Visual chamativo, motor atual e suspensão que privilegia a estabilidade são características marcantes. Embora o conjunto agrade,  modelo peca na lista de equipamentos, que poderia ser mais generosa

Não é novidade dizer que a linha Chevrolet à venda no Brasil passa por um momento de renovação. Entre os modelos mais recentes da marca, é possível identificar duas vertentes distintas de projetos. Os mais populares têm desenvolvimento local e características técnicas mais simples, com ênfase em questões como espaço interno e custo de produção. Agile, Cobalt e Spin são alguns dos representantes da classe em questão. No segundo grupo, na parte de cima da gama, estão os produtos globais, concebidos para mexer mais com o lado emocional do consumidor, dotados de design arrojado e engenharia mais elaborada. É o caso de S10, Cruze e também do Sonic, que chegou ao Brasil para concorrer com os chamados compactos premium.

Por enquanto, o Sonic é produzido apenas na Coreia do Sul, de onde é exportado para vários mercados, inclusive para a toda a Europa e a América do Norte. Como o país não tem acordo comercial com o Brasil, a marca da gravata paga  35,5% de IPI para comercializar o modelo. Em breve, tanto o hatch quanto o sedã ganharão cidadania mexicana, o que deverá aumentar a competitividade, inclusive em termos de oferta, pois a importação da Ásia é mais complicada e limitada. Mesmo assim, já existem filas de espera nas concessionárias. Após nosso contato, duas coisas ficaram bem claras: a primeira é que, em termos de projeto, o Sonic é muito bem resolvido, com motor que oferece rendimento condizente e suspensão que revela até uma certa pegada esportiva para quem está ao volante. A segunda é que a Chevrolet deveria oferecer mais equipamentos, conforme explicaremos adiante.

Embora a aparência externa do Sonic seja bastante singular dentro da linha Chevrolet, ao volante a sensação de proximidade com o Cruze e consequente distanciamento dos irmãos nacionais é ainda mais evidente. A começar pelo desempenho do motor, um Ecotec 1.6 16V com duplo comando de válvulas variável (Dual CVVT) e coletor de admissão variável. Apesar do uso da correia dentada ao invés de corrente e do emprego de ferro fundido na confecção do bloco, trata-se de um trem de força atual e eficiente, capaz de render 120/116 cv de potência a 6.000 rpm e 16,3/15,8 kgfm de torque a 4.000 rpm. Segundo o fabricante, 90% da força máxima já está disponível a partir das 2.200 rpm e a sensação é de que as respostas realmente são boas qualquer faixa de rotação. O sedã não chega a ser um foguete, mas a performance agrada. Em regimes altos, porém, nota-se alguma aspereza no funcionamento. No geral, fica bem evidente a superioridade técnica dos propulsores Ecotec em relação aos chamados Econoflex, bem menos evoluídos tecnologicamente.

BOM DE CURVA Se você é daqueles compradores tradicionais da Chevrolet, acostumados a um comportamento suave, provavelmente não vai gostar do acerto de suspensão do Sonic. O sistema segue a maior parte dos automóveis e adota sistemas McPherson na frente e eixo de torção atrás. A diferença está no acerto, bastante rígido. Em pisos irregulares, o modelo chacoalha, transmitindo grande parte das imperfeiçoes para os ocupantes. Mas se a ideia é ter um carro que contorne curvas com disposição, a coisa muda de figura. O sedã oferece comportamento muito seguro em trechos sinuosos e chega até a surpreender em termos de estabilidade. A carroceria inclina pouco e os pneus demoram a começar a perder aderência. A boa atuação da direção também contribui para a dirigibilidade, pois a assistência, apesar de hidráulica, tem ótima progressividade, deixando o volante suficientemente firme em alta velocidade e bem macio em baixa. Os freios se mostraram bem dimensionados, mas apesar do auxílio do ABS, não chegaram a se destacar. O veículo para de forma satisfatória, porém sem atingir ótimos resultados.

Quanto ao câmbio automático, notamos o mesmo inconveniente que já havia sido relatado na avaliação do Cruze sedã (veja aqui): o software não “compreende”  bem as intenções do motorista e faz reduções desnecessárias quando se trafega com suavidade, ou então mostra indecisão quando se exige mais do acelerador. Essa questão também foi descrita pelo Marlos (veja aqui) e provavelmente seria solucionada se houvesse a chamada função Sport, com dois modos distintos de funcionamento. É que a caixa dispõe de apenas um programa, o que acaba deixando as respostas nervosas demais em situações de tranquilidade ou lentas quando são desejadas reações rápidas. Também fazem faltas as borboletas no volante. É possível comandar o sistema manualmente, mas apenas por meio de um botão na alavanca. Pelo menos as trocas são suaves e há seis velocidades, que se mostraram bem escalonadas, aproveitando potência e o torque do motor com eficiência.

No habitáculo, o projeto contribui para a condução agradável. A posição de dirigir é correta e não há falhas aparentes no posicionamento dos pedais e do volante. O banco do motorista é regulável em altura, assim como a coluna de direção, que pode ser ajustada ainda em profundidade. O quadro de instrumentos, que desagrada a algumas pessoas devido ao design inspirado no motociclismo, oferece boa leitura do velocímetro e do conta-giros, mas peca pela ausência do termômetro de água. O marcador de combustível, em forma de barras digitais, não permite visualização precisa, contudo a falha é parcialmente atenuada pelo computador de bordo, que mostra a autonomia do veículo. A visibilidade é boa para frente e para os lados, enquanto para trás a situação é apenas razoável, pois como é comum ocorrer em sedãs, o terceiro volume da carroceria é alto. Ao menos há sensores de estacionamento traseiros. Os retrovisores externos são bem dimensionados, porém o interno parece pequeno demais. Os bancos são ótimos: grandes e com generosas abas laterais, acomodam bem as pernas e a coluna, sem permitir que o corpo fique solto nas curvas.

MINI CRUZE No interior, o Sonic volta a lembrar o Cruze, com muitas linhas curvas e o conceito de duplo cockpit introduzido recentemente pela Chevrolet. Os revestimentos também são semelhantes aos do irmão maior, compostos por plásticos de diferentes cores e texturas, agradáveis ao toque e montados de forma precisa. Não há materiais emborrachados no painel e nas forrações das portas, característica que não chega a comprometer dentro do segmento, mas coloca o sedã em desvantagem na comparação com o rival New Fiesta, dotado de algumas superfícies macias. O isolamento acústico é bom no que diz respeito à rodagem, mas deixa a desejar quando o motor atinge altas rotações.

O espaço interno não deixa a desejar, mas não chega a ser destaque. Atrás, dois adultos não esbarram as pernas nos bancos dianteiros, mas pessoas de estatura elevada poderão raspar a cabeça no teto. Para três ocupantes, a acomodação é apertada. Há abundância de porta-objetos, com direito até a bandeja embaixo do banco do passageiro. O porta-malas tem boa capacidade para a categoria, comportando 477 litros de bagagem e trazendo rede e ganchos para fixação de carga. O compartimento é todo forrado em carpete e os bancos traseiros são rebatíveis nas proporções de 1/3 e 2/3, favorecendo o transporte de objetos maiores.  A falha fica por conta das dobradiças do tipo “pescoço de ganso”, que roubam espaço. Bom mesmo seria a utilização de um sistema pantográfico…

No centro do banco traseiro, uma falha grave: não há cinto de três pontos e encosto de cabeça para o quinto ocupante. Por outro lado, o Sonic vem de série com o sistema isofix para fixação de cadeirinhas. Há também airbag duplo e freios ABS. A iluminação fica por conta de faróis de dupla parábola, mais eficientes que os do irmão Cruze, auxiliados por luzes de neblina na frente e atrás, além de repetidores de seta posicionados nos para-lamas. Faltou a regulagem de altura dos fachos, muito útil quando o veículo está carregado. Os limpadores de para-brisa varrem boa área e são silenciosos. Em termos de segurança, o sedã é apenas razoável, trazendo os principais equipamentos, mas deixando para trás pormenores importantes. Além do mais, deveriam se disponibilizados, ao menos como opcionais, o conjunto de airbags laterais e do tipo cortina, além do controle eletrônico de estabilidade. Novamente vem à cabeça o rival New Fiesta, que oferece os itens em um pacote à parte.

