O modelo segue uma fórmula consagrada entre os sedãs médios, oferecendo mecânica atualizada e bom pacote de itens de série. Entre qualidades e deslizes, o que sobressai é o equilíbrio, com boas novidades em relação ao antecessor

É normal que haja repercussão quando um novo automóvel é lançado. Porém, poucas vezes vi em redes sociais e blogs, incluindo o Autos Segredos, comentários tão exaltados quanto os relativos ao Cruze, na época da apresentação no Brasil, em setembro do ano passado. Muitos expressavam satisfação sobre a tão esperada renovação da linha Chevrolet, da qual o sedã foi estandarte. Outros manifestavam indignação com a descontinuação do Vectra e com o fim dos produtos de origem Opel no país, embora do ponto de vista mecânico, os nacionais tivessem pouquíssimas relações com os primos europeus. Até mesmo a chegada do motor Ecotec era motivo de discórdia, pois os velhos propulsores GM 2.0 têm defensores ferrenhos, que destacam pontos como robustez e baixo custo de manutenção. Polêmicas à parte, o fato é que se passaram cerca de seis meses desde então e o veículo já conquistou uma parcela considerável do mercado, sendo atualmente o vice-líder de vendas entre os sedãs médios. Pois bem, o Cruze parece ter sido bom negócio para a marca, mas será que também é para o consumidor? Após nossa convivência, concluímos que a resposta é sim. Não que ele seja perfeito: nós notamos algumas falhas, todas descritas no texto. No cômputo geral, contudo, o modelo demonstra boas evoluções.

Já que mencionei o motor, vou começar pela descrição do Ecotec 1.8 16V que equipa o Cruze. O propulsor estreia recursos inéditos dentro da linha nacional da Chevrolet, como comando de admissão variável e duplo comando de válvulas continuamente variável. Cabeçote e cárter são de alumínio, mas o bloco é confeccionado em ferro fundido. O propulsor utiliza correia dentada, quando muitos concorrentes já a aboliram em prol da mais confiável corrente. Os valores de potência são razoavelmente elevados para a cilindrada: 140 cv com gasolina e 144 com etanol, a 6.300 rpm. O torque também é bom: 18,9/17,9 kgfm a 3.800 rpm, sendo que, segundo o fabricante, 90% do valor total já é despejado a 2.200 rpm.

A transmissão de seis marchas é outro componente totalmente novo para o consumidor brasileiro. Trata-se de um equipamento atual, mas que demonstrou alguns inconvenientes no uso diário. O primeiro deles é a falta da função Sport, já que o câmbio do Cruze possui apenas um programa de funcionamento. Na época do lançamento, o fabricante chegou a mencionar que o sistema é adaptativo e “interpreta” o estilo de condução do motorista, o que explicaria a questão. É verdade que o software é esperto, mas na prática, não consegue cumprir as funções do modo esportivo e do normal ao mesmo tempo. Quando se está guiando com mais calma, às vezes o comportamento da caixa de marchas é demasiado nervoso, com reduções desnecessárias e mudanças de marchas em rotações mais elevadas que o desejável. Por outro lado, em um ritmo mais agressivo, sente-se letargia do conjunto em algumas situações. O segundo ponto que merece ressalvas é a falta de borboletas no volante, que trariam mais prazer ao dirigir. É até possível realizar trocas sequencialmente, mas apenas com toques na alavanca.

COMPORTAMENTO O casamento entre o motor e o câmbio se traduz em um desempenho bom, mas não ótimo. O problema não está no conjunto mecânico, e sim no peso do modelo, que ultrapassa os 1.400 quilos. Ainda assim, há boas respostas em baixa rotação e rendimento satisfatório em alta, graças em parte às relações corretas da transmissão. Um defeito já mencionado pelo Autos Segredos (veja aqui) é a rumorosidade acima do desejável em giros elevados. Não parece faltar revestimento acústico; a causa é o próprio propulsor, que tem funcionamento perceptivelmente áspero. O nível de ruídos não chega ao ponto de atrapalhar conversas dentro do carro; situa-se em patamar semelhante ao de alguns veículos populares, o que é criticável na classe do Cruze. Pelo menos a sexta marcha reduz as rotações em velocidades mais elevadas, diminuindo os ruídos. A 120 km/h, o conta-giros marca apenas 3.000 rpm.

