciona leveza em manobras e firmeza em alta velocidade. Além do mais, as rodas esterçam bastante, facilitando a vida do motorista na hora de estacionar. Porém, apesar de sofisticada, a suspensão não consegue impedir rolagem exagerada da carroceria em curvas, que exigem atenção do motorista. A calibragem é macia, mas nem assim torna o rodar confortável: a absorção de impactos provenientes de buracos e desníveis é satisfatória, mas o veículo pula em lombadas e ondulações maiores. Além do mais, o modelo sofre o chamado efeito gangorra, abanando as extremidades da carroceria em acelerações e frenagens fortes.

Se por um lado a Trailblazer revela limitações ao trafegar por locais pavimentados, por outro mostra-se totalmente à vontade em vias de terra. O sistema de tração 4×4 com reduzida, a altura de 23,2 cm em relação ao solo e os bons ângulos de ataque e saída são credenciais para incursões por caminhos onde aventureiros e crossovers nem sonham em passar. Os pneus são de asfalto, não de uso misto, o que piora a performance em pisos de baixa aderência, mas ao menos o perfil elevado (265/60 R18) os torna capazes de encarar impactos contra obstáculos. Durante o período em que esteve com o Autos Segredos, o SUV da Chevrolet foi submetido a dezenas de quilômetros em estradas rurais, por onde passou com extrema tranquilidade. O roteiro também incluiu um trecho de trilha, com desníveis, pedras, areia e até um riacho, transposto sem quaisquer dificuldades. Durante todo o percurso off-road, não houve esbarrões contra o solo, mas em locais de vegetação mais fechada foi impossível evitar que as laterais raspassem em arbustos e galhos, pois a carroceria é muito larga e alta. O veículo não chegou a sofrer danos, mas se a aventura tivesse sido repetida mais vezes, provavelmente teriam surgido arranhões na pintura. A avaliação só não teve direito a lamaçais, devido à típica falta de chuva em Minas Gerais durante os meses de junho e julho.

chevrolettrailblazer19TAMANHO FAMÍLIA A Trailblazer tem 4,878 metros de comprimento, 1,902 de largura, 1,841 de altura e 2,845 de distância entre-eixos. A corpulência, típica de SUV, traz incômodos até na hora de circular por trilhas, mas ao menos resulta em espaço generoso no habitáculo: no banco intermediário, três adultos acomodam-se sem aperto para ombros, cabeça e pernas, mas há uma ressalva para a pouca altura do assento, que deixa os joelhos mais elevados que o quadril e sem apoio para as coxas, inconveniente que a Blazer também apresentava. Há ainda a opção de transportar dois ocupantes extras em um par de poltronas que ficam embutidas no assoalho do porta-malas quando estão fora de uso, embora ali as acomodações sejam apertadas (veja mais informações aqui).  Por falar no bagageiro, a capacidade é de bons 554 litros com os bancos configurados para cinco ocupantes. Com sete pessoas a bordo, o valor cai para apenas 205 litros, mas em situação contrária, com todos os assentos rebatidos (menos o do motorista e o do passageiro frontal), o veículo se transforma praticamente em um furgão, com 1.830 litros de volume destinado à carga e enorme vão de abertura.

O motorista senta-se em posição elevada, típica de SUV. A ergonomia é correta, com pedais e volante alinhados. Há ainda um generoso apoio para o pé esquerdo, detalhe simples, porém negligenciado por muitos veículos. O banco do motorista, que proporciona bom apoio para as pernas e as costas, dispõe de ajustes elétricos inclusive no sentido vertical, mas a coluna de direção é regulável apenas em altura, não em profundidade. O quadro de instrumentos é completo, mas velocímetro e conta-giros são pequenos, dificultando um pouco a leitura. A visibilidade é boa para frente e para as laterais, mas ruim para trás. Ao menos os retrovisores são grandes e ajudam a ver a retaguarda, além de incorporarem os repetidores de seta. Os faróis iluminam bem, mas considerando a concepção com fachos separados baixo/alto e bloco elíptico, esperávamos resultados ainda melhores. Ao menos há auxílio de luzes de neblina na frente e atrás. Os limpadores não foram submetidos a chuvas e tiveram a eficiência colocada à prova apenas em lavagens, com resultados satisfatórios em termos de silêncio e área de varredura.

chevrolettrailblazer6O acabamento da Trailblazer não chega a ser ruim, mas definitivamente fica abaixo do que se espera considerando o preço de tabela, que supera a barreira dos R$ 100 mil. Os bancos são forrados em couro, assim como parte dos painéis das portas. O habitáculo mescla cores claras e escuras, que ajudam a deixa-lo arejado e agradável.  Porém, no mais, o modelo é revestido com materiais plásticos, com superfícies rígidas. Há alguns apliques imitando metal, mas faltam compostos emborrachados, macios ao toque. Além do mais, é possível encontrar rebarbas e alguns encaixes imprecisos. Há, contudo, alguns detalhes que agradam, como a grande oferta de porta copos e outros objetos, além da presença de difusores de ar para todas as fileiras de assentos.