FEIJÃO COM ARROZ Entre os equipamentos de conforto, além daqueles já citados ao longo do texto, há ar-condicionado, rodas em liga leve aro 16”, rádio/cd player com bluetooth, entrada USB e controles no volante, piloto automático, revestimento dos bancos em couro, vidros travas e espelhos elétricos nas quatro portas, porém com função um-toque apenas para o motorista. Mais uma vez, fica a sensação de que a Chevrolet ficou no feijão com arroz. Bem que o Sonic poderia ter também, por exemplo, ar-condicionado digital, GPS e acionamento automático de faróis e limpadores.

O consumo do Sonic não foi alto. Embora o modelo não possa ser classificado como econômico, as marcas não diferiram muito daquelas obtidas por outros veículos de cilindrada semelhante testados pelo Autos Segredos. Na estrada, a média foi de 11,5 km/l de gasolina e 9,5 km/l de etanol. Na cidade, o modelo registrou 8,0 e 6,5 km/l com os mesmos combustíveis. A capacidade do tanque é que desagrada, com apenas 46 litros, limitando a autonomia.

FIM DE PAPO Quando o Sonic foi lançado, um executivo da Chevrolet disse que o público alvo dele são as famílias jovens. O sedã realmente parece ter sido feito sob medida para esse tipo de consumidor, com design chamativo, boa dirigibilidade e desempenho na medida. O espaço no habitáculo é apenas razoável, mas suficiente dentro da proposta em questão. O problema é que, pelo preço de $ 56.100, o modelo deveria ser mais completo, tanto no que diz respeito ao conforto quanto à segurança. Embora o fabricante planeje promover alterações no conteúdo da linha 2013, conforme antecipamos (veja aqui), o consumidor merecia receber mais recheio. Fica a expectativa para que uma ampliação mais generosa na lista de equipamentos seja promovida quando a produção migrar para o México, a partir do ano que vem. Seria um up-grade bem vindo, que se somaria ao projeto bem resolvido e à mecânica atual do veículo.

Avaliação Alexandre Marlos
Desempenho(acelerações e retomadas) 

 

7 7
Consumo(cidade e estrada) 

 

7 6
Estabilidade 

 

8 8
Freios 

 

7 8
Posição de dirigir / Ergonomia 

 

8 7
Espaço interno 

 

7 8
Porta-malas(espaço, acessibilidade e versatilidade) 

 

9 10
Acabamento 

 

8 9
Itens de segurança(de série e opcionais) 

 

7 7
Itens de conveniência(de série e opcionais) 

 

7 8
Conjunto mecânico(acerto de motor, câmbio, suspensão e direção) 

 

8 7
Relação custo/benefício 

 

6 7

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, com comando de admissão variável e duplo comando de válvulas continuamente variável, gasolina/etanol, 1.598 cm³ de cilindrada, 116cv (g)/112cv (e) de potência máxima a 6.000 rpm, 15,8 kgfm (g)/ 16,3 mkgf (e) de torque máximo a 4.000 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio automático sequencial de seis marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h
Não informada pelo fabricante

VELOCIDADE MÁXIMA
Não informada pelo fabricante

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência hidráulica

FREIOS
Discos na dianteira, tambores na traseira, com ABS

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio 6 x 16, pneus 205/55 R16

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,399; largura, 1,735; altura, 1,517; distância entre-eixos, 2,525

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 46 litros; porta malas: 477 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 420 quilos; peso: 1.207 quilos


Fotos | Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

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