A suspensão do Cruze é do tipo independente McPherson na dianteira, com buchas hidráulicas e subchassi, e semi-independente Z-link na traseira, que a grosso modo é um eixo de torção com algumas especificidades, como perfil em forma de “U” e dois braços de ligação. A Chevrolet aplicou uma calibragem mais rígida ao sistema. As vantagens são reveladas em rodovias sinuosas, onde o modelo transmite segurança e contorna as curvas com disposição. Se o motorista abusar, ainda há o controle de estabilidade para colocar o veículo de volta ao rumo. O problema é quando se trafega em trechos de pavimentação ruim, quando a suspensão transmite as imperfeições do solo aos ocupantes. As rodas aro 17”, montadas em pneus de perfil baixo, acentuam ainda mais essa característica. Como estamos tratando de um sedã familiar, e não de um veículo com pretensões esportivas, talvez fosse mais coerente a aplicação de um acerto mais suave, sem chegar ao ponto de ser molenga. A direção com assistência elétrica é que agradou. Com ótima progressividade, deixa o volante bastante macio em manobras e firme em altas velocidades.

HABITALIDADE A posição de dirigir é correta, ajudada pelo volante ajustável em altura e distância. Os bancos em couro têm abas laterais generosas, que abraçam os ocupantes em curvas, e o do motorista também dispõe de regulagem em altura. Os comandos são bem localizados, com acessibilidade satisfatória. A visibilidade para frente e para os lados é boa, mas para trás a coisa muda de figura. Trata-se de um inconveniente muito comum em sedãs, que em tal aspecto são penalizados pelo terceiro volume da carroceria. Ao menos os retrovisores são bem dimensionados e cobrem boa área.

O espaço interno é amplo, mas não chega a se destacar frente à concorrência. No banco de trás, dois adultos de estatura média sentam-se com alguma folga para os joelhos e a cabeça, mas um terceiro ocupante sentirá algum incômodo. O desconforto não é provocado pela largura do habitáculo, que é suficiente, e sim na altura do túnel do câmbio, que compromete a acomodação dos pés e das pernas.

O porta-malas também não se destaca dentro da categoria, embora a capacidade de 450 litros seja razoável. O compartimento poderia ter melhor aproveitamento caso as dobradiças fossem pantográficas, e não do tipo pescoço de ganso, como ocorre. A tampa tem revestimento de carpete e dispõe de mecanismo de abertura por dentro do bagageiro, por meio de uma alavanca de cor branca, para facilitar a visualização no escuro. O recurso pode ser muito útil em caso de sequestro-relâmpago, crime que infelizmente faz parte da realidade do nosso país.

O Cruze é bem construído e não resta duvida de que houve evolução em relação ao antecessor Vectra. Não que o acabamento seja luxuoso, pelo contrário: painel e forrações das portas são rígidos e não dispõem de superfícies emborrachadas. Ainda assim, a impressão é de boa qualidade, pois os encaixes são bem arrematados e as peças têm diferentes tipos de texturizações. O contraste entre preto e tons de cinza claro e escuro é agradável e os plásticos parecem ser resistentes a riscos.

Curiosamente, por falar no Vectra, dois itens que equipavam o antecessor foram suprimidos no Cruze: os repetidores de seta integrados aos retrovisores e as palhetas do tipo flat-blade. Porém, verdade seja dita, o sedã não se ressente muito das abolições, pois há repetidores bem visíveis, em posição elevada nos para-lamas dianteiros, e os limpadores varrem o vidro com eficiência e silêncio. Talvez ambos sejam incorporados futuramente, em alguma reestilização. Com os faróis, a história é um pouco diferente: eles têm apenas uma parábola e até apresentaram boa iluminação em trechos escuros, mas não conseguem ser tão eficientes quanto os dotados de duplo-refletor, que equipam os concorrentes Alguns rivais vão muito além, com lâmpadas de xênon e fachos direcionais. Luzes de neblina na dianteira e na traseira do veículo ajudam a transpor condições climáticas adversas.

RECHEIO O pacote de equipamentos de segurança é um dos pontos altos do Cruze. A versão LTZ vem de série com airbags frontais, laterais e de cortina, pedais desarmáveis e controles eletrônicos de tração e estabilidade. Todos os ocupantes do banco de trás contam com cintos de três pontos e encostos de cabeça e ainda há o eficiente sistema Isofix para fixação de cadeirinhas. Os freios a disco nas quatro rodas são auxiliados pelo ABS com EBD e PBA e imobilizam o sedã com eficiência. A lista de itens de conforto também é extensa, com retrovisores rebatíveis eletricamente, ar-condicionado digital com ajustes individuais de temperatura e função AQS, que mede a qualidade do ar e ativa automaticamente a recirculação se houver poluição, faróis e limpadores de para-brisa com acionamento automático, sensores de estacionamento traseiros e sistema de abertura das portas e partida do motor sem chave. Faltou apenas o teto-solar, que está disponível no recém-lançado irmão Sport6.

A cereja do bolo é o sistema multimídia com tela integrada ao painel, que permite interface via bluetooth com função viva-voz para telefones celulares, navegação via GPS e manuseio do aparelho de som, que lê arquivos MP3 e tem entradas auxiliares USB e para cartões de memória e i-pods.  (veja informações mais detalhadas aqui). O sistema é intuitivo e fácil de operar, mas o manuseio ocorre por meio de botões. Bem que a central poderia ser do tipo touch-screen.

Apesar do pouco tempo no mercado, o Cruze já é rotulado como beberrão. Ocorre que, em nossas mãos, o sedã não apresentou consumo exagerado para a categoria em que está inserido, ao menos quando abastecido com gasolina. Na estrada, a média de várias passagens ficou em 11,5 km/l, sendo que a pior marca foi de 9,7 km/l e a melhor, de 13, 1 km/l. Na cidade, os números variaram menos: média de 8,5 km/l, mínimo registrado de 7,9 km/l e máximo de 8,8 km/l. Com etanol, contudo, o sedã justificou a fama de gastão, cravando apenas 5,0 km/l. O modelo foi abastecido com o combustível vegetal apenas uma vez, já no fim de sua estadia conosco, de modo que foram realizadas menos aferições, todas em em ciclo urbano. Os números foram fornecidos pelo computador de bordo e vale lembrar que diversas variáveis podem influenciar no resultado, como a topografia, as características das vias de circulação, as condições do trânsito, a lotação do veículo e o estilo de direção do motorista.

Como já dissemos no primeiro parágrafo, o Cruze convenceu, o que o levou a conquistar boas notas. De modo geral, ele se deu bem na regularidade: não tirou total, mas também não foi mal-avaliado em qualquer um dos itens descritos em nosso quadro. Fica uma última ressalva para o valor de compra anunciado na tabela, de R$ 79.900 para a versão LTZ. É verdade que o sedã dispõe de uma generosa lista de itens de série e que os concorrentes não estão distantes em termos de preço. Mas o montante faz o Chevrolet esbarrar em veículos de classe superior. Um preço mais em conta melhoraria consideravelmente a relação custo/benefício do modelo, tornando-o mais competitivo frente aos rivais diretos.

Avaliação Alexandre Marlos
Desempenho 

(acelerações e retomadas)

7 8
Consumo 

(cidade e estrada)

7 6
Estabilidade 

 

8 8
Freios 

 

8 8
Posição de dirigir / Ergonomia 

 

8 7
Espaço interno 

 

8 9
Porta-malas 

(espaço, acessibilidade e versatilidade)

7 8
Acabamento 

 

8 9
Itens de segurança 

(de série e opcionais)

9 8
Itens de conveniência 

(de série e opcionais)

9 9
Conjunto mecânico 

(acerto de motor, câmbio, suspensão e direção)

7 8
Relação custo/benefício 

 

7

 

FICHA TÉCNICA

MOTOR
Dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 16 válvulas, com comando de admissão variável e duplo comando de válvulas continuamente variável, gasolina/etanol, 1.796 cm³ de cilindrada, 140cv (g)/144cv (e) de potência máxima a 6.300 rpm, 17,9 kgfm (g)/ 18,9 mkgf (e) de torque máximo a 3.800 rpm

TRANSMISSÃO
Tração dianteira, câmbio automático sequencial de seis marchas

ACELERAÇÃO  ATÉ 100 km/h (dado de fábrica)
11,7 segundos com gasolina e 11,4 segundos com etanol

VELOCIDADE MÁXIMA (dado de fábrica)
197 km/h

DIREÇÃO
Pinhão e cremalheira, com assistência elétrica

FREIOS
Discos nas quatro rodas, com ABS, EBD e PBA

SUSPENSÃO
Dianteira, independente, McPherson; traseira, semi-independente, eixo de torção com dois braços de controle

RODAS E PNEUS
Rodas em liga de alumínio, 17 polegadas, pneus 225/50 R17

DIMENSÕES (metros)
Comprimento, 4,600; largura, 1,790; altura, 1,475; distância entre-eixos, 2,685

CAPACIDADES
Tanque de combustível: 60 litros; porta malas: 450 litros; carga útil (passageiros e bagagem): 468 quilos; peso: 1.434 quilos

Galeria


Fotos Marlos Ney Vidal/Autos Segredos

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