SEM OPCIONAIS A Chevrolet comercializa a Trailblazer com um único pacote de equipamentos, que inclui ar-condicionado digital, alarme com acionamento à distância, travas elétricas, retrovisores com ajuste e rebatimento elétricos, cruise-control, computador de bordo, aparelho de som com CD Player, MP3, Bluetooth, porta mini-USB e entrada auxiliar e rodas em liga de alumínio. Entretanto, há algumas ausências incoerentes: só o vidro elétrico do motorista tem dispositivo um-toque, enquanto o sistema multimídia, que incorpora navegador GPS e DVD Player, é vendido como acessório nas concessionárias. Para adquirir a câmera de ré, outro item que integra a lista de acessórios e faz falta em um veículo cujo comprimento beira os 5 metros, é novamente preciso pagar à parte. Como se não bastasse, o veículo só vem de fábrica com sensores de estacionamento traseiros. Os dianteiros, adivinhe, também são comercializados na rede autorizada… Outra baixa digna de nota é o teto solar, indisponível para o SUV.

chevrolettrailblazer9Se a lista de equipamentos de conforto da Trailblazer deixa a desejar, o pacote de itens de segurança é mais generoso. O modelo é equipado com airbags frontais e do tipo cortina (que cobrem as três fileiras de bancos), controles eletrônicos de tração e estabilidade, sistema isofix para fixação de cadeirinhas e cintos de três pontos e encostos de cabeça para todos os ocupantes. Como nem tudo é perfeito, faltam os airbags laterais. Os freios, a discos ventilados nas quatro rodas, imobilizam o veículo com segurança e não demonstraram fadiga em descidas de serra, mas o pedal apresentou pouca modularidade.

O consumo da Trailblazer é elevado, graças à associação de motor de grande cilindrada e carroceria pesada. Em circuito urbano, quase todas as aferições ficaram entre 5,0 km/l e 5,5 km/l, sendo que a pior marca foi de 4,5 km/l e a melhor ficou em 6,4 km/l. Já em ciclo rodoviário, as médias normalmente variaram entre 8,0 km/l e 8,5 km/l, com picos de 7,6 km/l e 9,1 km/l. As medições foram feitas com ar-condicionado ligado a maior parte do tempo. A versão V6 consome apenas gasolina e ao menos por enquanto, o SUV não é oferecido com sistema flex. Como sempre, o Autos Segredos destaca que vários fatores podem interferir no consumo de combustível, tais como características das vias, relevo, condições do trânsito e estilo de condução do motorista.

chevrolettrailblazer41SUV SEM MEDO DE TERRA Quando foi lançada, em novembro do ano passado, a Trailblazer  V6 custava R$ 145.450. Era um valor muito salgado, que a tornava mais cara que a maioria dos concorrentes. Porém, a Chevrolet revisou sua tabela e a gora o veículo parte de R$ 134.500. Para efeito de comparação, os rivais diretos Toyota SW4 (que traz motor 2.7 de quatro cilindros, menos potente, porém flex) e Mitsubishi Pajeto Dakar 3.5 V6 (dotada de sistema flex e apenas um pouco menos potente) partem respectivamente de R$ 115.600 e R$ 137.990. Os três têm projeto derivado de picape e construção sobre chassi. Porém, o segmento de SUVs viveu uma verdadeira explosão nos últimos anos e passou a abranger uma série de outros modelos, vários deles com concepção mais parecida com a de automóveis, com rodas de perfil baixo e carroceria montada em estrutura monobloco. É o caso de Santa Fe 3.3 V6 e Kia Sorento 3.5 V6, pelos quais Hyundai e Kia cobram R$ 162.000 e R$ 159.900 nas versão de sete lugares, na ordem. Feitas as considerações, a conclusão é que, mesmo não sendo uma pechincha, o preço da Trailblazer é competitivo dentro da categoria. A ausência de alguns equipamentos de série desanima, mas a capacidade off-road é um diferencial que pode ser determinante para certos consumidores, sem necessariamente que eles já tenham possuído alguma das antecessoras.

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FICHA TÉCNICA

MOTOR

Dianteiro, longitudonal, seis cilindros em V, 24 válvulas, gasolina, 3.564 cm³ de cilindrada, 239 cv de potência máxima a 6.600 rpm, 33,5 kgfm de torque máximo a 3.200 rpm

TRANSMISSÃO

Tração integral com acionamento eletrônico, câmbio automático de seis marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)

9,1 segundos

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)

180 km/h

DIREÇÃO

Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS

Discos ventilados na dianteira e na traseira, com ABS e EBD

SUSPENSÃO

Dianteira, independente, com braços articulados e barra estabilizadora; traseira, independente, five-link com barra estabilizadora

RODAS E PNEUS

Rodas em liga de alumínio, 7,5 x 18 polegadas, pneus 265/60 R18

DIMENSÕES (metros)

Comprimento, 4,878; largura, 1,902; altura, 1,841; distância entre-eixos, 2,845

CAPACIDADES

Tanque de combustível: 76 litros; porta malas: 554 litros, podendo variar de 205 a 1.830 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 633 quilos; peso: 2.087 quilos

AVALIAÇÃO Alexandre Marlos
Desempenho (acelerações e retomadas) 9 9
Consumo (cidade e estrada) 5 4
Estabilidade 6 6
Freios 8 9
Posição de dirigir/ergonomia 8 7
Espaço interno 9 9
Porta-malas (espaço, acessibilidade e versatilidade) 10 10
Acabamento 7 8
Itens de segurança (de série e opcionais) 8 7
Itens de conveniência (de série e opcionais) 7 7
Conjunto mecânico (acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 7 6
Relação custo/benefício 6 5

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Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos